temperatur

Conta Thor Gotaas a páginas tantas no Livslang Skrivekløe: Historien om den vandrende redaktør Anders Mehlum, que Mehlum, antes de lançar o seu jornal de um homem só, “Nu”, teria publicado dois ou três fascículos de uma revista humorística no final de oitocentos em Oslo. Num desses fascículos aparece a história. Em Oslo, no inverno, um pobre diabo queixa-se à senhoria que no quarto que lhe alugou não se pode estar: que se gela. A senhoria diz que não pode fazer nada. Não culpa o frio; esperta, ocorre-lhe dizer o genial que a culpa é da temperatura.

O pobre aceita… talvez amedrontado com a palavra “temperatur” que provavelmente ouve pela primeira vez; palavra que, diz o Diccionário Académico Norueguês na rubrica ETYMOLOGI, é de origem latina, altivo e distante daqueles sons nórdicos (o adulterado “kulda“, de “kulde“) que designam frio, ou (fryse til is), gelar.

Como o pobre diabo de Oslo, também ouvimos explicações assim das nossas  Vossas Senhorias. Não se pode baixar o IVA da electricidade e apaziguar, por pouco que fosse, a sensação de gelo no inverno. A culpa não é do roubo. Mas do Fundo de Resolução. Não resolve o frio, mas aumenta o conhecimento do léxico. Ó que maravilha de prosa

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Sexta-feira em Frankfurt

Sexta-feira em Frankfurt, na salinha de fumo do aeroporto quase em frente à porta de embarque para Lisboa, um sujeito rotundo e lustroso pediu-me de empréstimo o isqueiro. Por modos e facies, pela indumentária, calculei que era português e disse, estendendo a pederneira, o da praxe faxfavor!

Sorriso, resposta de ah, é português, muito obrigado!

Já prevenido de outras vezes, e antes de se soterrado com blandifuosas expectorações de amizade, preveni: pois, sou, mas dos que não têem orgulho nenhum nisso

Desapareceu-lhe o sorriso de imediato, logo escolhendo o outro canto da sala. É provável que na brusquidão da resposta tenha revelado ser injusto e ingrato. É que o país tem tanta coisa de bonito e admirável

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Ler os outros

Pérez-Reverte sobre mulheres descalças,

(Mujeres con tacones rotos)

“Dos municipales pasan despacio a caballo, con resonar de cascos sobre el empedrado, viniendo de la calle Mayor en dirección a la plaza de la Provincia; y para verlos pasar levanto la vista del libro que tengo en las manos, Juego de espera, de Michael Powell. De pronto recuerdo que cuando me vaya debo ir a una esquina cercana para comprar un atado de palitos de regaliz a la señora que se sitúa allí por estas fechas, sentada con su bandeja en las rodillas, estampa que siempre me pareció entrañablemente galdosiana. Lo que demuestra, una vez más, que cuando hay referencias adecuadas en tu cabeza, libros y cosas así, lugares y personas cobran sentido y el mundo se ve diferente. […]”

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E de Pedro Arroja, na divertida tarefa de catar ridículos do poder judiciário português, a geografia de uma curiosa conjunção (do liberalismo com a criminalização do caralho):

Em Alentejano

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Maravilha das maravilhas

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Já a fama lhe tinha ouvido apregoada, revela-se bem melhor que tinha imaginado. Tava na fnac do aeroporto, vá de o convidar pra dar uma volta comigo aos mares escandinavos; em boa hora.

Mas também, Venâncio é garantia. De aprender algo (ou muito, à vontade do freguês) sem aturar peneiras.

 

 

 

 

 

 

 

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Coisas que ainda se encontram

A caminho de ir comprar duas torneiras (as outras pingavam) páro no café. Magro e reformado, um conhecido por ali parte do dia. Atiro-lhe em língua da nossa: queres buêr?

Quero! Vá lá atão!

Dá palmada no baclão.

Ó c’hopa!… deita aí um bagaço!

Salta a garrafa sem rótulo do esconso, o líquido transparente. Ainda se encontra. Com um balanço de cabeça, de um trago, canaliza goela abaixo, e faz um áhahahaaaá…

Depois mira as paredes de dentro do copo, as micro-gotículas de aguardente que restam e diz-lhe incriminando-a:

Ah malvada! … que dás cabo de mim!

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Luxos de viagem

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Poucas vezes me permito esse luxo mas hoje deixo carro estacionado num parque do aeroporto por voo tardio de chegada daqui a duas semanas. Viajo leve, por Munique, mochila com estritamente nécessaire, e apenas este Eksil (exílio) de Knut Faldbaken. Um outro luxo. História de um homem que abandona a vida certinha de casamento, apartamento em Teresesgate, emprego de colarinho branco, que após ser espancando Na estação de comboio de National Theatre se exila e passa a viver na clandestinidade entre a população estrangeira de Oslo. Observando a cidade a partir de uma vida sem luxos, despojada…

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Ficção, feudalismo, computadores

A denúncia pública de ontem na entrevista à RTP 3 de Ana Gomes sobre a conivência das elites políticas e institucionais portuguesas com as cleptocracias (não só angolanas) e a impunidade de que gozam, o clima de corrupção generalizada, deveria deixar o país em choque.  A imprensa de hoje, no geral, prefere tratar o assunto como uma partida para a corrida presidencial, que é a melhor forma de transformar a denúncia (justíssima) em ambição. Tornando-a, por essa via, igual aos outros. Outros que (dia a dia, cada cavadela cada minhoca) sempre engravatados e compostinhos continuam a ensinar pelo exemplo o mesmo que as cartas de Lord Chesterfield segundo Samuel Johnson: “they teach the morals of a whore, and the manners of a dancing master.”

Depois de ver aquilo fui ao blog de Isabela Figueiredo procurar Feudalismo + Computadores, por me lembrar deste seu velho (de 2012) texto que infelizmente não passa de moda:

“A Constituição da República Portuguesa existe em livro, mas é entendida pelos poderes como se fosse uma obra de ficção. É imaginação literária, não para se respeitar. Claro que, perante uma atitude deste calibre, não há razão para a existência de um Tribunal Constitucional. Se existir, as suas decisões são igualmente ficcionais, portanto sem peso real. O que interessa que considerem que isto e aquilo não cumpre a constituição? Não cumpre, mas pode fazer-se. A prova é que se faz.
Aliás, o cumprimento da Lei depende de quem tem de a cumprir. Se for eu ou o vizinho Manel, sim senhores, aplica-se, mas se for um senhor do aparelho partidário ou das estruturas de poder, sejam quais forem, já não. É uma espécie de feudalismo, mas com computadores

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