A classe desaparecida

Certamente em vossa casas caros leitores (não que esteja em vossas casas, antes num navio a trabalhar 13 ou 14 horas por dia) as televisões gritaram todo o santo dia aflitas com os protestos dos (ditos) coletes amarelos em França. Aqui na Noruega foi assim, especialmente num canal de lixo informativo designado por TV2 Nyetter.

O que é curioso nisto, é que estamos a ver um problema que em grande medida as televisões criaram. E criaram-no num exercício de distorção da realidade social que conta já décadas. Há uma parte substancial ou mesmo maioritária da população (a trabalhadora)  que tem vindo a ser sistematicamente sub-representada na cobertura televisiva das realidades nacionais. Não é que seja apenas tornada quase invisível. É que quando aparece nas telas, especialmente nos programas de Reality TV, aparece ridicularizada. A precisar de “banho e tosa”, de aprender a vestir-se, a falar, a ter maneiras à mesa & etc. … Ou então, como factor de perturbação da ordem e do interesse nacional. Fazendo greves ou protestos, por exemplo. A isto se junta o cada vez maior distanciamento sócio-económico entre a população trabalhadora e aqueles que a representam nos parlamentos. As experiências de vida das elites político-partidárias são cada vez mais distantes das do trabalhador comum. Não havendo representação, não havendo canais informativos que levem ao poder político ou à atenção da sociedade (criando uma agenda) no geral das reivindicações de uma parte substancial (ou maioritária) da população sobra o protesto; nunca na história se inventou nada melhor que o violência para o tornar veemente.  O protesto surge por norma quando falha um dos famosos postulados de Dahl bem conhecidos dos politólogos, condição para uma democracia (em rigor, poliarquia): um grau substancial de controle do demos sobre a agenda.

Mesmo na Escandinávia, que ainda continua como modelo de respeito pelos direitos sociais e laborais e de boas práticas de representação política, o problema preocupa. No passado dia 1 apareceu no jornal norueguês Dagsavisen um artigo de Jonas Bals sob um título e sub-título que já sintetiza o problema; “Klassen som forsvant – Arbeiderklassen er «kraftig underrepresentert og usynliggjort» – og dessuten latterliggjort.” : “A classe que desapareceu – A classe trabalhadora é «fortemente sub-representada e tornada invisível – e ademais ridicularizada.” Ou ainda, no nº 42 (Fevereiro deste ano) da revista sueca de média Media världen o mesmo problema é retratado no artigo de Fredrik Stiernstedt e  Peter Jakobsson SVT missar arbetarklassen.

E é desses investigadores, Fredrik Stiernstedt  e Peter Jakobsson que vos proponho e vivamente aconselho este paper para reflexão: Naturalizing Social Class as a Moral Category on Swedish Mainstream Television.

Um exerto:

“The working class has always been underrepresented on television (Smythe 1954;Butsch 2003), and this study adds further evidence that this still is the case. While the working class in Sweden makes up around 40-50 per cent of the population, it accounts for only 10 per cent of the people appearing on television. In this article we have, however, shown that the working class is not only underrepresented, it is also constructed as part of a value hierarchy of social relations in which the working class is constantly placed at the bottom. Working-class people on television are portrayed as lacking individuality, social skills, and authority, and are generally conceived as less important than people belonging to the middle and upper classes.”

Porque se isto acontece numa sociedade democrática modelar à escala planetária, no resto do globo estamos entregues aos bichos.

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Bem me parecia

que devia ir à Gibert Jeune comprar tudo o que encontrasse (e lê-lo)… deste gajo

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Um certo sorriso

Motoserra de poda, barato, pequeno, comprado no Mestre Maco, ao fim de três roncos já precisava de afinação de comprimento de lâmina e de afio da corrente. Maus materiais, correntes com facas de sebo.  Sentei-me em desmontagens e afinações, a afiar com a lima circular as superfícies de corte das facas. O cão vem trazer um pau que tirou da lagoa, pede festa e brincadeira, depois queda-se entretido a roer. Sem que a chame, a memória da infância, da voz do meu pai por ali, do sabor de morangos na horta que foi; a dois passos. Escuto o vento nas ramadas, o coaxar das rãs. Na estrada, sem me ver, há a rama do salgueiro e pequenos pinheiros que me ocultam, passa o velho a passo lento. Absorto. As mãos atrás das costas.

É um dos muitos (milhares?) que andam assim pelas províncias. Há uns anos chegavam às praças e largos das aldeias no banco da frente do Mercedes ou do Volvo ou do Audi, de boné, ao lado dos genros, filhas e netos no banco traseiro. Ao Domingo vinham ao café, depois do almoço. Como que em calabouço de Beria, como que por obra de purga estalinista, as famílias e os carros desapareceram. E também eles. Quase. Andam por veredas e estradas secundárias. Dos filhos ou genros nem notícia. Ou a história que evito. Para não ver o sorriso.

E a história dos desaparecidos tem milhares de pequenas variações; o sorriso não muda há séculos:

«Nããâ!… isso já foi tudo c’o caralho! Já lh’introu ali o banco p’aquilo tudo adentro. Já nã é nada dele. Ninguêm o vê.  Diz qu’anda a trabalhar por conta d’ôtro aí nã sê aonde… Atão olha, pôim-se a dar o passo maio qu’à perna, ópois fódin-se!»

 

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Créditos e descréditos

Novamente o amargo de boca: no Ordet honra o autor aqui o Âncoras com um link para um post antigo cá publicado, o Conferência de PiolhososÀcerca de um pedreiro (mais tarde viria a ser Primeiro Ministro da Noruega) que carregado de piolhos num beliche de um campo de concentração alemão animava os colegas com projectos de uma sociedade justa e inclusiva que iriam construir assim que terminasse a guerra e retornassem ao país natal. Projecto que viriam a realizar.

O óbice da coisa é que o post em questão parte de um excerto de um outro texto de Pedro Correia. Coisa que me deixa hoje má consciência: reconhecer que houve tempo que dei crédito ao que escrevia Pedro Correia. Ou João Gonçalves.

É certo que também Hannah Arendt  deu crédito (e mais uns trocos a coberto dos lençóis) a Martin Heidegger. Mas essa era nova, tinha desculpa. No meu caso desculpa não há, que já somava a idade com a obrigação de ter juízo.

Depois verifico que a outros, em posts antigos não deixei crédito. É o caso do post Sombras de Spriteonde figura este instrutivo diálogo sobre a mecânica (ou hidráulica) do mundo:

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Foi compilado por Torgrim Eggen, no Manhattan -Historier om New York. Da página não recordo o número, mas posso verificar.

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A análise e explicação política (ab Sodoma et Gomorrha) pelas províncias

Era a meio de uma manhã nos tempos pré-históricos em que Ferreira Fernandes ainda defendia Sócrates; entrei no café, cumprimentos da praxe, o convite:

«é pá assenta-t’aqui a buêr um café c’a malta»

A destoar dos outros do «deixa cá ver as gordas aqui do Correio da Manhã», ainda há um que passa pelo quiosque a cinco quilómetros dali e compra (ou comprava) o Diário de Notícias. E às tantas diz:

«É pá porra, qu’este Ferreira Fernandes tá sempre a defender o Sócrates. S’inda fosse esta que tamêm práqui escreve do nariz comprido, esta Fernanda Câncio a defendê-lo, nim eu m’admirava,… que dizem prá’í qu’ele que tranca a garrocha nela que é com’in cabra velha… e faz ele bem! qu’se foss’ eu fazia o mesmo qu’ela é bem boa a puta!»

Diz o do lado repentino e sentencioso, quase indignado por do óbvio se fazer mistério:

«Atão pronto! E a esse aí, se bên calha foi-lhe ó cu tamêm. Qu’ele a modos qu’é barrasco e aquilo lá pra L’sboa anda tudo tonto! In um gajo passando ali de Vila Franca pra baixo,… mê amigo! Nã se perdoa nin a são nin a doente, nin a mulher parida de três dias!»

Risota. Galhofa armada. A do café já brada aos céus (mas a gostar de ouvir, e a pilhéria é também boa para o negócio):

«Ai deus noss’nhôr me valha e nossa s’nhôra m’acuda! S’isto nã há mais brutos no mundo que gente!»

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Resolução genial

Em Washington.

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Reblogando

um artigo velho aqui do Âncoras (relacionado com o assunto do post anterior) que já data de 2012: Amostras, arenas e comediantes

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