Coisa não tão raríssimas assim

O escândalo da Raríssimas, dar-nos-à dois espectáculos tristes. Num primeiro momento mostrará as teias de cumplicidades do arco da governação, o parasitarismo das elites que conta séculos e não é de agora.

Num segundo, que já começou, um arremesso de acusações da esquerda à direita e da direita à esquerda, em que a verdade se perde, um pouco a lembrar a célebre passagem de McCarthy em All the Pretty Horses.

E disto tudo, daqui a semanas, restará como que a memória de uma luta de cães. Urros, gemidos, encarniçamento e poeira…  Um triste espectáculo. Até ao próximo.

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Lorca, dormir, tempos contados e por contar

Fui ontem ao google por uma frase de Queipo de Llano, radiodifundida em 36:

«Nuestros valientes Legionarios y Regulares han demostrado a los rojos cobardes lo que significa ser hombres de verdad. Y, a la vez, a sus mujeres. Esto es totalmente justificado porque estas comunistas y anarquistas predican el amor libre. Ahora por lo menos sabrán lo que son hombres de verdad y no milicianos maricones. No se van a librar por mucho que berreen y pataleen.»

De caminho, outras preciosidades como esta das suas memórias:

 «Me dirigía a los obreros en tono paternal, que me hiciesen caso a mí era lo más conveniente para ellos, pues yo tenía una idea muy arraigada de que el pueblo era igual que los niños, a los que hay que cuidar y mimar cuando son buenos, pero que no se pueden dejar nunca sin castigo sus malas acciones»

Dia de ócio, o de ontem. Regressado do aeroporto de levar a minha mulher, lá fora vento e chuvarada, um dia de sofá, para leituras & releituras. Numa das pesquisas, dou com os versos de Lorca,

Quiero dormir un rato,
un rato, un minuto, un siglo;
pero que todos sepan que no he muerto;
que hay un establo de oro en mis labios;
que soy el pequeño amigo del viento Oeste;
que soy la sombra inmensa de mis lágrimas.

e aqueles dois versos, trazem à memória o consultório de um pediatra em Torres Novas. Pintado de preto, os versos escritos na parede. Fui buscar o Tempo Contado de Rentes de Carvalho para reler as entradas da semana de sábado, 22 de Abril, a sexta 28 de Abril. 1995.

Um dos livros mais bonitos que li este verão, foi-me gentilmente enviado pela autora. De Torres Novas. Contava-me, há cerca de ano e meio que nunca gostou por aí além da escrita de Rentes de Carvalho. Por contraponto com o meu fascínio. Não me lembro já da justificação que dei para que tal aconteça. E para que lhe saiba os livros par coeur. Lembro que a memória fugiu dali da esplanada debaixo das tílias para a descrição do Santuário da santa da Ladeira, ali a dois quilómetros para Leste. E por esse Portugal acima de fenómenos do género. De como tanto do que escreve tem um enorme rigor documental (o último Trás-os-Montes, o Nordeste é exemplo) a par da compaixão que pede para com o semelhante. Dessa semana, é exemplo o homem a quem dá boleia na estrada de Mós, vindo (pela quarta vez) de tentar pagar impostos.

(…) Vinha das Finanças de pagar os impostos. A quarta vez. Das três primeiras tinham-no mandado de volta, porque os papéis não estavam em ordem; ou estavam mal preenchidos, ou lhes faltava um selo, um carimbo, um anexo. E os funcionários sempre com mau modo e vexames. Se não sabia ler nem escrever. Se não era capaz de encontrar alguém que o ajudasse a preencher os papéis. Ou se não podia pagar.

Envergonhava-se de não lhes saber responder e de não ser capaz de se defender. (…)

Tempo Contado, 2010, Quetzal, pp. 260-73

Sete, cinco anos antes das entradas no diário, via com estranheza aqueles versos na parede negra do consultório. Que raio de ideia pintar um consultório de pediatria de negro. Vezes sem conta olhei aqueles versos, cabeceando de sono. O pediatra, pessoa sensível e cultor do belletrism pintava. De um qualquer fascículo que lhe propagandeava as obras, lembro de umas  memórias de infância. Alcanena. O sofrimento dos operários. E a frase que descrevia o bater dos couros nas fábricas, «batiam nos dorsos cansados dos couros».

Chegava ali com a minha filha nos braços, consulta marcada para as nove e meia ou dez, seria realizada duas horas depois. Se tanto. Chegada depois a casa passado já da meia-noite. Teria que pegar na fábrica de cortumes daí a cinco ou seis horas. Eu era um daqueles operários não romanceados. Era de facto, naqueles finais de oitenta um ser desagradável. Extenuado e encurralado, sem tusto, a quem nada sobrava do ordenado mensal apesar das horas extraordinárias, nunca negadas, sempre insuficientes. Silencioso, a ler aquele Quiero dormir un rato,un rato, un minuto, un siglo de Lorca na parede preta. A menina, era a neta do industrial, meu sogro, amigo do pediatra. Um erro do destino, tal como eu. Talvez por medo de desagradar ao amigo, em dois anos e tal o pediatra nunca me dirigiu palavra.

Naquele dia em que a escritora que prezo me dizia que nunca gostou por aí além da escrita de Rentes de Carvalho, lembrei-me da miséria descrita. A da santa da Ladeira. O contar o que foi. Haja alguém que conte. E descreva. E muita ficou pelo caminho, sem crónica, e ali bem perto. A minha, por exemplo.

 

 

 

 

*https://es.wikipedia.org/wiki/Gonzalo_Queipo_de_Llano

*http://trianarts.com/federico-garcia-lorca-gacela-de-la-muerte-oscura/#sthash.kBs1aUWP.dpbs

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Esbarbear – x’barbiar – desbarbar telha

Raramente sonho. Que me lembre. E quando me lembro de ter sonhado, do que me lembro normalmente é de uma espécie de pesadelo. O meu sonho típico é não conseguir perceber o porquê de uma avaria ou estar a tentar reparar qualquer coisa e não conseguir. Ou por não ter ferramenta, no caso de se se tratar de algo mecânico. Talvez isso tenha como fonte primária o frequente desconcerto do mundo a que não posso obstar.

Uma das primeiras coisas de que me lembro não poder dar remédio foi a da fraca capacidade de aprender palavras e contas por parte dos meus colegas de escola numa aldeia do Ribatejo aí por finais de sessenta. Ensinados a estalo, humilhados, era uma dor de alma assistir àquilo. Um dia destes, ao ler o post Ivões do Ladrar à Lua e aquela parte do texto,

No tempo da puta da outra senhora, a educação do povo não se justificava. E às crianças bastava ler, e pouco, fazer umas contas básicas e pronto.
Por isso as professoras cediam lugar às regentes escolares, cujo saber mal dava para gastos domésticos.

lembrei-me de uma regente. Um dos miúdos que se podiam espancar impunemente por ser de família pobre, já repetente e espigado de corpo, tinha feito algo que lhe desagradou. Vai de pô-lo de joelhos em cima de bagos de milho sobre o estrado elevado onde assentava a secretária e onde se subia para escrever no quadro de lousa. Esqueceu-se dele, ou fez-se esquecida… farto de dores o Toino («o favolas» pela proeminência de dentes de cima, mais tarde o cachucho quando por estampanço de motorizada se lhe foram os dentes) quando ela passou perto dele, deitou-lhe as mãos às calçolas puxando-has para os joelhos. A bicha ripa da régua do quadro (que quase era de carpinteiro por mais aparentada com tábua) e deu-lhe ali de escacha pessegueiro. Só parou quando lhe esgalhou uma orelha e assustada pelo sangrar abundante. Enquanto não fez sangue, vai disto…

Dali, da escola onde se aprendiam os ivões e as estações e apeadeiros das linhas de caminho de ferro moçambicanas, os miúdos pobres saíam frequentemente a frequentar os fornos de telha. Em ambientes mal iluminados, apressados a calduço tantas vezes pelo prenseiro, no mais dos casos passados dos dez anos, exerciam o ofício de esbarbear. Ou, som mais fiel «x’barbiar». Era encruzilhada na vida que levava a caminho certo. Analfabetismo funcional e pobreza para sempre. E poucas obrigações a Deus ou ao semelhante. Conheço vários.

Não sei se é o vosso caso, mas eu acho graça à cultura portuguesa e à sua correcção palavrística. «X’barbiar» é termo que não existe nem eu esperaria encontrar. Mas diz-me o google que tampouco existe o termo «esbarbear». O que se encontra sim, é o termo «desbarbar»: Nas olarias existe a figura do desbarbador de telhas, que trabalha com uma faquinha que passa nas laterais das mesmas que´são provocadas pelo excesso de barro que quando são prensadas para se levar ao forno“.

Feliz país o meu que desconhece o termo «esbarbear». Os fornos de telha negros, o Manel e o Toino, dito favolas, ou cachucho, o da orelha esgalhada. Vivinhos da silva ainda, ainda a utilizar (se o passado vem à baila) o arcaísmo que os sábios e os dicionários ignoram.

 

 

 

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Arqueologia da bloga: Almocreve das petas

Não que faltem almocreves de petas, ou carapetões, em linguagem desusada (abundam por painéis televisivos e jornalismo económico), mas sinto falta do da blogosfera. Era uma maravilha ler aquilo. Como aqui, referindo outro e citando Alberto Pimentel, in Vida de Lisboa, 1900:

Não há sitio em Lisboa que mais dano cause ao espírito publico do que a arcada do Terreiro do Paço. O Almocreve das Petas [de José Daniel Rodrigues da Costa] parece que fez ali estalagem onde amarra e arraçôa a récova dos seus gordos carapetões. Quem pretende andar bem estribado nas novidades do dia, vai lá, escolhe um boato, bifurca nele a imaginação, chouta de grupo em grupo, espalhando o boletim da arcada, e ao cabo de alguma horas está a cidade inçada de carapetões, que são a praga de Lisboa (…)

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Do catolicismo em terras nórdicas

 

Segundo o Dabladet o bispado católico de Oslo acaba de ser condenado a uma multa de 2 milhões de coroas por ter lesado o Estado norueguês em vigarice da grossa. Já tinha sido condenado a uma multa de metade mas não aceitou na altura a sentença. Como as religiões são subsidiadas por fundos públicos, de forma muito católica o bispado foi-se à lista telefónica e dos nomes que lhe soaram a católicos catalogaram-nos como membros. E vá de pedir o subsídio em virtude do número de membros que iam aumentando. O delegado governamental que controla estas coisas (Fylkesmannen i Oslo og Akershus) calcula que ao longo dos anos foram indevidamente  arrecadados pela católica instituição e graças à lista telefónica 40 milhões de coroas.

Não sei se alguma vez será constituída a Pafiosi Republic abaixo imaginada. Este bispo seria decerto também um bom membro da hierarquia.

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Pafiosi republic

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Mais folheado que lido completamente, passei há uns meses por este divertido “romance distópico gay” de Fabio Canino: Rainbow Republic. Podem ver aqui a apresentação do livro pelo autor na universidade de NY. O autor, tomando como boas as conclusões de estudos que demonstram que sociedades mais tolerantes com o homossexualismo são sociedades que têem melhor performance económica, imagina a recuperação económica da Grécia por virtude(s) de colónias gay que se começam a estabelecer no território.

Era uma ideia excelente desenvolver uma utopia (o romance é mais utópico que distópico) destas entre nós. Imaginar que os militantes da coligação PàF se revoltavam contra o resto do país e, numa manobra à  catalã, reclamavam um território só para eles, livres, finalmente, de geringonços. O pinhal interior por exemplo, parte do território com que ultimamente se mostram tão preocupados. Depois era só imaginar que tipo de país e sociedade construiriam. Reativação de sucursais do BPN, nascimentos duplos para alcançar o nível de honestidade de Cavaco, uma constituição desenhada por Montenegro cujo artigo primeiro sustentasse que o objectivo da república era fazer um país melhor mas a vida das pessoas pelo contrário, contratos swap desenhados pela dra. Maria Luís dos Cofres Cheios, a Cristas ministra da meteorogia, Dias Loureiro na administração interna e prevenção de incêndios, Isaltino no instituto da transparência, Carlos Peixoto na saúde, prevenindo a peste grisalha, Alberto Gonçalves no ministério da verdade e Rui Ramos no da História, etc., etc., o céu como limite…

 

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A obrigação de ser fantástico

Sexta da semana passada, sala de embarque do aeroporto de Oslo, vôo para Lisboa, vozes atrás de mim, língua portuguesa. Conversar sem ouvir o outro. Ping-pong, a ver quem sabe mais do assunto. Quase uma obrigação, ser o maior e o mais sábio, um príncipe na vida, nos termos de Álvaro de Campos (ou Pessoa) do poema em linha recta.

Eu tenho o vício oposto, coisa que muito irrita os meus colegas portugueses a bordo. Digo-me o mais feio e o mais burro, o que veste pior. Salta-lhes a coisa fora dos mandamentos, ou, suspeitam (com razão) que é forma de gozar o prato com o vício nacional.

Há cerca de dois meses, vindo do ginásio do navio a meio da noite, antes de tomar o duche e ao fazer a barba, escorregou-me a gillete nos dedos, abri um corte de truz a meio do queixo. Usei penso a tapar o corte nesse dia mas no dia seguinte, passado o duche, deixei a ferida à vista para melhor cicatrizar. Indo por um café na messe, a colega de serviço à noite ao ver a ferida observou: «é pá que grande corte…»

Gracejando, como é meu jeito, expliquei: «é… faltava um pouco de bacon para fritar para o pequeno almoço, tirei logo uma fatia ao primeiro porco que vi.» E logo ali levei descasca da grossa. Puxando do melhor sotaque da Linha,

«Irra, parece tu que tens complexos! Sempre a dizeres mal de ti mesmo.»

Não eram complexos, apenas brincar com uma ideia: andando à procura de um porco, o primeiro avistado ser sido ao espelho. Mas aquilo entra logo em conflito com a obrigação nacional de ser fantástico pelo que configura crime de desobediência aos sagrados mandamentos lusos. Quanto disso há por aqui? Leio no Um Jeito Manso e não posso deixar de concordar:

 

“Aqui, na blogosfera, as pessoas tendem a ser sisudas. Ou solitárias. Ou tristonhas. Ou ensimesmadas e circunspectas. Muito compenetradas das suas razões. Não há muitos blogs em que a gente veja ali uma cara alegre feita à escrita. Não há quem se atire para fora de pé just for the fun of it. Não há muito quem desfie palavras envoltas em puro destempero.”

É uma das coisas de que sinto a falta quando me encontro (como é o caso agora) em Portugal, de gracejo que não seja escárnio ou agressão, de humor brincalhão; nas palavras da autora do Um Jeito Manso, destempero. Há poucos dias ainda, na Noruega, um jogador do Lillestrøm (Aleksander Melgalvis), ao receber a taça presenteou a audiência da cerimónia e os colegas com uma sessão de riso (deliciem-se as senhoras com o vídeo) nestes termos reportados pelo The Sun.

Quem por cá se atreveria?

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