o mais difícil dos dias

Sentindo o correr das lágrimas, sozinho, ao lado da cama do hospital onde quase jaz, ainda lhe pude ontem acariciar a fronte, a pele pálida e sardenta, os cabelos ruivos. O mesmo rosto que acariciei no berço. A minha irmã. Apenas viva por suporte artificial.

Quis ontem dar à minha mãe mais um dia feliz de ver-me acompanhado com a minha mulher, jantar com ela, que tivesse uma última noite de sono descansado. Não lhe contei. Hoje, tenho que lhe dizer que a sua menina não sobreviverá.

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Santuários

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Heranças. Percorro as terras, coisas pequenas de dois ou três ou quatro hectares. Creio que vinte e cinco pedaços. Em busca de marcos, o coração apertado. Ali, onde houve uma figueira velha que escapou ao fogo há década e meia, deitei o meu pai no feno. Levei-o ao colo do furgon, procurei a sombra da figueira. Cortava as oliveiras ardidas, vinha falar com ele de tempo a tempo, prometia que rebentariam, que as iria fazer de novo árvores cuidadas. Doente, aquelas coisas animavam-no. Prometia em vão. Um outro Verão os rebentos arderiam, e a figueira velha que lhe deu sombra. Hoje, feno e mato, resquícios.

Na seguinte, sobreiros mal cuidados, tojos por entre os eucaliptos que, de não terem sido desbastados ficaram raquíticos; silvados que num canto que outro deixam ver um marco. Prontos a arder, a levar em tarde fatídica o que vai restando. A afastar mais e mais cada um do que lhe foi deixado de material e de simbólico, as aldeias abandonadas, as casas derruídas. Os velhos sós.

A norte do Tejo, o panorama é este. Há bens, riqueza, potencial. E uma memória que nos liga à terra e à natureza. Deveria ser este o nosso santuário. Com uma operação simples, a troca e posterior ajuntamento das terras de que somos proprietários, haveria um enorme aumento de riqueza. Separadas não valem nada. Ou terão, quando muito, valor negativo. Constituem acendalha no pico do Verão, perigo para os vizinhos, consumo desnecessário de recursos. Se cada um prescindisse de cinco por cento da terra de que é proprietário (disponibilizando-a para utilidade pública ou para distribuir a quem dela fizesse uso) ficaria ainda a ganhar. Com um valor maior. Com possibilidade de cultivar floresta, ou pomar, ou olival, ainda que em actividade de fim-de-semana.

Mas isso seria o grande milagre. Dar algo a alguém que tenha menos. Vencer o emaranhado de ódios e vinganças, de mal-querenças, que permitiria a cooperação.

Muito se criticou a outra senhora por ir para a Comporta brincar aos pobrezinhos. Mas no final de contas é o que todos andamos a fazer em grande parte do território. A brincar e a desperdiçar e a descurar. Por burrice, ressentimento, capricho.

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Aniversários

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Já de férias, dispensado dos deveres. Primeiro café da manhã. A manhã de cinquenta  e cinco anos de vida, vinte e cinco de mar.

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trikle-downs & trikle-ups

Que a referida moeda de forma recorrente (e onerosa) nos presenteie o destino colectivo com novas faces nem é de surpreender.

Mas, como tenho dito e redito, eu é mais cavacas

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em resumo

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Foi um enorme alívio quando os televisores aqui de bordo deixaram de exibir imagens da RTPI. Os telejornais, os rostos e as chicanas dos políticos, os programas da manhã a venderem produtos de ervanária, as discussões intermináveis nos painéis futebolísticos. E, fatalmente, uma vez por ano, as reportagens sobre o fenómeno de Fátima. A comovente e gigantesca manifestação de fé de um todo um povo.

Pela manhã, as colegas comentam os acontecimentos (e o papa, este papa) que vão extraindo dos iphones ligados à net. Mal acordado, mal tendo deitado ainda o olho às margens verdes do fjord que navegamos, ainda no primeiro café, vou ouvindo. Que compreendem, que «quando a gente quando tá aflitos» recorre a tudo. Lança mão a qualquer coisa que dê uma esperança…

O grande problema nem é o acontecimento colectivo de Maio. O ir pedir por nós e pelos nossos à senhora da azinheira. É o modelo de comportamento. Ir pedir de joelhos no resto do ano à funcionária do posto de saúde e à médica de família, ao fulano da repartição, ao polícia, ao responsável da edilidade, a quem quer que tenha que tenha o poder de nos conceder (ou negar) uma graça. Independentemente de ela ser merecida ou não. Justa ou injusta.

O grande problema não é aquilo ser uma gigantesca manifestação colectiva de fé. É não ter nada de colectivo. Ser, de forma resumida, um abjecto amontoado de egoismo e egoísmos.

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Perigos do ecossexualismo

Os potenciais perigos para os ecossexuais são múltiplos e variados, não só o Menir dos Almendres.

Diz-se que aqui, em área remota da Noruega, pontapeada, indignada, nua da cintura para baixo, a jornalista que tinha subido do vale à montanha para entrevistar o ermita que ali vivia numa cabana isolada, o acusou de ser perverso, a-social, violento. Que atitudes daquelas (como o violento pontapé desferido), é que o obrigavam a viver em extrema solidão, longe do aconchego da sociedade.

Tolhido, como que envergonhado, o homem defendia-se. Tinham chegado ao ponto da entrevista (enquanto decorria o jantar e três garrafas de vinho se escoaram) em que ela quis saber como era a vida amorosa do ermita. De forma muito relutante e após muita insistência da jornalista, finalmente confessou que aquela árvore com um pequeno buraco que se avistava da janela da cabana era a sua vida amorosa. Acabrunhado e tímido, recusou entrar em mais detalhes ou pormenores. Quando, como último recurso, e a bem da satisfação da curiosidade dos seus leitores a jornalista lhe pediu que exemplificasse nela, foi aquilo. Um pontapé violento.

Inocente, o pobre (e metódico) ermita explicava: « a primeira coisa a fazer é verificar se o esquilo está em casa.»

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A caridade é que nos salva

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Fonte de esperança, irmandade Cristo, comunidade em espírito… lindo, este quadro.

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