Ler (ainda e sempre) os outros

AS VIRTUDES, Henrique Fialho no Antologia do Esquecimento (excerto):

 

[…] Continuamos a patinar num tecido social acrítico e empobrecido pela sua própria incúria. Os militares não podiam dar-nos pessoas interessadas, exigentes, desde logo consigo próprias, moralmente aceitáveis. Da pequena cunha que suporta as oligarquias ao favorzinho simpático, o sistema transporta dentro de si mesmo o vírus da corrupção e do nepotismo. Só há uma forma de o superar, é com as vacinas da educação e da cultura. Eu, pelo menos, não sei de outra.

   Observemos a título de exemplo, até por cautela, o que se avizinha para as próximas autárquicas: o regresso dos dinossauros. Que Isaltino seja aplaudido de pé por uma horda de fiéis seguidores, não me choca. O que de algum modo parece paradoxal é as queixinhas sobre um putativo disfuncionamento do sistema judicial e esta simpatia por um tipo político entre os raros que cumpriram crime por fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Afinal, quando a justiça parece funcionar é como se não funcionasse. O exemplo que poderia ter dado não serviu, pelo menos junto da tal horda de fiéis seguidores para quem nenhuma prova ou condenação demove a certeza abstrusa de uma suposta inocência.

   Já sabemos como na mentalidade de muitos portugueses tais crimes se justificam: fez o que todos os outros fazem. Pois, o problema está em que nunca certas práticas são menos viciosas pelo simples facto de serem maioritariamente exercidas. Estes “homens do povo” são sempre perigosos, raramente servem de exemplo para o que de melhor deveríamos esperar da generalidade das pessoas. É isto que elas não querem perceber, é isto que faz sentir ser afinal tão pouco o muito que conquistámos de há 43 anos esta parte. […]

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Ler os outros

 

 

Em A Gaffe e as avenidas: A Gaffe num futuro composto

 

“A comunicação social vai procedendo à substituição do alegadamente pelo uso do futuro composto, abolindo o presente, o passado, ou mesmo o imperfeito, dos tempos verbais que se esperam numa notícia dada depois de confirmada até à exaustão.

A baleia que terá dado à costa e que vemos esbardalhada no areal, poderá não ser a baleia que terá dado à costa, mas poderá dar-se o caso de ser o senhor deputado Carlos Abreu Amorim que terá decidido passar uns dias na praia. […]

Esta feira de probabilidades entregues ao público que as consome sem apelo nem agravo, este arraial noticioso pejado de incertezas e de hesitações, comprovativo da incompetência – e do medinho do processo em cima -, dos jornalistas que escolhem o balancé do poderá ser assim, mas poderá ser que não, é transversal a toda a comunicação social e faz pairar sobre a cabeça do alegado profissional que oscila desta forma o halo dos inocentes sem compromisso assumido, sem certezas incontestáveis, isentando-o da responsabilidade e da obrigação de se confirmar o que é noticiado, revelando ao mundo que poderá ter estado ali, mas que poderá não ter estado. Nestes casos, é a mesma coisa.”

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Tove ao sol, coisas luminosas

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Os dias, nesta rectangular máquina de perder tempo à beira mar plantada, dissipam-se em “dar com os burrinhos na água”, “bater com o nariz na porta”. Ontem, manhã de fazer cem quilómetros para nada (faltava uma caderneta predial actualizada), desperdiçar parte da tarde a obtê-la. E hoje, manhã bonita de sol, mais cinquenta para ir à médica de família pedir o receituário para comprar a medicação costumeira da minha mãe. Nariz na porta novamente. E o decreto em papel A4 informando os ignaros que a consulta semanal da sede de freguesia tinha sido cancelada. Que só no Centro de Saúde em cascos de rolha… Por aproveitamento do sol matinal, visão de papoilas e cheiro de orégãos, deslocação de moto. E ir dali depois a  com a pobre senhora de oitenta e um anos (que jura que nem se importava de ir em duas rodas) naquilo é coisa imprática. Pra amanhã ficará.

Chegado à esplanada consolo-me por uns momentos com a festa de escrever/ celebração da escrita (as duas traduções do título parecem-me igualmente justas) este livrinho de ensaios de Tove Nilsen, autora que bem gostaria de ver por cá traduzida. Não trata aqui apenas, nos curtos ensaios, da alegria e mistério de escrever. De evocar e recriar. Também da alegria de ler os outros, neste caso, alguns dos escritores favoritos de Nilsen. Màrquez, Canneti, Mankell, Hemingway, Lessing, Bouvier. Por breves momentos, absorto em algumas das passagens a arrelia dissipa-se, volto ao convívio com gente. Iluminada por palavra alheia, a mesma praça de Anna ao Sol.

E ontem, finalmente, depois de anos a ler-lhe os textos, riquíssimo jantar com o Luís Jorge do blog (entre outros), Vida Breve. Sujeito admirado e de bom trato (fino ironista, apologista de humor e ousadia), que não conhecia mais gordo que não fosse de lê-lo. Estranha coisa, abordar-se um desconhecido num passeio da Almirante Reis com uma dívida de gratidão. No lusco-fusco de Lisboa encontrar (finalmente) um espírito luminoso.

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Câmara de descompressão de um navio moderno

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Comparando navios a prisões teria dito o velho dr. Johnson (disso se recordava James Boswell) que nestas se encontraria mais espaço, melhor comida, e, por norma, melhor companhia. Com correr dos anos, em questões de alimentação e espaço disponível , as coisas melhoraram consideravelmente.

Quinze decks abaixo das estrelas, dois do nível do mar ao largo da Dinamarca, ouvindo Bach e Albinoni, ontem, pelas três da manhã. A minha câmara de descompressão.

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De mestre

Manifestamente um exagero, as notícias da morte da blogosfera nos jornais. Se por mais não fora, porque teríamos de andar a catar artigos de jornal meses e meses para encontrar um artigo tão informativo quanto este:

Transforma-te num comentador da questão síria em cinco simples passos. Deliciosa ironia. De mestre.

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Casas de quatro patas

 

a de Sverresborg, Trondheim,

e esta espectacular construção  conhecida por Buret på Fagerbakken em Ørjedal, no município de Hattfjelldal, no norte da Noruega. Com data de construção de entre 1775-1800 , tanto poderia servir de habitação sazonal como de de armazém de utensílios ou de víveres – protegendo-os assim da rapacidade de animais selvagens. Um deles, o de sugestivo nome; o glutão.

Fotos: Elin Kristina Jåma (http://www.riksantikvaren.no)

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(bons) panfletos

Há textos que bem poderiam (apesar de escritos numa língua que lhe soe estranha) servir de panfletos turísticos a uma capital. Este é um belíssimo exemplo.

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