Fios

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Domingo. Telefono ao meu cunhado para saber notícias da minha mãe que visitou ontem no lar de idosos. Digo-lhe que na próxima quinta a levo à consulta. E antevejo o desgosto de a ver assim. Pegar-lhe-ei novamente ao colo da cadeira de rodas para o banco do carro e, enquanto conduzo até à cidade, verei as mãos tacteando sem nexo, procurando sabe-se lá o quê no labirinto da memória ou no resto de realidade que a demência lhe deixa ainda perceber.

As fotos que lhe tirei em Abril passado mostram ainda a mulher  relativamente consciente, com o discurso articulado. O frio, apesar do adiantado do ano persiste, a lenha na salamandra crepita e o fogo dá um luzir trémulo e alaranjando que se mistura com a luz da sala.  Está sentada no cadeirão, tem ao colo o cachorro labrador que fui de propósito comprar a Cabeceiras de Basto. «E isso fica muito longe?», pergunta.

«Ai mas ond’é qu’tu foste arranjar um animal tã bonito?» «Ai que pêlo qu’isto tem! … e há-de-se fazer um granda cãnzarrão» … «pois ele é chumbo!» … (pesa-o).

E o cão, que se deixa ficar a gozar as festas, rapidamente deixa de ser o fulcro da conversa. Passa a acessório. A veículo, ou fio condutor:

«Ai o tê pai gostava tanto de cães» «S’ele viss’isto nã o largava um minuto, até prá cama o era capaz de levar do jeito qu’ele gostava de cães»… e a mão que acaricia o pêlo branco, levando-a à memória do marido falecido. Pouco tardou que, a espaços, a memória até nisso a traísse: «viste o tê pai?» « não sei por onde ele anda…»

Domingo. Na sala de fumo do navio, aportado no norte da Alemanha, leio posts antigos n’o Tempo Contado. Nunca deixei de ler o Tempo Contado. No ecrã do telemóvel, de um outro mês de Outubro, a foto de uma mula sem préstimo que vendem para o matadouro: Olhos nos olhos.

A colega norueguesa que se levantou entretanto passa pela minha mesa, vê a foto, exclama e pergunta « oi!… hest?» «oi! um cavalo?». «Uma mula», respondo. Pousado na mesa tenho o último livro publicado por Hofmo, toca-lhe a capa e pergunta: «norsk?». «Norueguesa?».

Comprei o livro há dois ou três meses num alfarrabista aqui em Oslo. Em promoção. Vinte e cinco coroas. Primeira, e creio que única, edição. Três quarto do preço de um café expresso no café ao lado. A poetisa que prometeu à memória da amiga Ruth Maier que lhe queimaram em Auschwitz «far-te-ei um monumento de palavras cintilantes e nunca te esquecerão». E conseguiu. Nem explico isso à minha colega. Ou que não é só a foto de um cavalo o Olhos nos olhosNeste meu acariciar de livros velhos e blogs parados em busca de fios de compaixão e decência ela verá pouco mais que uma espécie de demência ou escapismo. Um pouco como o da minha velha mãe com o cão ao colo em busca de memórias melhores.

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Outono, o velho

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Descemos manhã cedo, a manhã clara, um resto de lua ainda no azul do céu. Geada já em uma ou outra zona mais desabrigada ou sombria. Nas escarpas do pequeno vale onde corre um ribeiro, as rochas húmidas como que exalam um frio ancestral. Árvores caídas, em degradação e apodrecer lento, o musgo que as conquista, misturam-se com a terra e a rocha, voltam a ser silêncio. A fatalidade cíclica e um frio ancestral impõem a sua lei.

Mais abaixo, a meia encosta, há ainda poucos sinais de outono, o verão foi ameno e prolongado. Os dourados, laranja e vermelho das caducifólias não são ainda a regra, o verde abundante das coníferas continua dominante. Quase alegre, vivo e esperançoso. O sol da manhã aquece a encosta voltada a nascente, dissolve um pouco o frio, inunda a floresta de tiras de claridade e brilho. Dir-se-ia que é a profundidade da terra, os rochedos húmidos, a causa do arrefecimento, não a volúvel atmosfera.

Tudo isto lembra um curto poema (Sommeren – « O Verão»), naquele que foi o último livro publicado em vida de Gunvor Hofmo: Epilog.

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O Verão corre

como um menino pequeno

até que encontra

um homem velho: o Outono.

 

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Sagkrakk

Sagkrakk. Designação de cá, das florestas noruegas, dos cavaletes de serrar. O velho livreiro servia-se com um frágil há anos, similar aos que se podem ver carregando no link atrás. Autêntica varanda de gaio (designação campónia para estrutura pouco resistente), que abanava que nem varas verdes. Pouco adequada a troncos de peso considerável que são os que utilizamos para lenha.

Como lá por aquele penhasco pouco material se encontra que não seja o da árvore e umas tábuas desiguais que foram guardadas para uma outra ocasião, remédio outro não houve que abater árvore seca e fazer dela um outro mais sólido. E ei-lo aqui de cavalete novo e robusto, que nem apache renegado, precavendo-se da invernia que não tarda.

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Três dias na floresta, toucinho e feijões, vontade e artifício, e eis o inverno preparado. Não vão as nossas mulheres dizer que vamos para lá encher o odre de cerveja e aguardente, que vamos mais pela carraspana que pla lenha, aqui se lavra testemunho e prova.

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De vez em quando, é bálsamo restaurador este tipo de trabalho; e este retiro dos barulhos do mundo. Nem que seja por uns dias. Para traduzir isto em termos que os mais dados ao belletrism (e que outra gente no luso quadrilátero se encontra meu deus?) entendam, é a famosa receita oitocentista de Jerome K. Jerome no Three Men in a Boat (To Say Nothing of the Dog). E que, para evitar que tenham que ir agora pela vastidão das bibliotecas pessoais à procura do voluminho e a verificar a citação, aqui se deixa:

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Jon Michelet – O último romance da saga «Um herói do mar»

O escritor norueguês Jon Michelet faleceu a 14 de Abril deste ano e a Noruega rendeu-lhe homenagem. As televisões, a rádio, a imprensa (o artigo do Aftenposten do funeral e cerimónia na igreja de Rygge)jornais nacionais ou locais, os livreiros que nas suas montras expuseram edições antigas ou modernas das suas obras. Foi escritor prolífico sobre temas variados, sendo mais conhecido até há poucos anos como escritor de policiais. Nas montras de Oslo, alguns dos seus títulos:

Na altura, voltei a um dos seus títulos mais conhecidos: O Orions Belte, um romance de aventura cuja cena é o Ártico num tempo ainda de Guerra Fria, que foi adaptado para o cinema e que foi também um dos maiores sucessos de bilheteira para filmes noruegueses.

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Michelet foi marinheiro, activista político de esquerda (em toda a sua vida sempre tomou parte pelos mais fracos da sociedade), jornalista, editor. Em parte é a ele que devemos o desenvolvimento da editora Oktober, da qual foi director e que é hoje uma das editoras norueguesas que publica autores e literatura da melhor qualidade.

A a grande popularidade e notariedade de Michelet foi, no entanto, alcançada com o romance En sjøens helt, «Um herói do mar», romance histórico gigantesco, seis volumes, a saga de um rapaz que é apanhado pelo eclodir da Segunda Guerra Mundial embarcado em navio mercante norueguês, e que, ao serviço da marinha mercante que recusou servir Hitler, vai viver toda a espécie de aventuras e sofrimentos, de medos e de angústias. E conhecer o amor de uma enfermeira irlandesa com quem se encontra nos poucos dias em que as cargas ou descargas o levam a porto inglês. Mas é a saga também de toda uma classe profissional, que de civis, num ápice se vêem transformados em combatentes no conflito mais mortífero da História. Os chamados «marinheiros de guerra» noruegueses. Michelet faz justiça não só a noruegueses, que aliás viriam a ser traídos pelo seu próprio país no regresso já depois de cessado o conflito, nunca tendo recebido a compensação prometida, mas também aos estrangeiros que trabalhavam a bordo dos navios da frota mercante. Em muito, graças à atenção que os seus romances despertaram para a causa dos marinheiros de guerra, desde o primeiro, que foi um sucesso inesperado de vendas, existe hoje um organismo onde estão registados dados biográficos dos participantes no conflito, dos navios onde serviram, onde pereceram. Não apenas noruegueses. Também os de outras nacionalidades.  Entre as vítimas também se podem encontrar de nacionalidade portuguesa, como se pode ver aqui na página do capitão Finn Abrahamsen no relato que as autoridades americanas fazem do afundamento do navio tropedeado e das nacionalidades da tripulação. Infelizmente, do português, o nome não é registado.

O trabalho de investigação de Michelet para produzir este romance, todos o exaltam, foi ciclópico. E o seu espólio de documentação, entretanto doado, constitui uma fonte preciosa de informação para quem queira estudar a história marítima do país. A Noruega deve a este homem a homenagem gigantesca que, nesta série de romances, prestou a uma classe profissional e ao seu sofrimento. Deve-lhe a tenacidade com que o escreveu. Principalmente este sexto e último volume, Krigerens hjemkomst «O regresso do guerreiro» numa corrida contra o tempo. Doente, com cancro, em estado terminal, Michelet entregou a última página manuscrita A4 à editora uma semana antes de morrer. Foi já ela a escrever o posfácio.

Na sexta-feira de há duas semanas, saiu finalmente o sexto volume, com ampla cobertura da imprensa que celebrava a obra. Foi o lançamento literário do ano, a obra esperada.  Aqui, no comboio que tomei até ao aeroporto, o volume, e os artigos sobre o escritor e a obra no caderno central do Aftenposten:

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O romance não é isento de críticas. Mas onde uns vêem fraquezas, eu vejo uma das suas maiores qualidades. Michelet faz-nos viver o conflito pelos olhos, e com a linguagem simples e directa, espelhada nos seus diários, cartas, pensamentos, angústias expressas  e diálogos, de um rapaz de uma família proletária de uma zona florestal norueguesa. O resto, a boa literatura, a variedade de linguagem, a evocação da geografia, da astronomia, da ciência da navegação, da história, está descrita à sua volta. Como cenário. Um cenário prodigioso. Foi, quanto a mim, uma escolha corajosa. Uma escolha pelo rigor e pela verdade. Na Noruega sempre é um pouco mais fácil. Entre nós era impossível; escrever um romance de pescadores de bacalhau sem os fazer exprimir na mesmíssima linguagem que usa a Lili Caneças e os tipos das calças vermelhas de Cascais. Ou os da roupa negra da FCSH. Que dá no mesmo.

Uma enorme alegria, este romance por que esperava sem a certeza que Jon Michelet, já muito debilitado, o conseguisse acabar. E ao mesmo tempo uma enorme tristeza. Se pesquisarmos no Google «romance guerra marinheiros jon michelet» o resultado é triste. Parece que, de todos os vivem e trabalham na Noruega e que usam o idioma português, só a mim este «monumento cintilante» como um dia lhe chamou um crítico, impressionou. Questões de verbos no pensamento e no idioma, certamente. Sacar precede honrar. Honra a Jon Michelet que, em relação a uma geração de seus compatriotas em particular e à sua sociedade em geral, assim não fez.

 

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Ralhetes a paneleiros e a redução de IRS

Colega há vinte e cinco anos, paneleiro (usemos aqui o termo depreciativo), efeminado, ralho frequentemente com ele. No mais dos casos em forma de pilhéria, chamando-lhe mestre da camuflagem: «vais prá cidade, dizes-te paneleiro quando apanhas as gajas bêbadas, que podem dormir lá em casa sem perigo, que não é essa a tua praia. Depois a meio da noite já trancas garrocha nelas como em cabra velha. E depois claro, fica para nós os hetero pagar as pensões de alimentos quando ficam grávidas. Nunca foram vocês…»

Por norma ri-se, divertido, transformado pela pilhéria em muito mais macho latino que eu. Hoje o ralhete foi diferente: com um ar abatido e cansado chamo-o de parte e digo que não pode trabalhar até à exaustão. Cuidadoso, competente, voluntário, com o passar dos anos tornou-se um dos esteios principais da equipa. Chamou a si demasidadas responsabilidades, há dias em que não consegue fazer tudo o que acha que é seu dever. Em grande parte isto acontece porque é estimado por todos e sente que deve aos outros fidelidade. E com cooperação e fidelidade é pago por nós; os que trabalhamos com ele.

Na sua grande maioria os paneleiros, os homossexuais meus colegas, são um recurso precioso da empresa. Outro recurso, é a proibição estrita de (entre outros), por motivo de orientação sexual, assediarmos ou achincalharmos um colega. Implica, ou punição severa ou despedimento. Essa igualdade, esse respeito pelos outros, sejam paneleiros ou fufas (usando de novo os termos pejorativos), essa tolerância e sentido de justiça é, quanto a mim um dos maiores recursos económicos noruegueses. No fundo, uma demonstração da tese do “romance distópico gay” de Fabio Canino: Rainbow Republic

Faz agora em Setembro vinte e sete anos. Era encarregado nesta fábrica, creio que desactivada hoje (estas coisas foram reais, tiveram tempo e lugar) olhava desesperado para umas paletes de peles, 3600, se não estou em erro. Era ali encarregado, e, na sexta-feira anterior, o patrão e os gestores da uma outra fábrica do mesmo grupo (esta, hoje pertencente a outro proprietário) vieram perguntar-me, dado que havia pouco que fazer na outra fábrica maior, se eu não tinha trabalho para adiantar. Disse que sim, entre outros trabalhos, que aquelas 3600 peles (em rigor croutes) de má qualidade, destinadas para serem transformadas em forros (tipo de pele usada para forrar o interior dos sapatos) poderiam ser processadas de imediato e armazenadas para acabamento e venda posterior.

Passados dias, voltaram, prontas. Recurtidas, amaciadas, lixadas, prontas a serem coloridas e transformadas em camurça. Ou seja, prontas para deitar fora. Sem préstimo algum que não fosse lixo. Motivo, o encarregado, na parte da tarde dessa sexta-feira, certamente já com umas aguardente no bucho, deu a ordem errada. E os operários, fartos de serem oprimidos e maltratados, por retaliação cumpriram-na para o entalar. Para que ele ficasse com a culpa do erro e prejuízo. Cada um deles (experientes, nas oito vezes que pegaram à mão em cada pele durante o processo), viu que estava a fazer a coisa errada. Ainda assim, acharam que estavam no seu direito de, dessa forma, se vingarem dos maus-tratos, das diferenças salariais, das condições insalubres em que trabalhavam. Que eram reais.

Sentei-me ali um pouco a olhar aquele bonito serviço, em operação aritmética simples, a multiplicar aquele episódio isolado pelos milhares de empresas nacionais. Foi aquele episódio, e a multiplicação por milhares de episódios semelhantes, o principal motivo de ter procurado vida noutro país.

António Costa veio com a proposta de redução de 50% no IRS para os emigrantes que pretendam regressar ao país e a medida gerou polémica, os tradicionais prós e contras. Por mim, não tenho grande opinião sobre o assuunto, nem os 50% de IRS seriam incentivo de monta. Está talvez no seu poder (e até isso é duvidoso) oferecer esse benefício. Mas há uma constelação de outros impostos ou corveias quanto aos quais não pode fazer grande coisa. O que a EDP, a Galp ou a Brisa subtrai diáriamente ao bolso do zé pagante, por exemplo. Mas acima de tudo o imposto pesadíssimo que todos pagamos pela acrimónia constante contra o próximo, o espezinhamento do outro, a vigarice, a humilhação gratuita. Que geram sabotagem, desconfiança e ressentimento. E um viver feio. Os custos económicos para o funcionamento do país são enormes. E o dano psicológico incalculável.

À sua maneira o meu pai, nos conselhos que me dava, resumia a coisa desta forma: «Olha que muito fraco e ordinário é um home que só pensa em andar por í a fazer pouco dos outros». Era (segundo ele) fraca semeadura:

 

«Nunca é um home tã valente que não precise dos outros numa ocasião qualquer. Vai-se aí numa estrada, arrebenta um pneu ou um home distrai-se, dá uma cachaporrada de frente num pinheiro ou numa pedra, lá fica sabe Deus como. Apega-se-lhe o fogo em casa, vê-se abaganhado se nã lh’acode um vizinho. Se há um bezerro que dê uma cornada, ou uma besta um coice, qu’é a defesa deles coitados, tal e qual os cães c’os dentes e os gatos c’as unhas, nem ele há que esperar outra coisa, lá fica um home estendido de borco aí no meio d’uma terra a jeito dos corvos lh’arrencarem os olhos à bicada… Náá!!! Nã é cá preciso andar a escardear os outros qu’isto a vida e as horas d’aflição chegam prá gente todos. Prós fortes e prós fracos.»

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Dos livros, da leitura… e da mobilidade espiritual

No esplanada do café, um casal (professores do secundário, reformados, fardados como tal e por conseguinte tratados por dr/a quando servidos) lê, revezando-se, o Correio da Manhã. Radioso destino, uma vida a iluminar e esclarecer as mentes dos jovens pupilos com a cultura e o saber, desaguado ali no chafurdo das páginas do Correio da Manhã, chabanco dos mais turvos. É provávelmente uma das extravagâncias (das mais caras) do país, este dar-se ao luxo de ter uma classe ensinante cuja fonte de informação impressa principal é tal chabanco. Ou aleijão em forma impressa.

Não deixa de me maravilhar esta falta de pejo ou pudor, esta exibição pública de mobilidade social desfazada da espiritual. O vil metal, o degrau acima na escadaria da sociedade, é osmose mais convidativa que a cultura e a erudição que não seja meramente instrumental.

Ocorre-me aquela, por Marie-Hélène Lafon ficcionada, Jeanne (uma das personagens da França rural da colecção de novelas que ganhou em 2003 o  prix Renaissance de la Nouvelle ):

 

“Jeanne tint dans ses mains des livres dont nul, avant t elle, dans la litanie paysanne des siens, n’avait su, soupçonné, ou espéré l’existence. Quelques-uns, ou quelques-unes, sans doute, avaient, avant elle, mâchonné des lettres indécises, vaguement apprises, lentement dégluties et oubliées, tombées dans la désuétude certaine de ce qui ne nourrit pas. Les livres n’étaient pas dans la mémoire des siens, pas du côté de son sang. Patiente et seule, elle apprit. Elle apprivoisa les contours du monde noveau de tout son corps mince et dur de jeune fille résolue. Elle apris avec son corps, et, la première, Jeanne detourna pour le travail des livres la ténacité longue de ceux qui, avant elle, s’étaient nourris de la terre, frottés, usés contre elle, et d’elle avaient joui. Elle employa la ténacité ancienne au travail de la gramaire et de l’arithmétique, de l’histoire et de la géographie, des pays improbables et des dates enfouies, des opérations infaillibles et des exceptions mémorables. Elle étudia  avec application, sans curiosité ni passion, élans autorisés aux seuls enfants légitimes du savoir, enfants de familles. Elle étudia comme on laboure, pour manger. Elle eut son brevet, un brevet d’institutrice. Elle ètait la première, la primière et seule.

Marie – Hélèle Lafon, Liturgie – nouvelles, Buchet /Chastel, Paris, 2002 (pp. 65-6)

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Homenagem às homenagens

Encontrei pela primeira vez um livro de Eduardo Galeano numa livraria em Oslo, num escaparate da livraria da Litteraturhuset onde, por norma, apenas se expõe o melhor. O Voices of Time, que está na origem deste post velho. Lido o primeiro, os outros foram de seguida. Comprados na Argentina, garimpados nos sebos brasileiros em edição de língua portuguesa ou espanhola, frequentemente oferta para os amigos numa tentativa de divulgação. É estranho que entre nós seja pouco (ou menos que o desejável) referido. Ou talvez não seja… Galeano, para lá de contador exímio, é um dos maiores profetas contemporâneos da compaixão. Sentimento, ou valor, um pouco arredado dos comportamentos lusos.

Excepções há – uma das mais honrosas, a do blog de Joana Lopes; que não se cansa de o lembrar. Ontem, no Entre as Brumas da Memóriaassinalando a data do seu nascimento.

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