Das coisas variadas

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Amsterdão, agora. Releituras. O velho Corte na Aldeia de Francisco Rodrigues Lobo e um dos primeiros de T. C. Boyle; East is East.

Tisnasdo do sol, bruteza de calhau, braços e mãos feridos (a missão continua), refinadíssmo cultor de letras.

Ambição cá de casa, nisto de blogs e de leituras, fugir de classificação como o dianho de cruz, passar por etiquetas e capelas e modas como o cão pla vinha vindimada.

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Puta de vidinha triste

Dia de viagem, na estação da Ribeira de Santarém, tomo um café. O telefone esperto dá sinal de rede, o ponto de interrogação se quero ligar a uma rede disponível. Passo a lista… a primeira rede, intitulada “KeresWifiFazComoEu”. Imagino a puta de vidinha triste do bicho intitulante.

Há cerca de um ano em Oslo um dos directores da companhia de navegação onde trabalho oferecia-me um Tag Heuer que, dizem os colegas, custa cerca de dois mil euros. Agradecendo a minha fidelidade por vinte e cinco anos de serviço. Não lho pude dizer, com receio de ofender os colegas portugueses presentes, mas murmurei cá cos botões, quem te deveria pagar por cá ter servido era eu. Pelo exílio permitido e pago. Da portuguesa puta de vidinha triste.

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De tílias e outras

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.

Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. (…)

Rui Ângelo Araújo no Canhões de Navarone

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a mesma frase

É preciso voltar à mesma frase: “Que parte é que não percebeu? Não há dinheiro“”

& etc…

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Forquilhas por boas-vindas

 

Man and woman with stern expession stand side-by-side. The man holds a pitch fork and wears glasses.

O meu avô materno, homem sensível e púdico, de quem se acreditaria terem-lhe aparecido em casa quatro filhas por encomenda postal, ao pedido do veterinário de o ajudar a amparar o bezerro nascituro, para não ter as mãos em contacto com aquele ser pegajoso, pegou numa forquilha de ferro. E com ela por berço se preparava para lhe dar as boas-vindas ao mundo. Até que o veterinário escandalizado o mandou sumir-se dali e chamar antes a mulher.

Bibliófilo e bibliómano, que me lembre, fui uma vez à feira do livro. Mais uma passou sem que lá pusesse os calcanhos. Queimado do sol, musculado, os braços arranhados, aquela gente dos livros, grave, pálida e de ombros estreitinhos, se pudesse, recebia-me também com uma forquilha. Como aquele caso de Ana Gomes trazendo ao congresso o tema da corrupção há coisas, e seres, que simplesmente não são bem-vindos.

Umas vezes a coisa diverte. Outras, simplesmente, chateia. Valem-me livrarias e afarrabistas no norte da Europa onde sou cliente grato e o tratamento é amistoso. E não é preciso ir com o fato (ou linguagem) do Domingo.

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Companhia de ver o mar

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Tinha saudades de ver o mar, de lhe sentir o cheiro e a voz. Apesar do brumoso e do chuviscar foi passeio agradável e em boa companhia. Está formoso e bem-disposto o infante com quatro meses e três dias. Um companheirão.

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«kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka» e «tontejanar»

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…”kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka”, é um som característico do acordar em Oslo. Gaivotas. Há quatro semanas, ao acordar no hotel com o grito queixoso e melancólico que Karl Ove Knausgård grafa assim no seu segundo romance publicado, apercebi-me do quanto me fazia falta o som omnipresente na cidade, tantas vezes o primeiro que se ouve ao acordar. Romance meio chatito para um agnóstico como eu, com muito anjo e muita bíblia, deste «Um Tempo para Tudo» lembrava-me desta passagem onde se relata o primeiro apontamento escrito – no início do séc. XVII por Peder Claussøn Friis, pastor em Audnedal e Stavanger – e a migração das aves para as terras do interior onde seguem os tractores como se barcos de pesca no mar. Fui por ela; passando por alfarrabista, por tuta e meia, comprei o romance e lá estava o estimado “kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka”,

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Na passada sexta, ao limpar uma das terras que herdei do meu pai, chega o Vitor alfaiate (o agulhas) e vai de prosear daquele trabalho ciclópico a que me entreguei sozinho. Aprova e elogia. Sempre grato porque lhe damos a água das lagoas para a rega numa propriedade que tem a jusante, diz que se eu precisar de ajuda… peço. Preciso de cortar um tufo de roseiras bravas que cresceram a alturas desmesuradas, peço se o puxa já atado com corda e corrente com o tractor enquanto eu corto.

– É melhor é, que se elas caiem pra cima de ti e t’adregam a caçar as costas riscam-te todo!

Bom homem o Vitor. Homem de trabalho desde menino, sem prejudicar o semelhante em palavras ou acções, queixa-se que agora reformado sente falta do trabalho. Mais diz: que tem que andar ocupado, parte das vezes em trabalhos e bricolas que não lhe dão interesse (monetário) nenhum.

– É pá, farto-me prá’aí de tontejanar só pra nã tar queto!

«Tontejanar» ou «tont’janar» é palavra corriqueira por ali, fazer coisas tontas, sem propósito, que tanto se aplica a trabalhos esforçados como a folganças. Tal como o grito queixoso e melancólico das gaivotas de Oslo “kaaaaiii-kaaaiii-kaai-kaa-ka-ka-ka-ka” é som formoso, pelo menos na voz de gente boa, como  a daquele. Pena é que entre nós – com a mania nacional da correcção ortográfica, que mais mal provoca que bem – raramente se ache escrita. Mas também, entre nós, a palavra do povo, mais que a dos bichos, é coisa espúria, imprópria, desagradável.

 

 

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