Alegria e tristezas de um viajante

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Oslo, dez negativos, contas para pagar na caixa do correio. Tirando isso, chave à porta, o bom calor do minúsculo apartamento. E em cima da mesa um dos romances de Tove Nielsen dos que me faltavam. Descoberta este Outono, através de um dos seus últimos livros de ensaios, foi autora que me cativou de imediato. E vai de empreitada a ler-lhe a obra. O que não encontro os amigos vão encontrando. Este Fritt Løp, aqui depositado por mão amiga, encontrado que foi em loja de usados. Antes de entrar no pouco mais que cubículo/apartamento que me serve de casa aqui, passo pela pequena livraria do prédio a Bookstua, agradecer a mensagem de texto, as condolências que recebi da livreira aquando da (ainda recente) morte do meu pai. Tem, diz que é o meu presente de Natal, uma obra de historiografia sobre a Frente do Norte de Hitler durante a segunda Guerra Mundial. Diz que um tipo que foi por aqui Ministro da Defesa lhe tinha encomendado e gabado o livro, que como me interesso por estas coisas…

Como só viajei com bagagem de mão, com o The Mission Song do le Carré por companhia, já tenho literatura (grátis) para o resto da semana. Aprecio esta queda desta gente para acarinhar os interesses dos outros. Não necessáriamente os seus. É uma das minhas alegrias.

Depois abro o Malomil e vejo isto. Uma das minhas tristezas.

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There’s nothing like the sun…

Estacionado no breve momento que a correria entre papéis, notários, burocratas e demais vermina fuliginosa permite, na esplanada, deito a cabeça para trás e respiro fundo. O sol acaricia a pele,  e os versos de Thomas (Edward), ainda que sobre o de Novembro, misturam com o primeiro café do dia a curiosa lista de – (o mundo sendo assim) – pedras e homens e bestas e pássaros e moscas…

There’s nothing like the sun as the year dies,
Kind as it can be, this world being made so,
To stones and men and beasts and birds and flies,
To all things that it touches except snow,

[…]

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O bom Lara, que havia longo tempo, que, nesta santa Casa não entrava,

 

[…]

O bom Lara, que havia longo tempo,

Que, nesta santa Casa não entrava,

Aturdido ficou, quando a seus olhos,

Na Cerca entrando, juntos se lhe oferecem

As areadas ruas, as Estátuas,

Os Buxos, os Craveiros, as Latadas

De mil flores cobertas, e que, em torno,

O virente jardim adereçavam;

E não bem quatro passos tinha dado,

Quando, fitando curioso a lente

Na estátua, que primeira ali se encontra,

Pergunta ao Jubilado: “Quem é este

Monsieur Pariz? segundo diz a letra,

Que por baixo, na base, tem aberta;

Se se houver de julgar pela aparência;

O nome, a catadura, o penteado

Dizendo-nos estão que este bilhostre

Foi Francês, e talvez Cabeleireiro,

Inventor do topete, que o enfeita.”

-“Páris, e não Paríz diz o letreiro,

(Circunspecto lhe volve o Padre Mestre)

Nem Francês, como crê, Cabeleireiro,

A personagem foi, que representa;

Mas em Tróia nasceu de estirpe régia.”

[…]

Este (como dizia) foi Troiano,

E nos Campos que o Phrygio Xantho corta,

Guardando, em doce paz, o seu rebanho,

Eleito foi Juiz do grande pleito,

Que Juno, e Palas, entre si, com Vênus,

Sobre a beleza, um tempo, sustentaram;

No qual não sei porém, se com justiça,

Deu a favor de Vênus a sentença,

Entregando-lhe o rico pomo de ouro,

Que a Discórdia lançara num banquete.

– Já nesse pleito ouvi, (se bem me lembro)

E no pomo falar: (lhe volve a Lara)

Mas o tal Monsieur Páris foi um asno;

(Perdoe a sua ausência). Se na causa,

De ser Juiz a sorte me coubera;

Daria mal, ou bem minha sentença,

Conforme o meu bestunto me ajudasse,

Sem em nada gravar a consciência:

Mas a maçã havia d’eu papá-la,

Pelas custas, por certo; e quando muito,

Daria à Vencedora, dela as cascas.

[…]

Do Canto V de O Hissope de António Dinis da Cruz e Silva.

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Escritores proletários, literacia, conversas de panelas e outras coisas da democracia

Vinha sentido com a mulher, a irritante e irritada “kjerringa” que só o culpa e se queixa; nem sempre sabe bem porquê ou de quê. No pequeno apartamento no centro de Oslo, vou ouvindo e rindo ao mesmo tempo. Temperamento feminino, vou dizendo e desculpando a pobre…, nada a fazer, todas assim.

Sobre a mesinha o livro de Ivar Lo-Johansson, e a versão norueguesa da história da conversa sobre a panela estalada: Samtal om en gryta (o título original em sueco) do livro de novelas de 1941, o Jordproletärerna : berättelser. Pergunto se conhece a história da mãe (em português diríamos tia) Gottlund que tenta acabar o guisado de carne numa panela de ferro estalada; enquanto, impacientes, o marido agricultor e os quatro filhos esperam pelo almoço. A discussão instala-se, chovem queixas ( várias páginas delas) e impropérios da mãe Gottlund sobre o marido que se vai defendendo o melhor que pode da inconveniência da panela estalada, e sempre a mesma há um rôr de anos.

O pobre «proletário da terra» ouve, ouve, riposta, e finalmente perde a paciência. Rapa o pobre Gottlund do dinheiro para uma panela nova, coisa que imagina pôr um termo à discussão e alarido. Engano dele.  Ela não aceita, o argumento que aquela serve bem. Não serviu estes anos todos? De qualquer forma está para se dar ao trabalho de ir agora usar uma panela nova, tem que se curar (impregnar de gordura) primeiro.

Lê aquilo e ri, diz que vai copiar o conto e afixar lá em casa. É tal e qual! Mirando o livro, tu ainda lês os escritores proletários? Meio desgostoso,…já ninguém lê os proletários.

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Vou lendo, e especialmente, umas páginas de Wilhelm Moberg de que muito gosto e a que volto frequentemente. Do livro «Relatos da Minha Vida» publicado em 68 (um ano antes desta versão norueguesa da  Cappelens), deste capítulo « os livros na minha vida», uma maravilhosa descrição da utilidade da e atracção pela leitura:

«Li para alcançar para lá das minhas próprias fronteiras, para lá da minha condição, da minha experiência limitada e parcial, da monotonia do meu dia-a-dia, do repetitivo e cinzentismo inseparável dos meus dias. Li porque preciso fertilizar-me nos pensamentos de outrém, buscar estímulo na fantasia alheia, participar na vida dos outros – muito simplesmente, busquei experiências que iam além das minhas. Ler tem sido viver com a alma dos outros. Refiro a ficção e as grandes auto-biografias. Estive com eles, vivi a seu lado, fui seduzido por eles, com eles me alegrei e com eles sofri. Sim, atrevo-me a dizer: vivi  com eles até à identificação. Quando a leitura é uma experiência arrebatadora implica sempre uma forma de identificação com as pessoas dos (nos) livros. »

A título de curiosidade, página de onde se traduz a trouxe-mouxe:

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Moberg, que, trabalhador florestal aos quinze, lia no beliche ao fim do dia, (referi-o aqui e ao seu trecho do mar de feno) advogaria sempre a leitura livre. Liberta de autoridade, não orientada. A leitura como identificação. Cunhou, num artigo do Dagens Nyheter em 1965 o termo Demokratur. Insurgindo-se contra uma tutela intelectual elitista que corrói as virtudes e os sentimentos de igualdade da democracia.

Trago estes velhos alfarrábios nórdicos à colação por causa de dois posts, ou de parte deles. O primeiro, no blog Ladrões de Bicicletas. Ali se expõe (e acertadamente) o papel de líderes políticos e do economista Gunnar Myrdal na construção de uma sociedade igualitária. O passado é um país que fica lá em cima. Mas esse papel, essa influência vertical de cima para baixo de pouco vale sem a influência horizontal. A “identificação”, de que fala Moberg. Nesse sentido (o de Moberg) o passado é um país que fica ao lado.

Chamo a atenção para um quadro de um blog nem por sombras esquerdista que aqui tomo de empréstimo. Este, sobre a alfabetização tardia do sul:

Sociaisdemocraciasnórdicas àparte, questões de direita ou esquerda, se pensarmos em termos de sociedades igualitárias, de democracias (tendencialmente) transparentes, justas e estáveis, de bem estar-social, elas coincidem (grosso modo) com o desenvolvimento da alfabetização e as diferenças que o gráfico expõe. Dentro de um mesmo país (a Itália), evocam as conclusões de Robert Putnam  em Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy. Diria até que, com o desenvolvimento de hábitos de leitura, de consumo de literatura. O processo mais eficaz que se conhece de transmissão horizontal de conhecimento e empatia. De prevenção de autoritarismo.

Faz todo o sentido a frase de Carlyle de um post abaixo: «Literature is our Parliament too.» Coisa que raramente ocorre ao Zédaesquina e não passaria pela cabeça a Cavaco; ou a frau Maria Luís dos Cofres Cheios.

 

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Coisas boas

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Domingo sem chuva, tempo fresco, estradas por olivais e charnecas. Deixar boxear o Boxer, parar p’la bica em restaurante de província… ignorar A Bola e o PSI20 – (nossos portentos de virilidade e  uivo)

 

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Coisas que se encontram nos livros – Those poor bits of rag-paper with black ink on them

«Literature is our Parliament too.»

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e, mais abaixo, na mesma página do On Heroes and Hero-Worship  de Thomas Carlyle ( Lecture V – The hero as a man of letters; Johnson, Russeau, Burns):

«of all things which man can do or make here below, by far the most momentous, wonderful and worthy are the things we call Books! Those poor bits of rag-paper with black ink on them»

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quando um Deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama

 

Da herança de armas escolho esta. A velha e sólida pombeira Colibri. Sempre a minha favorita. E a (de toda uma vida) do meu pai.

Lembrei há poucos dias o episódio ao limpá-la. Em certos dias, ao abraçá-lo na despedida quando me ia levar à Estação de comboio, eu rumo ao aeroporto e a outro país, se a tonalidade ou o intenso da luz (a lembra a daquela tarde) era de molde, lembrava-me daquele “quase-crime”. Há mais de uma década tinha estado mal. Às portas da morte. Dependente. A dar trabalho. Sentindo-se inútil. E um dia confessou:

– A tua mãe escondeu as espingardas, mas é fácil dar com elas. Isto não é vida, peço-te desculpa…

Pedia desculpa de planear dar termo àquilo que já não era vida. E eu soube que seria aquela, a Colibri, o instrumento. Foi conversa de poucos de segundos. Nunca precisámos de grandes conversas. E a resposta saiu de forma imediata:

– Não precisa estar sozinho; pomos os dois o dedo no gatilho.

Respondeu, de lágrimas nos olhos que isso não. Que nunca seria capaz de me implicar num gesto desses. De qualquer forma, a resposta saiu imediata. No momento soube que esse era o meu dever. Provavelmente facilitaram os valores que partilhámos: o gosto pela vida, a auto-suficiência, o nojo por ser vivo a qualquer custo – a coisa que mais transforma um ser humano em animal. A minha resposta revelou-se (com o tempo) errada. Teria uma década e tal de vida (bastante boa) ainda, depois de recuperado da doença. Foi errada a resposta, o estar disposto a pousar com ele o dedo no gatilho? Uns dias sim, outros não. Teria tido a coragem no momento decisivo? Penso que sim, mas pensar é fácil…

Essa foi, a minha experiência (nunca concretizada) de suicídio assistido. Ou, se assim quisermos, de eutanásia.

Durante estes últimos dias foi intenso o debate sobre o assunto, muito se disse e escreveu. À luz da minha experiência, nenhum post na blogosfera ultrapassa este no Mãe Preocupada e a frase quando um Deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama

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