como pêche na auga

IMG_20191116_112434

Na livraria de usados Lesart, sita na Ziegelteich 14 em Kiel, cidade alemã aberta ao Báltico, no escaparate dos livros em inglês, a parte inferior é dedicada a uma infinidade de línguas. Era aí, nesta manhã pluviátil nevoenta e plúmbea, que se encontrava a obra do escritor e nosso compatriota Gonçalo M. Tavares vertida para uma língua que não reconheci imediatamente, amparada pelo Otages Intimes de Jeanne Benameur e pelo Jokeren de Lars Saabye Khristensen. Foi grata surpresa; desconhecia que G. M. Tavares era também castigador de prelos para cá do Elba.

Trouxe os Otages e Jokeren e deixei o de Tavares de bem curioso título (Przypadki Lenza Buchmanna). Não antes de abrir objecto, de o sopesar e folhear – confesso que com algum carinho. Estar vertido numa língua que desconheço não deixou de me suscitar um sorriso de agrado, uma estranha empatia. Dos (poucos) livros de G. M. Tavares, que apenas tenho folheado distraído em aeroportos e galpões similares – por coincidência sempre dados à estampa em português-, nenhum outro suscitou tanto a vontade da compra ou posse. Nem tão boa desculpa por ser ilegível.

 

Publicado em Uncategorized

Excepção histórica

IMG_20191115_030427

 

A generalização abaixo referida de Pollestad à rigidez dogmática dos socialistas e ao seu apego aos privilégios, não tem que ser entendida como um absoluto. O mundo, e o mundo político em particular, helás, não é um sistema de mecânica newtoniana, de equações rígidas e imutáveis, uma concatenação de silogismos lógicos, um Código de Hamurabi. Existe ainda e sempre alguma margem de liberdade, seja por vontade divina ou imperativo humano. Em algum ponto da vida somos tentados à transgressão ou apostasia. Vc. caro leitor ou leitora, é de opinião firme e convicta que os rebanhos são de crucial importantância para a gestão de combustíveis e prevenção de incêndios nas nossas serras, charnecas, paúis e bosques de caducifólias. É uma convicção justa, não um Édito de Tessalónica. Naturalmente, sente incómodo se a seu lado se vem sentar um pastor num concerto da Gulbenkian. É natural. É humano. Excepção que não descomfirma a regra.

Ao dogmatismo ideológico dos socialistas, e ao seu apego aos privilégios, existe uma excepção notória. O episódio vem relatado na obra de referência quanto à vida e feitos de Heyerdahl, de Ragnar Kvam Jr. (Vol. II, Mannen og Verden, Oslo, Gyldendal, 2008), p. 208, a tal da foto que abre o post.

Aconteceu, no complexo museológico de Bygdøy em Oslo (se descer dois posts verá uma porta que se abre sobre uma coberta e um deque de um navio onde fumo meu cigarro, em frente o tal complexo) no Verão de 1964. Nikita Serguêievitch Khrushchov (secretário do partido comunista da União Soviética) e o seu ministro dos negócios estrangeiros Andrei Andreievich Gromiko visitavam oficialmente a Noruega. Khrushchov manifestou também desejo de visitar o museu da balsa rudimentar (ou jangada) KonTiki, sendo Thor Heyerdahl, o navegador que com ela atravessou o Pacífico, o guia da visita. E aí, aconteceu o insólito, a excepção em manifestação pública ao dogmatismo e à venalidade por parte dos expoentes máximos do socialismo à época. Em parte, a indiscrição de uma criança que ouviu o desabafo (o filho de Heyerdahl, Thor jr. que acompanhava a mulher e a filha de Khrushchov ) permite-nos hoje saber que Gromiko, ao ver a frágil estrutura da balsa exclamou: «mais depressa me convertia ao capitalismo que embarcava numa coisa destas!»

Já Khrushchov, que ouvia atentamente as explicações de Heyerdahl (pode ver o vídeo aqui), –  desculpando-se das fracas artes de marinheiro -que em pouco ou nada o habilitavam à empresa – ofereceu-se de imediato para ser o cozinheiro na próxima expedição. Abdicando, intrépido e voluntarioso, de todo os confortos e seguranças da sua posição cimeira no mundo socialista.

Nada disto tirou (aparentemente) o mundo dos eixos ou impediu Pollestad da generalização sobre os socialistas que continua válida. Não nos impedirá a nós, estou em crer, de advogar p’los gados a gestão de combustíveis a bem da natureza e ir enxotando um pastor por outro dos concertos da Gulbenkian. Uma coisa é uma generalização meritória, e bem teleológica e normativa por sinal, a outra um impulso que nada invalida, um saudável impulso de livre-arbítio, em que até os mais rígidos dos indivíduos do seu tempo incorreram.

Publicado em Uncategorized

De costas ao caminho

IMG_20191114_030738

A 10 de Novembro de 1998 escreve o norueguês Kjell Arild Pollestad no seu diário que observa na linha ferroviária Sørlandsbanen o deputado socialista Stein Ørnhøi a passar por ele e restante plebe e a encerrar-se no salão do comboio, tão importante e exclusivo que os passageiros que a ele acedem têm chave própria. O inconveniente, segundo Pollestad, é que os assentos dão de costas para o caminho. Coisa que convêm, e assenta, a socialistas; presos a uma pesada cegueira e enviesamento ideológico, não conseguem descortinar o território em que viajam. Ou o progredir da História.

Esta imagem, se descoberta pelo Blasfémias ou pela comentadora residente Zazzie, faria a delícia da confraria.

Não é que Pollestad estivesse a ser muito original na sua crítica ao socialismo em geral ou ao nórdico em particular. Nos idos de sessenta já Jens Arup Seip no seu Fra embedsmannsstat til ettpartistat & etc… tinha dado forte patada na criatura socialística noruega e nos setenta  em The New Totalitarians (a partir de inglaterra) Huntford na sueca. Ou muito actual. Os políticos socialistas, tinham já virado a cadeira, rendidos à pragmática, enfrentando o andar da carruagem, fazendo seu o lema de Guizot (enrichissez-vous).

Nesses finais de noventa, pareciam ser antes os neo-liberais os que viajavam de costas. Na minha licenciatura de Ciência Política ali na Nova à Avenida de Berna, um professor de Economia Política que de tanto grasnar pela atenção dos alunos ficou o ófaxavor! (parece islandês); perorava incansavelmente que se devia taxar o trabalho e não o lucro. Porque os rendimentos do trabalho (se excedentes) seriam destinados ao consumo (estragá-lo, na voz do povo) e os das empresas, ao investimento. Não via, o pobre homem, que parte substancial do investimento seria a capturar as instituições de decisão política dos países ocidentais democráticos (e seus incumbentes) cujas facturas (nacionais) em bpn’s e bes’s e pt’s e edp’s estamos a pagar diáriamente, e a promover internacionalmente ditaduras e autoritarismos  nos cinco continentes, os mais importantes, o russo e o chinês cujo poder pagaremos no futuro sabe Deus com que custos, sugere-nos a História que muito provavelmente com o sacrifício último.

Trato o assunto em tom de ligeireza. E talvez não seja lícito aqui o tom condenatório ou acintoso. O tom de Pollestad não o é, antes de uma ironia benevolente. Todos procuramos de alguma forma prestígio e segurança (seja num salão de comboio seja numa cátedra na Avenida de Berna) e alguma forma de escapismo mesmo que a custo de enviesamento ideológico, de cegueira face ao percurso e ao território, viajando de costas para o caminho.

Volto às páginas deste homem polémico e brilhante em Gleden er Gratis; Pollestads Best (A Alegria é Grátis; O melhor de Pollestad) depois de duas semanas a visitar no lar a minha mãe que já não sabe quem eu sou; os olhos desfocados, sem palavra articulada. Como grão de bico com dois ovos cozidos para evitar a estupidez e hostilidade da conversa ao lado na mesa do restaurante, a hostilidade e estupidez do debate desportivo no ecrã televisivo omnipresente. Para evitar pensar no trabalho intenso e extenuante que me espera, nos erros que tardo em desculpar-me. Voltar a estas (e a outras) páginas,  menos que a busca de ciência e explicação, é uma outra forma (a minha) de viajar de costas e evitar o terreno.

 

Publicado em Uncategorized

Triste e cinzento (trist og gråt), seda rasgada (revnet silke)

IMG_20191026_125859

trist og gråta expressão norueguesa para tempo chuvoso, outonal, cinzento, pluvioso. Triste e “choroso”. E para mim, apesar das queixas dos colegas noruegueses, de férias estragadas metidos em casa, este tipo de tempo é uma alegria encontrá-lo. Calmo e tranquilo, meditativo, convidativo de livros e leituras.
Nos pequenos intervalos de trabalho, fumo um cigarro à porta que dá para a coberta, e para o fjord que se abre a sul, para o museu do velho veleiro de exploração polar, o Fram. A ele está associado também a definição do significado dos termos equivalentes a desânimo e a melancolia no Dicionário Académico Norueguês; a frase de Nansen no livro “Fram (sobre o) (através do) Mar Ártico“: hvor trist og gråt det er! Og lige fuldt er jeg ikke tungsindig” – Fridtjof Nansen: Fram over Polhavet I , 489 (1897).
“como é triste e cinzento! E apesar de tudo não estou desanimado”
A  este tempo de chuva associo também um som nas ruas de Oslo. Um som que recordo do romance de Ole Robert Sunde Penélope er Syk (Penélope está doente), um romance de um homem velho com a mulher doente terminal que fica confinada ao apartamento enquanto o marido sai por curto espaço de tempo para fazer as compras necessárias. Este Ulisses de odisseias curtas (desloca-se Teresesgate acima até Adamstuen) nas saídas à rua entretêm-se principalmente, numa espécie de ligação do mundo exterior à sua vida confinada, de pequenos episódios e evocações da memória. Uma delas, no início do romance, ao ouvir o som que faz a água projectada pelos pneus dos carros que passam em Teresesgate, é o lembrar-se de uma frase de um escritor americano (qual, não especifica) que compara o som da água projectada pelos pneus com o rasgar de seda. O som de seda rasgada: «lyden av det bortsprutete underdekkregnvannet var tydelig – et sted hadde en amerikansk forfatter sammenlignet det med revnet silke». Traduzindo, (o som da água projectada pelos pneus era nítido – noutro lado qualquer houve um escritor americano que o comparou a seda rasgada).
Ao caminhar pelas ruas de Oslo hoje de manhã, ouvi este som, recordando a frase. Ele transformar-se-á daqui a pouco. Já começou, aliás, em algumas ruas. Com a neve e o gelo, nos passeios, para prevenir as quedas e o escorregar, é espalhada gravilha. Com a escorrência, com o movimento dos passos, a gravilha invade parcialmente as ruas, o som dos pneus que sobre ela transitam modifica-se. Torna-se mais agressivo. É já não um rasgar de seda mas de um tecido mais áspero. Serrapilheira ou tela, talvez. Papel seco.
Publicado em Uncategorized

Humildade informada

Em Amsterdão, telefono e ouço do outro lado a voz afável e amiga. Um homem que é um bálsamo saber que existe. Confesso-lhe que é um alívio voltar ao norte e ao trabalho e aos livros. Que venho farto de gente que sabe tudo.
Para cá dos Pirinéus é mais fácil encontrar aquilo a que chamo “humildade informada”. Jim Powell, autor do (bom romance) The Breaking of Eggs , escreveu, há pouco mais de um ano, um artigo que pode bem ser um exemplo dela: Tomorrow never knows .
.
Publicado em Uncategorized

Heineca & Safran Foer

IMG_20191112_143027

Amsterdão, agora.  Leitura à gargalhada. Um gajo faz figura de parvo em público mas paciência.

(Don’t try to read them at night while someone else is sleeping unless your relationship can survive frequent wakings by deranged laugther)

 

 

 

 

 

Publicado em Uncategorized

Dúvidas e inutilidades

IMG_20190228_181940

.

Mato e silvas subindo árvores acima, caniçais em redor. Limpeza, viste-la; pouca pra lá da promulgada administrativamente por Lisboa. Passei a grade ainda naquela tarde, a atrasar a erva. Trabalhos inúteis, roupa rasgada, mãos encardidas, desperdício de óleo e gasolina, de tempo, de gasóleo. Honrar talvez a memória do meu pai, mas nem isso tem utilidade prática que é morto, de nada lhe serve.

Deveria escrever redondilhas à natureza, sonetos e aforismos à paisagem, ir a manifestações e colóquios de especialista convenientemente vestido, assinar manifestos. Burro, a missão espinhosa, continuará, previsivelmente, as próximas férias. Conseguirei, na melhor das hipóteses ser fonte de embaraço social para qualquer mulher. Desgostos. Olhando à volta, ouvindo e vendo a duplicidade e hipocrisia da natureza humana, a cada dia que passa melhor compreender e aceitar o conceito de morte como alívio. Libertação.

.

Publicado em Uncategorized | 5 Comentários