Humildade informada

Em Amsterdão, telefono e ouço do outro lado a voz afável e amiga. Um homem que é um bálsamo saber que existe. Confesso-lhe que é um alívio voltar ao norte e ao trabalho e aos livros. Que venho farto de gente que sabe tudo.
Para cá dos Pirinéus é mais fácil encontrar aquilo a que chamo “humildade informada”. Jim Powell, autor do (bom romance) The Breaking of Eggs , escreveu, há pouco mais de um ano, um artigo que pode bem ser um exemplo dela: Tomorrow never knows .
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Heineca & Safran Foer

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Amsterdão, agora.  Leitura à gargalhada. Um gajo faz figura de parvo em público mas paciência.

(Don’t try to read them at night while someone else is sleeping unless your relationship can survive frequent wakings by deranged laugther)

 

 

 

 

 

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Dúvidas e inutilidades

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Mato e silvas subindo árvores acima, caniçais em redor. Limpeza, viste-la; pouca pra lá da promulgada administrativamente por Lisboa. Passei a grade ainda naquela tarde, a atrasar a erva. Trabalhos inúteis, roupa rasgada, mãos encardidas, desperdício de óleo e gasolina, de tempo, de gasóleo. Honrar talvez a memória do meu pai, mas nem isso tem utilidade prática que é morto, de nada lhe serve.

Deveria escrever redondilhas à natureza, sonetos e aforismos à paisagem, ir a manifestações e colóquios de especialista convenientemente vestido, assinar manifestos. Burro, a missão espinhosa, continuará, previsivelmente, as próximas férias. Conseguirei, na melhor das hipóteses ser fonte de embaraço social para qualquer mulher. Desgostos. Olhando à volta, ouvindo e vendo a duplicidade e hipocrisia da natureza humana, a cada dia que passa melhor compreender e aceitar o conceito de morte como alívio. Libertação.

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the hot green was just hanging on by its teeth

 

“It was a hotel near the top of a hill, just enough tilt in that hill to help you run down to the liquor store, and coming back with the bottle, just enough climb to make the effort worthwhile. The hotel had once been painted a peacock green, lots of hot flare, but now after the rains, the peculiar Los Angeles rains that clean and fade everything, the hot green was just hanging on by its teeth—like the people who lived inside.”

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Charles Bukowski,  primeiro parágrafo de The way the dead love, in South of no North, Black Sparrow Press, 1973

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Câmara escura do país democrata

Se bem que alguns estejam tentados a comparar o Goucha a palhaço rico num circo de província, são-lhe ainda devidas duas justiças:

a) guarda-roupa de melhor qualidade e exuberância .

b) permitir a revelação do país indignado e democrata. Dir-se-ia outro (e não o mesmo) que ante líder chinês senta deita, rebola e dá a pata.

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Mytting & Petterson

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O outono norueguês trouxe uma mão cheia de boas surpresas entre os quais estes dois belíssimos exemplares. «Os sinos irmãos» (traduzido à letra «irmãs» dado o feminino de sino) de Lars Mytting e «Homens na minha situação» de Per Petterson. Se Petterson, dada a divulgação mundial que os seus livros alcançaram, já dispensa apresentações, Mytting é menos conhecido. E no entanto, parece-me a mim melhor romancista. Desde que lhe li o primeiro romance, Hestekrefter – que eu traduziria por «Cavalos-potência» –, pareceu-me um romancista de primeira água. Os seus romances, em relação às atmosferas mais intimistas de Petterson e à frequentes «correntes de consciência» que o podem tornar um pouco monótono, desenrolam-se a um ritmo muito mais fluente e deixam o leitor preso à trama desde as primeiras páginas.

Se me permitem o conselho, leiam o penúltimo romance dele que foi sucesso internacional. Há versão espanhola, francesa e inglesa na Wook. Aconselho a inglesa, se bem que não perceba bem porque mudaram tão radicalmente o título que em norueguês é «Nada com aqueles que se afogam» para «As dezasseis árvores de Somme» . A estrutura da língua é muito mais parecida com o inglês, e o preço, muito convidativo.

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Sociabilidade e má-consciência

Familiar directa convida-me para ir passar a noite de Natal com a família, que não a passe sozinho. Entre Cila e Cararíbdis, recuso, tento explicar.

Cada vez mais me custa conviver e ouvir gente que é, ou que considero, pouco mais que analfabeta. Que não lê, que conhece pouco mundo; pouca História e poucas histórias. Depois sinto-me duplamente mal; com má consciência de avaliar assim os outros. Roça a sobranceria, de alguma forma a injustiça e a crueldade. Na maior parte dos casos, nas suas vidas (dado o sítio onde nasceram e viveram), não tiveram nem a oportunidade nem o incentivo de aprender mais. Ou melhor.

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