As palavras e os mares

Jonhson queixou-se de ter navegado um mar de palavras para trazer a bom porto o dicionário. No meu caso, vou utilizando os alfarrabistas das cidades dos portos do norte para embarcar nesse mar de palavras. Numa cidade alemã o Outono anunciava-se, chuvoso. Comprei aqui, neste alfarrabista ao encontro do qual o par caminha, uma série de tesouros.

32 livros, a juntar-se aos outros numa confusão babélica e bibliófila de línguas que mobilam todos cantos dos aposentos marítimos. São neste caso as palavras que literalmente navegam (sobre, ou num) mar real. Seguem para norte uma edição das obras de Tennyson do final de novecentos, e um A Cartucha de Parma de Stendhal, mais recente (anos cinquenta) mas igualmente apelativa, a cor suave e o macio do couro na lombada.O inofensivo dos objectos e da palavra impressa é apenas aparente.Viajam para norte neste tempo outonal sobre as águas cinzentas agora, mas nem sempre foi o caso.

 

 

 

 

Há nas páginas testemunhos de ideias que fizeram outrora uma viagem mais trágica. As de Tenyson, obedecer sem duvidar no poema The Charge of the Light Brigade, e as de Stendahl que testemunham no romance a viragem de mentalidade no início do século, a adopção da ideia (ou da moda) de arriscar a vida pela pátria, na segunda página do primeiro capítulo do romance:

 

 

 

 

 

 

Na novela famosa novela de Bradbury diz-se que a morte é um assunto solitário; há aquele homem estranho que num eléctrico repete de forma absurda: death is a lonely business. E aparenta sê-lo à vista num momento posterior de um cadáver submerso dentro de uma jaula num dos canais de Venice. No caso do Blücher, foi um assunto colectivo, a morte morte, a real e não a romanceada, encontrada por centenas de soldados enlatados nos porões do navio afundado na madrugada de 9 de Maio de 1940.

Vindas da Alemanha, e entretanto já transformadas, as ideias expressas por Tenyson e Stendahl, tinham conquistado a mente dos soldados que pereceram naquela madrugada, ou dos seus mandantes, oitenta anos atrás.

 

Passam agora novamente, dentro destes magníficos objectos resgatados à poeira do alfarrabista alemão a um preço irrisório, numa manhã de Outono nevoenta, novamente ao lado de Oscarborg… flutuando acima do que resta do velho navio, a noventa metros no fundo do fjord.

Sobre soliplass

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