Conferência de piolhosos

Dias atrás Pedro Correia publicava no blog Delito de Opinião, este artigo:

Estamos a ser testemunhas de um dos momentos mais tristes da História: o do fim do estado de bem-estar, do estado social, do estado-providência que levantou a Europa das cinzas da guerra. Este período prolongou-se por 60 anos e teve os seus heróis: Alcide de Gasperi, Konrad Adenauer, Clement Attlee, Robert Schumann, Paul-Henri Spaak, Jean Monnet (europeus), Harry Truman e George Marshall (norte-americanos). Foi um período ímpar de crescimento económico e paz social, com largos anos de pleno emprego e um cortejo de conquistas em vários planos – da queda drástica da mortalidade infantil à virtual erradicação do analfabetismo. Foi uma revolução sem bombas nem mortos – uma revolução silenciosa que levou o progresso a centenas de milhões de pessoas no continente europeu e, por natural contágio, a outras partes do mundo.

Um longo caminho se percorreu dos heróis de então aos vilões actuais, coveiros do estado social que garantiam proteger. De uns e outros falará a História – a que se deixa seduzir pelos factos, não pela propaganda.”

A evocação do Estado-providência, ou Estado de bem-estar (Welfare State), evoca também toda uma série de direitos de que usufruem todos os cidadãos europeus – os direitos tradicionais das democracias liberais ou Estados de Direito. Os direitos à propriedade, segurança e vida, e acima de tudo um supremo direito sobre cuja importância falou Arendt no Origens do Totalitarismo: o direito a ter direitos.

Pensamos na Europa – que se levantou das cinzas da guerra, como bem escreve Pedro Correia – em termos de uma entidade ou agregação de comunidades políticas que nos têm assegurado todo esse manancial de direitos que concebemos normalmente como o direito à protecção contra a ingerência ou acção nociva dos nossos concidadãos ou do Estado nas nossas vidas, ou até, no caso da Segurança Social, contra as contingências e azares da vida. Raramente pensamos num outro direito que a paz europeia tem concedido aos cidadãos. Littel, aponta-o no primeiro capítulo do seu livro, As Benevolentes; no capítulo intitulado Toccata. Na edição inglesa do livro de Littell da Harper Collins aparece articulado, ou referido, desta forma:

Political philosophers have often pointed out that in war time, the citizen, the male citizen at least, looses one of his most basic rights, his right to live […] But these same philosophers have rarely noted that the citizen in question simultaneously loses another right, one just as basic and perhaps even more vital for his conception of himself as a civilized human being: the right not to kill.”

Talvez estejamos prestes, e num futuro próximo, a perder este último direito referido por Littell, juntamente com os outros. A experiência europeia da primeira parte do século XX, deveria estar na memória de todos, a fragilidade da Lei, do Direito e da Moral. A fragilidade da ordem legal que protege e ordena os direitos, bem poderia ser simbolizada pelo percurso intelectual de Carl Schmitt. E de tantos outros que tinham o Direito por formação e profissão.

Há no entanto um político europeu que não foi arrolado por Pedro Correia ao lado dos outros justamente citados. Trata-se de um antigo primeiro-ministro norueguês, um pedreiro de formação: Trygve Bratteli; um homem que lutou como poucos pelo ideal europeu, e que por ele, conheceu a derrota na sua carreira política: no referendo de 72 em que o povo norueguês recusou a adesão à CEE. Trygve, o pedreiro, foi preso na Noruega invadida por Hitler no início da década de 40 e enviado para os campos de concentração alemães. Tem um livro famoso que relata essa experiência o Fange i Natt og Tåke, «prisioneiro na noite e nevoeiro». Aqui, e desse livro, uma imagem da sua ficha aquando da prisão, com a foto da altura.

A dedicatória do livro é esta: «em honra da memória dos tantos que não retornaram a casa».

É um livro de linguagem simples, directa. E uma dedicatória informada pelo dever sentido de falar por todos aqueles a quem a voz foi roubada para sempre. Não é na essência, muito diferente da outra, posterior, a fala dos pereceram do outro lado do espectro das doutrinas políticas, a de Soljenitsine, a do Gulag, tal como aparece na edição portuguesa:

Trygve foi um europeísta convicto, uma convicção na qual a sua experiência extrema dos campos teve um papel central, talvez pela marca profunda que lhe deixou na memória, como na memória de tantos outros que a viveram. Em Janeiro de 72, no velho aeroporto de Fornebu, hoje desactivado, antes de apanhar o avião para Bruxelas foi atacado por manifestantes partidários da causa da não adesão defendendo-se com os sacos que levava nas mãos, rodopiando para manter os atacantes à distância. Estava convencido da justeza da sua causa, que viria a perder, em referendo, meses mais tarde. O episódio, para quem tiver a curiosidade, está relatado a p.p. 278-9 desta sua biografia, por Gidske Anderson.

É aí, nessa biografia, que é descrito também o que se passou no campo de concentração alemão; a série de “conferências” extraordinárias. Deixo a foto das páginas do relato (uma citação de um outro relato por Ottesen), coisa que não servirá de muito a quem não dominar o idioma, apenas a título de curiosidade.

A série de conferências extraordinárias a que me refiro ocorreram no inverno de 44, em Janeiro no campo de Vaihingen.  Trygve, esgotado pelo trabalho de transportar os cadáveres que lhe tinha sido atribuído, e a cuja brigada pertencia, recolhe à barraca dos doentes. Aqui um desenho reproduzido no seu livro Fange, da autoria de Odd Nansen de prisioneiros no campo de Sachsenhausen:

Dois outros prisioneiros preocupados com o estado de fraqueza e desânimo dos outros noruegueses dirigem-se a ele. Ele, pede um par de dias para organizar o «material». E é a partir daí que todos os dias depois das tigelas da sopa do jantar estarem lambidas (o termo renslikket, pode ler-se «limpas à lambidela») os outros prisioneiros ouviam a frase de abertura da conferência do dia: «hoje quero/irei falar acerca de …»

007

Esfomeado e magro sentava-se na cama enquanto os outros ouviam o programa futuro de uma sociedade, abarcando os temas da economia, comunicações, educação. À medida que falava, acontecia frequentemente um piolho ou outro mover-se sobre o cobertor em que se embrulhava. Trygve afastava-o com um piparote, ou esmagava-o, e continuava a falar, projectando os seus companheiros num projecto futuro, afastando-os do pensamento omnipresente (mais tarde Soljenitsine escreveria aquela emblemática frase «o Zek é um tubo», e Primo Levi falaria dos sonhos dos prisioneiros com comida) acerca de como enganar a fome.

Quando li o artigo de Pedro Correia pensei imediatamente nesta série de “conferências”, e na história pessoal deste homem que foi um dos mais notáveis políticos europeus; como a partir daquilo a que Arendt chamou holes of oblivion, se formaram as esperanças de uma Europa onde mais que o direito à vida, existisse o direito a não matar. Armados de jantes de liga leve e transgressão estética, de depósitos em off-shore, estamos convencidos hoje que sabemos mais e melhor que estes homens do passado. Oxalá que não tenhamos que reaprender a lição da forma que eles a aprenderam originalmente, e que não suspiremos um dia destes por conferências assim, pontuadas pelo som do estalar de piolhos.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

Uma resposta a Conferência de piolhosos

  1. Pingback: Hammerfest 1945 | Âncoras e Nefelibatas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s