Amigos

No voo transatlântico, passa-se nas nuvens sobre território nacional, como gato por brasas, sobre coisas destas, que mais não são do que a continuação de outras e de uma memória permanentemente em saldo como bem lembra o Jansenista. Relia o Corrupção e os Portugueses, de Luis de Sousa e João Triães, e os bons capítulos lá escritos também por Magone e por Carlos Jalali, meu saudoso mestre, e eu dele fraco aluno, ou orientador na saudosa SACSJP. Nesse artigo, Jalali discorre sobre os dados do inquérito onde se verifica que são os militantes (ao contrários do geralmente tido como certo pelo vulgo) do PS e do PSD que mais se mostram preocupados com a corrupção em Portugal. Aterrado em Frankfurt e seguindo para o mítico norte, achei-me em Oslo à mesa de amigos, em frente do esboço de Per Krohg, pendurado por perto, um dos esboços do cavalo e do homem deste painel do Conselho de Segurança da ONU. Aliviado por não botar os calcanhos em território luso.

De todos os posts que se têm escrito na blogosfera fica-me uma espécie de gratidão  por uma série deles que se escreveram no blog arroundbooks sobre o livreiro que me franqueia a casa e a amizade, e a mesa, há anos em Oslo. Desse alfarrabista, deveria ter escrito já, se soubesse como. Foi durante anos mais que um alfarrabista, foi um sítio milagroso. Devo ter entrado lá, naquele labirinto presidido por um filósofo, Eivind Storheim, (1930-2002) um labirinto de vinte e tal mil volumes, há 18 anos atrás. O velho filósofo, sempre com a surrada camisola de lã grossa, adoptou o marinheiro que subia do porto até Maiorstuavein. Avaliava os títulos, e a guerra com a caixa registadora começou. The gentleman form portugal, escolhia livros que o velho desconhecido aprovava, e despojo literário colhido vinha por preço irrisório. De adoptado, fui trespassado como cliente ao sócio, que depois de todos estes anos me acolhe para uma refeição de quatro pratos, regados com três vinhos e um milagroso licor alemão de ervas, que a Erika descobre nas suas incursões teutónicas. Ela, um milagre também. Foi carregada no ventre da mãe, em plena segunda guerra mundial desde território ucraniano onde a família de camponeses alemães se tinha fixado, por centenas e centenas de quilómetros, a pé, por caminhos de fome medo que já mal podemos imaginar, até à Áustria. Mas nem aí as crianças teriam tido possibilidade de subsistir. Ouço-a contar mais uma vez o périplo da sua vida, que acabou por se passar ao lado do homem que um dia me adoptou, a mim, o cliente de alfarrabista que subia a pé do porto.

O velho livreiro sabe que eu sou um leitor de Pierre Loti, outro marinheiro. Esperava por mim no hotel, e trazia, imagine-se três primeiras edições, da Calman-Levy, Le Roman d’un Saphi, Les Désenchantées, Le Livre de la Pitié et de la Mort, este o exemplar 606 de uma tiragem especial… sur papier vélin du Marais. Isto, e como de costume, sem que aceite que eu lhe fale em dinheiro.

Anos atrás, soltou-se por aí, com grande estremecimento e amatória lauda, uma indústria de talentos a raiar o indescritível, a não ser que Quevedos houvera que descrevessem tanto buscão e seus rocins. Por mim, confesso arredio de talento de qualquer ordem, e de profissão vaga e carregada de modéstias e inutilidades, essa execrável ocupação a que soi chamar-se trabalho braçal, não trocaria todos os talentos de todos os lusos talentosos que andam a desbravar o mundo empunhando apenas a flute champanhística, em figuras tristes de maior estrondo e prumo que o antigo Padrão da Guiné, por ter tido a honra de gente desta por amiga.

Sobre soliplass

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