Aclaração de desinteresses

– Benfica! Benfica!

e o galgo amarelado e corpulento – mistura de raças em que a galgalhice predominou – voltou a cabeça e olhou-nos. Antes que tivesse o dianho ensejo a esfregar as dioptrias, disparou a galope desde o portão de cima do quintal, sobre uma rajada de coriscos no asfalto, que as unhas deixavam sonantes por rastro. Faltavam-lhe cem metros para a brincadeira ou os afagos que adivinhava, os dois garotos – eu e ele –, fugiam já pela estrada de macadame esperando que o cão os seguisse. A catástrofe adivinhava-se. O fiel bruto não conseguiria nunca àquela velocidade fazer a curva e entrar na outra estrada por onde corríamos. Vi-o estampar-se na parede em frente, derrapando ao tentar fazer a curva. Bateu com estrondo de carne em pedra, caiu de lado na valeta, quase como uma tábua ou um desenho animado. O pequeno dono, meu camarada de tropelias, correu para o (seu) cão, e estendeu-lhe ali, aflito e de joelhos na poeira, todos os truques de enfermaria que cinco ou seis anos de vida e alguma observação do pai – veterinário desgalenado e empírico de província – lhe permitiam. É a primeira memória que guardo dele. De joelhos na poeira da valeta, tentando reanimar o galgo estendido que emitia um ronco ténue de cada vez que conseguia respirar, seguido de uma expiração que levantava um sopro de poeira do chão. Admirava que tamanho estalo na parede não lhe tivesse rilhado o cavername.

A veterinária, ou esse cuidado, sempre o atrairia. Terminada a zootecnia na UTAD, estampou-se ele numa das paredes e tectos de vidro do Portugal de sucesso & modernização, competências & paralelas contiguidades e adjacências, de parceria com as demais miudezas que os prostíbulos da praça alçam a etéreas e aristotélicas virtudes. Concorria a um concurso num perfumado e suave alcouce correlacionado com ministérios e agriculturas, ia de fato e gravata. Havia greve geral nesse dia, e, previdente e racional como sempre o conheci, nas Torres de Lisboa, viu que não chegaria nunca ao outro lado da cidade a horas. Filou a bicicleta do porta bagagens do peugeout utilitário e pedalou enérgico Lisboa abaixo, para chegar ao segundo andar do concurso transpirado e de pasteleira ao ombro, ante o olhar reprovativo e vestibulante da secretária-colosso, uma dessas que Kafka não teria desdenhado para guardiã das Portas da Lei. Soube logo ali, como se saber fosse preciso num país de concursos albardados à medida, país que se entregaria anos depois a preclara e acendida discussão sobre a propriedade de t-shirts usadas por juízes ao intervalo do almoço (elegância a quanto obrigas), que não seria escolhido. Embate na transparente e muy ramalhada coisa pública.

O embate na grandiosa e empreendedora coisa iniciativa privada, deu-lhe o primeiro emprego de engenheiro, numa fábrica. Teve duas missões: a missão profissional propriamente dita; e a missão de em segredo e dissimuladamente fazer o inventário das existências.  O insigne e inaudito borra-botas gestor e sócio à frente da empresa, aprendiz de cavaquismos e sucessos, tinha já no curriculum vitae o passar da perna ao sócio – familiar do meu amigo de sempre – e empresário à moda antiga para quem a honradez não era passível de equações. A esse homem já idoso, o moderno gestor, passou não apenas a perna, mas também de forma indirecta a nolha de correr e a corda que empresário por antiquado usou para se pendurar quando deu pelo desfalque de quarenta mil contos, quantia não irrisória nos idos de oitenta. A família, rogou-lhe então que fizesse aquele trabalho, pelo menos por algum tempo.

Durante algum tempo também, escrevi num blog fechado a meia dúzia de amigos, entre os quais este de que falo, o mais estimado deles. O blog, o friluftogvind, inspirado num título do livro velho de Nansen, o exlorador polar, uma apologia da vida ao ar livre, o Friluftliv, foi fechado para que não entrasse nele, fosse em apologética, fosse em contenda ou polémica, alguma da blogosfera rectangular que de ordinário (com uma vénia e o pedido de desculpas desde já às honrosas excepções) me parece uma descolhoada e inviril ordinarice assistida por corrector ortográfico e a que a regorgitação normativa de ciência intestinal informa. Num e-mail recente, que li em terras do Brasil, conta-me que o leu em inversão de marcha, o tal blog, em toda a extensão, coisa em que foi pródigo. Padecia o pobre blog, emperro de forma e substância a que decerto este não escapará, de prosa que mais que extensa, estendida; no desastroso sentido a coisa. E ali se discorria principalmente e mal, sobre literatura nórdica, e quejandos… Nada que interesse ao comum dos cristãos. Não sei avaliar se a honra foi merecida ou imerecida, se bem que me incline por esta. Sei que foi a maior das honras.

O meu amigo de sempre, ensina hoje. Um blog de um trabalhador braçal, dedicado a um professor, que, mais que equações num quadro interactivo, professa essencialmente a honradez por exemplos e prédicas, raia a ignomínia e o impudor. De qualquer forma, o blog é-lhe dedicado e a todos aqueles tantos que Portugal desonra a cada dia e desmerece. Dizia outrora um familiar que já lá está, cioso da taxinomia, que a parte masculina da humanidade se dividia entre homens, homlinhas e homletetes. Aos últimos dois terços da divisão este blog não traz coisa que lhes sirva, e agradece se não for citado, ou sequer lido. Ao amigo de sempre, em forma de apologia; e de aviso em forma aos outros supracitados e indesejados por leitores dois terços, que eventualmente e de forma acidental trilhem este caminho de prosa descuidada (melhor não temos por pena nossa); e porque citar fica bem a um braçal laborante e marinheiro do mais modesto naipe; e porque demonstrar erudição de cepa velha é preciso tanto quanto navegar, deixo este trecho de Amiel do seu diário, de 26 de Outubro de 1870:

É também um bom resumo de uma simples (e sã, estamos em crer) filosofia que, assim o espero, informe coisas futuras e evocações do passado.

Sobre soliplass

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