Coisas da tarde ontem, Charles Lamb, os pardais e outros bichos

Tenho a estranha mania (cada doido tem a sua) de gostar de dar topografia aos livros. Um livro qualquer tem que ter sido encontrado num sítio determinado. Faz parte de uma espécie de “processo de adopção”. Pode ser que o apanhe abandonado num hotel, um daqueles paperbacks que já ninguém quer, que está ali a pedir leitor que o abrigue, e o junte a boa companhia. Quanto a mim, isso faz parte daquilo a que Alberto Manguel no seu The Library at Nigth, na segunda página do nono capítulo (The Library as Mind) chama «the intimate history of each’s book survival», frase que estimo, bem como o resto da sua digressão sobre a biblioteca de Aby Warburg. Lembro-me de todos, onde foram comprados, e mais ou menos em que parte física do estabelecimento, em que parte de uma banca de rua à beira do Sena, ou no chão da feira da ladra, em cima do plástico ou do pano estendido no passeio. Essa é uma parte fundamental da sua história, que não desaparece mesmo que fiquem na estante anos e anos sem serem mexidos. É por isso que apenas encomendei um por correio. Livro, é, como diriam os brasileiros, para ser garimpado. Nada melhor…

Lembro-me de ter entrado um dia qualquer numa livraria em Lisboa, a Bucholz, ou que raio tinha a espelunca por nome, e ser maltratado com um olhar. É verdade que trazia uns botins de couro ensebado, e um pouco de suor de um cavalo na parte interna das calças. E estava queimado pelo sol e a camisa era um pouco desbotada. A funcionáriacoisa olhou-me com desdém quando lhe perguntei se tinha O Riso e a Noite de Nuno Bragança, que, afinal, e passados tantos anos, ainda não li. Foi a partir daí um sítio indigno de livros serem encontrados. A alma desse cavalo árabe esbranquiçado valia cem das dela. Devo ter ficado incandescente, porque a coisa bípede não emitiu mais um som, nem se mexeu, e tenho ideia que ficou aterrorizada. As veias de rapaz do campo, devem de repente ter-lhe parecido do tamanho de gasodutos, tal o inchamento. Fosse homem, e tinha-lhe largado uma punhada do alto que o rachava em cavacas miúdas. Saí dali e meti-me no carro, cento e cinquenta quilómetros sem parar, maldizendo Lisboa e a portuguesinha malcriadice, que de qualquer merda que façam, o fazem como se guardiães de porta da antecâmara do rei.

Entrei hoje no alfarrabista de Frogner, em Oslo. A senhora, Karin Magnussen, que me recebe sempre com um sorriso, nem o meu nome sabe. www.frognerantikvariat.no , visitem, visitem.  Faz sugestões, pergunta se algo me interessa. Afinal compro lá muito, vai sabendo mais ou menos o tipo de coisa que procuro. Mostrou-me uma edição maravilhosamente ilustrada de um dos meus contos preferidos. Falo-lhe da primeira frase, que descreve o sítio onde vai chegar a refugiada francesa, no conto A Festa de Babette. Da impossibilidade daquele cenário ser em Berlevaag, aquele fjord longo e estreito entre altas montanhas. Nada disso existe em Berlevaag real, lá em cima no Norte Ártico. Chamo-lhe a atenção para o som, que parece ser a única justificação para o nome escolhido da pequena cidade onde a acção virá a decorrer. É uma musicalidade maravilhosa, uma forma de métrica, similar à que se encontra (quando se lê em norueguês que é bastante parecido com o dinamarquês original) na sua descrição de como tudo à sua volta falava, e lhe contava, o que realmente era, quando a narradora ouvia o automóvel de Denys que se aproximava e ouvia simultaneamente tudo à sua volta «…paa same tid alle ting paa farmen snakke, og sige, hvad det virkelig var…» na Fazenda Africana. Uma musicalidade que consegue com um jogo de aliterações sucessivas, uma métrica similar á métrica da poesia édica. Vamos discorrendo e o tempo passa… a senhora já de uma idade, digamos, respeitável, (uso aqui de alguma precaução por me lembrar de uma ensaboadela que um estorvo do meu partido – um certo Candal – levou no parlamento por se referir à idade de Manuela Ferreira Leite) tira e põe os óculos que mostram os olhos azuis, e sorri.

Encontro lá coisas que ela já se tinha esquecido que tinha. E hoje, no rol vinha uma maravilha encadernada a couro, leve, The Essays of Elia,  first series (1823) Vim sentar-me com um café no banco do Kaffebreneriet, folheando o livro. Os pardais pulam, pedincham migalhas, levanto-me e vou lá dentro e peço um pedaço de pão velho, ou que me vendam um croissant. A rapariga olha interrogativa. Os pardais lá fora –, explico. Vende-me um desses croissants! O olhar da rapariga norueguesa de cabelo curto e castanho Ilumina-se e sorri. Pega num croissant, parte-o ao meio, dá-me metade, não aceita dinheiro e diz que a outra é para ela. 

E naquele gesto vejo uma nação. O petróleo, do mar do norte não vale os colhões de um burro velho! Quem vir as actas da primeira constituição, a de 1814, a Constituição de Eidsvoll, há-de encontrar lá a fala de um camponês das montanhas que afirma que no parlamento falam homens, não terras. Tentava evitar que o direito de ser eleito, e de eleger, baseado no critério censitário, tão comum no séc. XIX. O filho da puta daquele sorriso e o gesto rápido, sem dúvidas, sem entraves, explica porque são ricos os noruegueses. E porque aceitam com naturalidade de cúmplices o gesto aparentemente excêntrico. É que lá fora, há frio, e pardais: simples, como a fome, que dá por igual a homens e bichos.

A rapariga não sabe quem sou. Nem porque vou pedir aquilo: ou seja, o motivo mais forte para ter ido com aquele pedido. É o primeiro original de Charles Lamb que tenho nas mãos. Lembro-me apenas de um ensaio sobre as suas cartas a referência ao seu estilo que qualificavam de um misto de Johnson e Russeau. Dei com o ensaio, deliciado. Só depois notei os pardais, neste dia de sol tímido com temperaturas negativas e vento siberiano (Karin disse a palavra «Sibyr») e a quase analogia dos pardais com os pedintes e com um cão de cego já morto, a que um latinista dá voz, neste trecho maravilhoso, e depois num poema que não o é menos, o cão que já sepultado ainda pensa nos trabalhos do dono agora sem ele, e de receber umas migalhas, common portion of his feast of scraps:

Lamb traduz do latim para inglês um dos poemas de um latinista, o Epitáfio do Cão; em memória do latinista:

“Well fare the soul of unfastidious Vincent Bourne, most classical, and, at the same time, most English, of the Latinists! – who has treated of this human and quadrupedal alliance, this dog and man friendship, in the sweetest of his poems, the Epitaphium Canem, or Dog’s Epitaph. Reader, peruse it; and say, if customary sights, which could call up such gentle poetry as this, were of a nature to do more harm or good to the moral sense of the passengers through the daily thoroughfares of a vast and busy metropolis.”

Este é o trecho do poema traduzido por Lamb,

….que me fez ir p’lo croissant para os bichos engougados de frio. Felizmente, a rapariga percebeu em duas palavras, e ficou a refeição dos pequenos pedintes de graça. Quanto ao preço do livro; é uma vergonha, junto com o dos outros que trouxe. Claro que eu não me envergonho. Eles são ricos, por isso dão. Só me envergonho de vir de um país onde quase ninguém percebe que a relação causal da última frase é ao contrário.

Sobre soliplass

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