Sinais interiores de riqueza

Sinais interiores de riqueza

Lembro-me, anos atrás, de uma conversa com um sociólogo de velha cepa no ICS. Numa das reuniões periódicas – foi meu tutor nesse ano – de  lhe ter ouvido um desabafo que à medida que o tempo passa me parece cada vez mais acertado como diagnóstico. Falávamos dos índices de desenvolvimento económico português, de diferenças entre o centro e a periferia, e o bom homem desabafou em forma de hipótese, um comentário desgostoso: “se calhar o nosso problema não é exactamente termos índices de desenvolvimento muito baixos quando comparados com os outros países com quem gostamos de nos comparar. Se calhar é o inverso, Portugal goza de um nível de desenvolvimento muito elevado para o nível cultural, ou de literacia, que temos“. Se não exactamente assim palavra por palavra, o espírito do comentário foi similar. Passaram-se quatro ou cinco anos, e lembro-me frequentemente desse desabafo ou comentário informal.
Quarta-feira, 10 de Fevereiro, passado o controlo de bagagens do Aeroporto da Portela em Lisboa, por volta das oito da manhã, este era o aspecto da única livraria no interior da zona de embarque do aeroporto. Como quem frequenta a coisa bem sabe, ali encontramos um pouco mais de quinze títulos diferentes, e maus no geral , e mais os bestas-céleres (best-seler, em inglês técnico) do costume. Sim, entre eles, os títulos, as 100 receitas culinárias dos famosos nacionais, que conta também com uma de Ruth Marlene e outra de Roberto Leal. Interessante, to say the least
Do outro lado da Europa, este era o aspecto da livraria do aeroporto de Oslo-Gardemoen a 28 de Janeiro, por volta das seis da tarde (a cidade é servida também por mais dois de onde partem no geral os voos «low-cost», Rygge e Sandefjord) após a passagem dos controlos de bagagem. Centenas de títulos expostos, e existe ainda outra – mais pequena, de facto – na zona das partidas internacionais. Comparadas as populações das duas cidades, Lisboa e Oslo, ou comparado o volume de tráfego dos aeroportos se quisermos ser mais precisos, ficamos com uma boa imagem das mentalidades quer do lado de ambas as procuras, quer de ambas as ofertas.
Ou, trazido que foi o assunto a terreiro, a reduzida oferta de livros aos passageiros portugueses e aos que nos visitam (ou passam por Lisboa em trânsito) só me envergonha a mim? Ninguém dos nossos excelsos representantes, governantes, incumbentes, luminárias intelectuais e doutores da mula ruça, estrelas do estrelato, sopranos e contraltos mediáticos se sente incomodado com a imagem VERGONHOSA que damos de nós enquanto país? As jantes de liga leve nos bólides servem perfeitamente como imagem? Talvez a extensão em palha do caso Casa Pia? O penteado constitucional de Vital Moreira?

 

Sobre soliplass

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