Vold, Hofmo e Maier

Descobri à força de cabeçadas (leva tempo mas chega-se lá um dia) a fixar páginas de livros. Quem se entregou à tarefa de tirar de cada livro uma frase ou duas, uma referência que muitas vezes é apenas um número de página, conhece o problema. Os livros teimam em fechar-se e perdemos quase sempre a página. Abri-los, descobrir e fixar de novo a página certa é uma trabalheira. Entretanto perdemos parte da concentração, o fio à meada do que íamos escrevendo. As fotocópias são mais pacíficas mas perde-se uma eternidade a dançar à volta de fotocopiadoras, dança que na maior parte dos casos se paga, e a ordenar tudo aquilo depois. A fotografia resolve tudo isso, cada uma comporta duas páginas. E as páginas fotografadas, que ficam completamente imóveis numa janela ao lado da do texto no computador, são um mimo. Dá até para ver o tipo de papel. Só lhe falta o cheiro que Bradbury disse o mais aromático dos pólenes. No meu caso, fotografo tudo. Jornais, revistas, livros. Este acima, um dos artigos de jornal que guardo, uma reportagem sobre Jan Erik Vold.

Numa típica afirmação de modéstia tão ao jeito nórdico, Jan Erik Vold declara neste misto de reportagem e entrevista ao Dagbladet que foi num pequeno anúncio afixado no eléctrico que descobriu que era poeta. Ou que o classificavam assim. O anúncio afixado, no Outono de 65, divulgava num dos eléctricos de Oslo que ele próprio poeta, lerá poemas no clube 7.

Talvez tenha sido por isso, uma cidade que lhe faz saber que é poeta, que tem metido o bedelho em quase tudo o que toca à preservação dessa mesma cidade, e também para que os eléctricos mantenham a cor azul. Ou que tenha publicado o Poemas do Eléctrico. Ou que se queixe que as pessoas gostem mais dele e lhe acenem nas ruas, que o leiam. Não conheço toda a sua obra. Ler o que publicou sob 180 títulos, repartidos entre livros e artigos, (informa o jornal) muitos deles sobre temas sociais, não é empreitada leve.

Há um pequeno episódio, o convite inesperado (ou honra inesperada) que dá origem a dois livros comoventes. Pela morte da poetisa Hofmo – que   Jan Erik Vold nunca encontrou em vida –  ficou a saber pela família desta que ela gostava dele, e que seria do gosto dos familiares que lesse uns poemas na cerimónia fúnebre. Telefonavam a pedir isso. «Que honra!», teria exclamado.

Desse pequeno episódio nasceram o Cantora da Escuridão, a biografia de Gunvor Hofmo, em cuja capa de cor escura se pode ver a sua imagem junto da mulher a quem dedicou uma obra poética. Hofmo de lá, Ruth Maier mais próxima, numa foto que deve datar do início dos anos quarenta, tirada num cais ou ponte de Oslo e mais recentemente, também os Diários de Ruth Maier, traduzidos entretanto em inglês, francês e espanhol.

Fez emergir assim do esquecimento essa grandiosa história de amizade ou amor (como definir o limite entre uma coisa e outra?) entre duas mulheres, uma que desapareceu em fumo e cinza em Auschwitz e a outra que nunca a esqueceu e lhe dedicou uma obra poética, onde não é nomeada, mas onde a sua ausência é o tema; a dor e a luta contra o esquecimento, o exorcismo do fogo onde quase toda a imagem de brilho ou luz utiliza como símbolos objectos frios – i.e., estrelas, lua, janelas distantes iluminadas na noite, etc. Em baixo a foto (reproduzida na biografia de Hofmo) do navio que transportou Ruth Maier rumo a esses «holes of oblivion», como lhes chamou Arendt.

Dois livros de capa negra ornam agora as montras das livrarias, e tornam-se numa das coisas mais belas da cidade, numa história exemplar de amor e fidelidade. Devo-lhe, a este homem irrequieto, saber os pormenores daquela história que inspirou a obra poética de Hofmo.

De alguma forma é comovente o poder deste homem frágil de 70 anos que as pessoas gostam mais do que lêem, ao que conta. Ruth Maier, que o vulto negro do Danúbio leva embarcada rumo a Auschwitz e se afasta do cais de Oslo, foi resgatada a algo de poderoso, à noite e ao nevoeiro, do correr de ódio em alcateias e da loucura. E vive agora, na memória escrita, evocada por uma imagem de capa nas montras das livrarias, sentada junto a uma parede, escrevendo. Vive na memória dos que lerem estes dois livros, ou na poesia que Hofmo lhe dedicou e que quase tinha caído em “desuso”.

 Bem merecia uma homenagem desta terra cujo grande público quase a abandonou por tanto tempo. O tempo, que a esqueceu até que a biografia de Hofmo e a compilação dos diários de Maier fossem dados à estampa por Jan Erik Vold, permitiu-me ir encontrando nos alfarrabistas de Oslo algumas das primeiras edições dos livros de Hofmo, que repousam agora numa estante portuguesa e que terei um dia de entregar junto com algumas outras preciosidades do género, a uma instituição que os valorize. Depois disso mal se encontram, a não ser a preços quase proibitivos. É bom sinal… sinal de que são procurados. ao lado, a capa de um exemplar da primeira edição de De uma Outra Realidade. “Fra” equivale ao inglês “from”.

 Nos diários, Ruth Maier acolhida como refugiada pelo chefe dos correios de uma pequena cidade e pela família deste, escreve repetidamente que esta gente é gentil. Impressiona-a a forma como são gentis, «snill». Era-lhe devida alguma forma de homenagem em retribuição.

Diz Vold, optimista, que enquanto se está vivo a morte é uma ficção. Ter reanimado estas duas mulheres fantásticas e a história das suas vidas, trazê-las de volta ao convívio com a cidade que as viu setenta anos atrás porque foi convidado a dizer uns poemas na cerimónia fúnebre daquela que seria a sua heroína (e que nunca encontrou em vida) parece, em si mesmo, algo de fictício. Uma daquelas ficções que nos tornam optimistas. É claro que, de um maduro que soube que era poeta porque lhe afixaram o título num eléctrico azul, há que esperar o melhor. Esta era Ruth Maier, esta é a foto da capa dos seus diários na edição norueguesa.

Não conhecia, ou não me lembro de ter visto, na antologia dos seus livros, na sua poesia reunída, estes versos de Hofmo que aparecem na página da Wikipédia:

“The words, shiningly silent
I shall find
give them to you, hammer some moments together
under the frame of eternity
so you will never forget me”

Mas eles descrevem bem todo o percurso de vida, a obra e a dedicação. Não conheço traduções da sua poesia para outras línguas. Não as havendo, é pena. É o melhor exemplo que conheço de fidelidade, e talvez pelo destino trágico de Ruth Maier, a fidelidade mais merecida.

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