Viajando para sul, lendo a história do norte

 

Aproximação ao Rio, esta madrugada.

Cinco e pouco e o trânsito é já intenso, um caudal de luzes movimenta-se do subúrbio para o cerne da cidade.

 

Noite de leitura como de costume quando se atravessa o grande rio atlântico por balsa aérea. Guardei uma coisa especial para essa feliz invenção que é uma poltrona com avião a toda a volta, onde nos trazem as refeições e café. Infelizmente proibiram os cigarros… rai’s parta a vida e quem lá ande…

Tive a sorte de encontrar no norte este livro de Gunnar Sønsteby um dos mais famosos resistentes às forças invasoras alemãs na Noruega. Neste Rapport (relatório) Gunnar conta as tropelias feitas naquele tempo. Este, é por obra da sorte e dos bons serviços do distinto alfarrabista Per Bangsmoen (a quem nestas coisas tanto devo) a primeiríssima edição, a de 1960. Tinham passado 15 anos, quando o famoso resistente se dispôs finalmente a contar a sua versão dos factos. É um fascinante livro de “aventuras” de um homem que fez prova de uma coragem extrema, ao mesmo tempo que muitas das suas acções foram quase rábulas humorísticas. A sua actividade de resistência, quase que começa de forma simbólica no primeiro dia da invasão. Como conta na p. 13 deste livro (cuja versão inglesa pode ser encomendada aqui) ao soar o alarme de ataque aéreo em Oslo, quando todos se dirigem (por instruções da rádio) às caves ele pensa… «quero tomar o pequeno-almoço em paz e sossego» … e não foi. Falsificador exímio, mestre do disfarce, protestava com os soldados alemães que o mandavam parar para controle de documentos, que não o deixavam (estava disfarçado de polícia) fazer o seu trabalho, e que assim era impossível.

Fez um dos dois (sucedidos) assaltos em toda a história nacional ao banco central. Não tocou em dinheiro. Roubou as chapas de impressão. E foi, com outros membros da resistência reproduzi-las a Estocolmo. Em menos de nada as originais estavam de volta ao banco. Depois desse golpe já podiam fazer dinheiro.

Viajando de carro, por estradas geladas, acabaram numa valeta qualquer, o carro despistado e afundado na neve, e as ditas chapas matrizes no porta-bagagens, dentro de um saco de carvão. Felizmente apareceu uma patrulha alemã, um camião carregado de rapazes voluntariosos. Pararam por pedido seu, para ajudarem a tirar o carro da berma, felizes. Tenho um outro livro mais recente, que é um misto de entrevista e de biografia. Vem autografado, pelo seu punho, numa letra hesitante, de um homem já idoso. Foi também um feliz acaso ter encontrado aquela edição autografada. Duas páginas, uma com reproduções de documentos falsificados por si, na outra, dois resistentes (ele à esquerda) disfarçados de agentes da polícia.

O Rio de Janeiro luminoso lá em baixo,  esta manhã ao levantar na continuação da viagem para sul, lendo a história deste homem, e tendo visto numa rápida consulta as peripécias nacionais acerca disto. Relembrando esse tempo, Gunnar diria: «Se queres liderar, tens que inspirar uma confiança absoluta aos teus homens». Diria também: «Pegas num chocolate, divide-lo em partes iguais e ficas sempre com a parte menor».

Piere Clastres no seu La société contre l’État observou como nas tribos índias sul-americanas os chefes em tempo de paz não detinham o poder de facto para os negócios correntes da tribo. Essa bricollage de miudezas, intrigas e quem-é-quem,  era deixada aos feiticeiros e os chefes só assumiam um poder incontestável em tempo de guerra. Em tempo de paz a sua função principal era contar histórias à fogueira. A gente olha a tal história dos dividendos e só vê por ali feiticeirozecos insignificantes armados em líderes que se ameaçam demitir e que, ao menor sinal de perigo real, meterão o rabo entre pernas e irão esconder-se debaixo dos amuletos, como que em noite de trovoada. Mas nem tudo é mau. Sermos liderados por gente venal e fraca é sinal que não vivemos tempos suficientemente interessantes. Essa é, segundo os chineses, a pior das maldições.

Sobre soliplass

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