Fruta da época, que de enojamento é temporã

[2010_0127distribuir0050.JPG]Estamos a chegar ao fim do ano. E o ano começou jornalísticamente mal, com o momento hebdomadário de nojo nacional, na incorrigível “peregrinatio ad locca infecta” a que me vou obrigando.  Ente outras coisas o muy cristianíssimo João César das neves escrevia a 11 de Janeiro revoltado com as migalhas decretadas pelo Governo:

….Dado que ao mesmo tempo se verifica uma deflação, com descida de preços que só por si aumenta o valor dos rendimentos, o mais elementar bom- -senso recomenda moderação salarial para proteger os postos de trabalho que se mantêm. Em vez disso, o Governo decidiu a medida bombástica de aumentar o salário mínimo para 475 euros. Como vem na sequência de subidas anteriores, o nível é hoje 27% superior ao de 2005, mais de 17% em termos reais. É inacreditável que pessoas responsáveis apresentem essa medida como um esforço governamental de justiça social. …

….A subida do salário mínimo constitui o maior atentado das últimas décadas às classes desfavorecidas. Quando dizemos que o Governo é irresponsável, é isto que queremos dizer. ….

Por esses dias, no outro lado da Europa, havia uns versos que o Dagbaldet publicava sem a autorização do autor (Einar Økland) a propósito do seu aniversário. E esses versos têm tudo a ver (ao contrário) com o que se escrevia nos antípodas europeus pelo dedo do cristianíssimo autor das crónicas semanais, que jura a pés juntos que não há almoços grátis; talvez para que melhor lhos paguem. Ao lado, em baixo, o artigo de Dag Solstad em que este conta que nos finais de 60 tendo os dois (ele o aniversariante) terminado os respectivos romances os trocaram para ler… Dag, vem agora contar que leu o romance do outro ainda preocupado com a qualidade do seu, mas que a leitura do romance alheio lhe tirou todas as preocupações a respeito da qualidade do que tinha escrito; o  livro do outro era tão bom que deixou de se preocupar com a qualidade daquele que tinha escrito passou a ser quase irrelevante.

Tentaria aqui a tradução do poema que o jornal publicou, com a consciência ou o aviso que a expressão italiana “Traduttore, traditore” expressa de forma económica. Os versos de Einar Oklands mereciam melhor sorte que uma tradução atabalhoada. A forma que um poeta dá aos seus versos, é algo a respeitar, e não tenho a certeza que a possa traduzir fielmente. A essa forma,  Gautiér  deixou em 1845 a melhor das homenagens:

Le marbe et les vers sont deux matières égalment dures a travailler, mais les seuls que gardent éternellement la forme que l’on confie.”

Espero não alterar aqui demasia da forma que Einar lhes confiou no poema Likt for alle (na foto ao lado); esta língua nacional são duas, e o nynorsk aquela que menos domino, se é que domínio tenho de alguma, mesmo da materna. De qualquer maneira, acho que a ideia que os versos transmitem vai traduzida com relativa fidelidade:

IGUALDADE PARA TODOS.

Com o direito que a lei oferece.
Com os especialistas que a escola oferece.
Com a lógica que a linguagem oferece.
Com o poder que o dinheiro oferece.

Podemos:

Mudar a vista.
Molestar a paz.
Mover as pessoas.
Mortificar os animais.
Modificar a economia.

Para que eu possa:

Distorcer a lei.
Encerrar as escolas.
Depravar a linguagem.
Tomar o dinheiro.

Resta o consolo de que muito dificilmente o abdominal homem das Neves, por mais César que se arrogue, conseguirá despenhar a lua do firmamento e as rodopiantes estrelas pintadas dos céus da Arles de Van Gogh. Ou até aqueles versos de Borges que contam que em determinadas florestas corre alto um lobo, cuja estranha sorte, é derrubar a lua e dar-lhe morte….

Sobre soliplass

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2 respostas a Fruta da época, que de enojamento é temporã

  1. nina luz diz:

    uau! É que é mesmo, voltou cheio de garra e pérolas! 😉

  2. soliplass diz:

    Já nem me lembrava de ter traduzido isto. É um poema certeiro, não é?

    Sempre grato pela visita, um abraço.

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