Para ti, funcionária pública a quem quase (tudo?) devo

É normal que nós os homens tenhamos aquela mulher misteriosa…, pode ser aquela que entra por uma porta giratória de um café e que causa uma onda de choque imaterial na freguesia-audiência como navio deitado à água depois do baptismo; pode ser outra vista num comboio; ao virar da esquina; ou vista numa foto ou num ecrã. No meu caso, é uma mulher misteriosa de quem lembro, a contra-luz, um braço. É um pouco como o caso aquele médico da história de Rushdie que via os corpos só por partes. Se a história de Rushdie ficou relacionada com a meia-noite, a minha, e desse braço, a única parte que recordo dela ficou relacionada com o meio-dia. Era funcionária pública a mulher pegada a esse braço.

E é claro, falando de gente bonita, existe também o homem protótipo. A esse recordo a cara. Era uma cara risonha. Um gajo às direitas. Bonito, uns anos mais velho que eu. Com o sorriso bonito. Recebeu-me na maca dentro do helicóptero, ria-se daquilo tudo, com o capacete e o microfone postos, e com um glossário que faria inveja a um papagaio de marujo disse meia-dúzia de caralhadas e aguenta-te aí camarada que a gente já cá está, vais ao carpinteiro e ficas novo. Esperei três horas por ele. Ao sol, a coluna fracturada (despenhamento de trinta e seis metros e o estalo em cima de pedra não é brincadeira) e de cada vez que tentava sentir as pernas ou o corpo, que era mais pedaços desconexos de dores que algo palpável, vinha mais sangue nas mãos, seco ou fresco. Dentro do fato à prova de vento, junto à pele, era mais fresco. Ria-se para mim, o alarve, e nunca me tirou a mão do ombro. Aquela mão de hoplita. Quando o helicóptero pousou na pequena praça em frente do primeiro hospital senti-lhe a tensão, a preocupação. O passar de cada lâmina da hélice e as explosões do motor davam grandes punhadas no ar, metiam-se nos ouvidos som e pressão. Não sei quanto tempo demorou a viagem, nem me lembro se fui consciente o tempo todo. Lembro que não queria sair do conforto daquela mão no ombro. A partir dali era a mesa fria do raio-x, as batas brancas, o cheiro da solidão ou doença, a dor que aumentava, de maca em maca, de toque em toque.

Criei este blog, contrariando todas as regras de bom-senso. Ninguém do meu círculo de conhecidos (à excepção de uma pessoa) sabe dele. Sem ideia nenhuma de qual o tipo de leitor a quem me deva dirigir. Lembro-me de um professor universitário (na FCSH) que numa aula de Teoria do Estado ensinou a uma turma como falar para uma audiência. O catedrático (ex-ministro da Educação) deu o exemplo de uma antigo comício em Portimão onde teve que falar a uma audiência; onde teve que escolher uma pessoa (um auditor tipo) e falar para ele, abstraindo-se do resto da massa. Na sua opinião (segundo a sua experiência pessoal) é assim que nos devemos dirigir a uma audiência. Disse também que «a última tentação que um político deve ter ao falar é a de dizer a verdade». A frase, ficou-me como imagem de um país. Um país que paga com os seus impostos o ensino universitário, e envia às universidades gerações de jovens ouvir súmulas destas. Súmulas do mais condensado e conciso dos saberes técnicos. 

Via hoje, este post intitulado Funcionário público é parasita?O que é um funcionário público? Normalmente uma categoria parcialmente parasitada pelo disfuncionário público. A expressão «funcionário público» em si mesmo não quer dizer grande coisa. E é usada entre nós, particularmente nos últimos tempos, como aquilo a que Bentham classificou das diversas  formas de Falácias Políticas… as generalidades vagas.

Na sua exposição das falácias políticas, no que concerne à falácia que usa as «generalidades vagas» pode ler-se o que se segue:

Quando ouço ou leio os termos «funcionários públicos», quando vejo o uso a que se presta essa categoria social lembro-me dessa mulher de quem recordo um braço, há quase já uma década e meia. Devo-lhe literalmente a vida. Três dias depois do acidente a que o helicóptero e a tripulação me resgataram do alto de uma serra após um “percalço” de voo livre, fui transferido de um hospital de província para um hospital em Lisboa. E não teria chegado lá com vida, ao que presumo, e segundo os relatos posteriores, sem o acompanhamento dessa enfermeira que após saída do turno (ao meio-dia) me assistiu na ambulância, sem que ninguém lhe tivesse pago um tostão por isso. Foi de forma voluntária, por temer que eu não chegasse ao destino vivo. Entre os períodos de inconsciência e aqueles em que me lembro de estar consciente (uma memória de dor intensa) há essa imagem do seu braço cuidando do pequeno tubo do soro, a contra-luz. Não tenho rosto que me lembre, corpo, cor cabelo, timbre de voz. Apenas um braço, um esboço de movimento de encontro à luz intensa de Verão que a janela da ambulância deixava passar. Teria certamente casa, filhos, marido, um jardim para cuidar, uma mãe idosa, um compromisso… e ainda assim foi, gratuitamente para proteger a vida de um desconhecido. Um desconhecido que nunca a procurou, que nunca lhe agradeceu de viva voz. Eu sei que devia… mas guardo-a, quem quer que ela tenha sido, qualquer que seja o seu nome – com uma gratidão que não quero que diminua com um rosto particular -, como um símbolo. Talvez o maior dos símbolos. Certamente “o gesto-símbolo” a quem devo tudo.

Se a essa mulher tudo devo, mesmo o simples premir de uma tecla num teclado, imagino o que ao longo da vida não teria feio a tantos outros, sabendo como sabemos todos a que ponto a generosidade é incorrigível. Talvez tantos outros lhe devam a alegria que senti ao levantar da cadeira de rodas e andar, semanas depois, a alegria dos primeiros passos. A alegria do primeiro passeio a pé, no meio de um pinhal num tarde do fim de Agosto. A alegria de ver passar os azulejos da piscina debaixo… e já podia nadar, nadar como se fosse pela primeira vez. A ela devo o perfume da «restituição» (o ar que se solta e sobe em massa do fundo de um vale ao fim da tarde e traz consigo grande parte do cheiro da vegetação) nos anos que continuei a prática do voo livre. A ela devo ter poder ler os livros que li, caminhar pelas ruas de Granada e ver isto ao fim da tarde, ao jantar com a minha mulher em Julho deste ano.

Sem essa funcionária pública, sem esse gesto, essas quatro ou cinco horas (como calcular quantas foram facto?) do seu tempo que ninguém pagou, nada do que sou hoje, nada do tanto que vivi entretanto, ou escrevo aqui, teria sido possível. Ela, ou outros como ela, serão os leitores ideais. O leitor que procurarei não ofender ou vilipendiar. Assim me ajudem o discernimento ou o equilíbrio de que for capaz ao tentar contrariar a máxima do velho professor.

Sobre soliplass

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4 respostas a Para ti, funcionária pública a quem quase (tudo?) devo

  1. Sinceramente, me emocionou muito isto que você escreveu! É uma história e tanto, e agradeço-te pela linda homenagem ao funcionário público, na pessoa dessa mulher maravilhosa que te apareceu!

    Beijos

    Carla

  2. CBO diz:

    Belíssimo texto! Obrigado também pelo link

  3. soliplass diz:

    obrigado eu, pelo que me foi dado ler no seu blog ao longo dos tempos. Quanto ao texto, quem me dera saber escrevê-lo melhor. Tem sido uma dívida que com o passar dos anos se vai avolumando. Tenho quase a certeza que sem aquele gesto não teria sobrevivido. E como você escreve à sua maneira, é triste ver arrumar pessoas dentro de uma categoria, ou, nos termos de Bentham, de uma generalidade vaga. É triste tanta banalização.

    Talvez um dia, quando já não tivermos quem venha por nós (a tal frase sinistra e profética de Brecht) se volte a dar valor a tanta gente altruista.

  4. Nas escolas comentam-se textos de autores ditos clássicos ou, pelos menos quando lá andei, era o que se fazia na disciplina de Português que hoje se chama Língua Portuguesa. Era preciso saber o que queriam dizer, interpretá-los (?), lê-los às avessas, comentá-los, ou seja, à força haviam de entrar em nós e continua-se a não se procurar maneiras de nos fazer entrar neles. Fazer os autores entrar em nós! Como se fossem comida! Lembra-me uma passagem do Crime do Padre Amaro quando uma beata se confessou com um problema capital: ao dizer, penso que, a Avé Maria vinha-lhe um escarro à boca. Ora, se o deitasse fora estava a cuspir o nome de Nossa Senhora, se o engolisse o sagrado nome ia-lhe parar aos intestinos que, como toda a gente sabe, é local pouco próprio para divindades. Como a compreendo! A questão é entrarmos nós, não fazermos entrar qualquer um, Deus nos livre e guarde, dentro de nós. Ora esta!
    Como cumprimento de cidadania não devíamos só votar, devíamos também entrar no universo de certos autores. Porém e contudo e todavia e mormente e sei lá há coisas que não são para serem comentadas e interpretadas muito menos. São para serem apreciadas, como um mergulho, é deixá-lo vir e sentir. Usufruir do privilégio daquela leitura. Abençoar quem assim nos proporcionou aquele prazer.
    Tanta arma e tanto barão assinalado em praias lusitanas e não só dão-me gozo ler e reler e interiorizar e sentir. Acima de tudo sentir.
    Todo este palavreado serve para dizer que há locais onde me é fácil escrever e outros onde me sinto um animalzinho a contemplar as neves eternas do Kilimajaro, um pouco a mistura do burro que olha o palácio e o sudra, a casta mais baixa da Índia, a olhar sonhador o Taj Mahal. Ou seja, há sítios onde a caixa dos comentários me é inútil por não saber, não poder utilizá-la. Por não precisar de a utilizar porque o que leio me basta, me enche e preenche. São textos estrela porque têm um centro e várias pontas que me indicam outros caminhos, são em prosa cantada, em verso técnico, fotográficas e gramaticais, imaginosas e actuais. São os teus textos.
    Obrigada senhora funcionária pública.

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