Assassinos, os gaúchos a democracia e os hoplitas e mais coisas que por aí andam

Sinto-me bem no meio da gauchada A foto de cima, foi tirada há coisa de um ano. O facão na cinta não assusta por aí além. É uma arma terrível, já se sabe. Rubem Fonseca usa-a (se bem que se trate de um facão maior que o facão do gaúcho) para derrotar a grande arte de um assassino terrível, que é cortado em diagonal no final do livro. Lembrei-me disso um dia destes ao ver por aí citado uma frase de Marcelo Duarte Mathias que diz que a diagonal é a linha recta dos portugueses. Usa-se também o facão para a decapitação de um granfino, numa praia do Rio, num dos contos de Fonseca; O Cobrador. O cobrador (nesse conto) procurava os golpes limpos, que viu numa foto antiga dos tempos coloniais ingleses.

Na Páscoa passada, eu e um familiar, depois de termos cortado o palmito a facão de uma palmeira das suas para o churrasco do dia seguinte e arrancado a mandioca da terra vermelha, fomos juntos até ao ao portão, e ali ficámos na conversa. Apareceu o guarda,

– E aí? Como é que é? – Atirou-lhe.

T’amo aí ! – respondeu o outro, – tudo nos trinque!

Não traz a pistola de novo?

Nããão! Não precisa não meu irmão. Trago o facão! – E levou a mão à parte de trás da cinta para mostrar o cabo branco.

É rijo esse aí, bom camarada. – Disse o familiar.

De olhos azuis, seco de corpo, sorridente já a passar os cinquenta, contou então de quando era novo e trabalhava numa fazenda onde havia uma usina e muita peãozada. Ele era um desses peões, adolescente ainda. Um capataz, de um sítio mais elevado, uma espécie de cais, despediu-lhe a chibatada lombo abaixo e ao longo de uma das pernas que lhe deixou a marca por meses. O piá (termo paranaense para rapaz), esperou uns dias ou semanas para estar curado. No fim de uma dessas semanas, sabendo o capataz na taberna, entrou de mansinho, puxou do facão e traçou-lhe a diagonal do ombro esquerdo à perna direita.

De salto, pôs-se ao fresco. Por selvas e matagais foi parar numa outra fazenda onde arranjou trabalho e onde uns dias depois chegou o jipão dos policiais.

Tu é fulano?

– Não, meu nome é tal e tal. Não tenho família não sô delegado, minha mãe morreu…

– Que nada. Tu sabe que matou o cabra?

Não sabia. Cabra do Capeta! Mas explicou que se ficasse o esfolavam, por isso fugiu, mostrando ainda o sangue do outro que nunca tinha lavado do cabo e da lâmina.

É esse sangue aí, ó!

– A gente vai voltar pra te pegar.

– Não precisa não. Eu vou com vocês sô delegado.

– Não meu filho. Cê arruma tuas coisa. A gente volta te pegar. Ou você vai na delegacia quando terminar.

E foi. O advogado dos fázendêro chegou dias depois. Conversou com os policiais e com ele, que explicou que não queria matar não.

Eu não carreguei muito doutor. Mais sabe com’é qui é.

Mostrou a marca da chibata ainda escrita na pele. O outro sabia, fez as contas, sabendo que o capataz a quem correram as tripas para fora era mau gado. O doutor e os policiais decidiram que não era ele. Tinha era que seguir para norte. Pega’s tuas coisa meu filho…Conta aquilo e remata:

Me safei. É meu irmão, comigo homem não bate em homem não. Ou vai na ponta do facão. Tá’qui ó!

Leva de novo a mão atrás, à cinta. E fica depois a conversar de manso e a gracejar, de olhos azuis. E por mim, ficou marcado. Precise de boleia de setecentos quilómetros viajando de noite ou de mesa e cama, e tem, se eu a tiver.

Vidal-Naquet, ou Finley, já não sei qual dos dois, escreveu que a democracia grega nasce da falange hoplítica. Homens que combatem a pé, em formação cerrada, em que cada um protege o outro a seu lado com seu escudo. Fui ouvindo a história ali em frente da mata escura de onde das alturas caía um abacate ou outro, deliciado. Aquilo de olhos azuis era um tratado de filosofia política grega. A tal que diz que quem não se dispõe a morrer de pé acaba por viver de joelhos.

Também por me lembrar (também por ser maluco e não ter mais que fazer) de alguma literatura. Hernández, no Martin Fierro, uma espécie de Ilíada das pampas, escreveu uns versos abonatórios de alguma rudeza e ripostar que podem ver aqui, aqueles Y después dicem que es malo el gaucho si los pelea…

É mais ou menos por isso que ando sem medo nas cidades de lá. Uns livros velhos que vou comprando nos sebos, meia dúzia de versos, não interessam, nem podem interessar, a ninguém.

Sobre soliplass

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