T’en svensk…. e as convicções

Metido numa dessas máquinas que sulcam os mares (os navios), anda um electricista norueguês; de quem os  navios sempre precisam e quem não os conhecer que os compre. Chama-se Bjorn-Arve, e é o que chamamos um “cenourinha”, por cabelo ruivo e sardas. Avisto-lhe a nave frequentemente, iluminada, ao longe, a meio da noite no Skagerak.

Bjorn-Arve costumava dizer algo no seu dialecto trondsk (é natural da área de Trondheim) que soava assim: t’ èn svênsk cân du sì vá sôm helst… di gôr àldri i krig ali’k’a’vél… e ria-se, o alarve, da melodia das palavras e do espírito da pilhéria. Seria talvez um ditado local que quer dizer mais ou menos «a um sueco podes dizer o que quer que seja. É-lhes igual, não fazem guerra a nada ou a ninguém» e que traduz alguma indignação da parte dos noruegueses pela neutralidade sueca durante a última guerra.

O cenourinha Bjorn-Arve é aquele gajo encantador. Tem ouvido musical. De mim aprendeu a dizer correctamente e em português, «cabernaça de chumbadeira»; e por aí se lhe acaba o latim. O termo, ou conjunção de termos, em si mesmo nada significam de concreto. São uma brincadeira, acho eu. Uma forma de brincar com palavras. Expliquei-lhe isso, mas, talvez pela explicação, ficou agarrado à designação. Foram ouvidos pela primeira vez há mais de trinta anos a um velhote da serra. Chegou um à taberna, e o outro, seu compadre (ou não) perguntou:

Óh c’padre Zé? A’tão nã buemos uma cabernaça de chumbadeira?

Áh isso buemos! Qu’ê c’mi ainda há p’daço um b’cado de pão c’um esgalho de salt’i’berra e cóm’os olhos às f’guêêiras!

E ali ficámos a saber que o primeiro o convidava para um copo de tinto, e o segundo estava na disposição disso porque tinha comido um pouco de pão com carne de cabra – que saltam e berram e comem os olhos às figueiras –, e que provavelmente tinha sido puxada a dedo de dentro do tacho e assim separada do osso (talvez por isso a chamava «de esgalho»), e a um copo de tinto chamavam uma cabernaça de chumbadeira.

Provávelmente “Cabernaça de chumbadeira” ou é uma brincadeira com sons, como parece ser “salt’i’berra” para designar uma cabra, ou é uma brincadeira para trazer através de palavras complicadas e de aparência respeitável, um pouco de pompa ou elaboração a um vulgar copo de tinto. Ou então têm alguma ligação obscura com objectos ou utensílios que desconheço. O facto é que os termos encantaram os ouvidos do cenourinha. E que, numa cave da Ribeira de Santarém – passada a linha do comboio e no limite das vinhas –, o cenourinha não parava de pedir cabernaças de chumbadeira enquanto a carne grelhada fumegava nos pratos. Lembro-me desse almoço também porque ali autarquias, empresas e repartições públicas se entregavam a sã e ostentadora convivialidade oferecendo-se mutuamente garrafas de Padre Pedro e outros mimos da Casa Cadaval, à vista desarmada de todos e sem pejos. Chegou ali, e à Vidigueira, por visita e competição dos colegas de trabalho, e porque todos o queriam e por todos era disputado. Devia ter vinte e três na altura, e apaixonava toda a gente. Que se encantasse por sons, ainda que desconhecidos, talvez não seja de surpreender, se nos lembrarmos da alegoria do Dossier H de Kadaré onde dois investigadores irlandeses vão à Albânia para, nos cantadores de poesia que por lá ainda subsistiam, encontrar os segredos de Homero. A alegoria (ou a história) acaba, como se sabe, com os dois investigadores com a missão falhada e já a bordo de um navio de regresso a casa, um deles a imitar o gesto da maiekrah, e o outro a pensar que uma palavra não é senão um invólucro cujo conteúdo é outro.

O cenourinha, um fraca figura de franzino, encantava. Em Portsmouth, levaram-no a ver o antigo navio de Nelson o Victory, e viram que no rol da tripulação figuravam três nomes portugueses e um homem sem nome, «a men of black skin». E no País de Gales o cenourinha encantou uma série de cavalheiras com o seu rude inglês. Só por isso, e porque a competição masculina local disso se lhe foi queixar, o armário que guardava a porta do pub achou que ele não podia entrar de novo.

O cenourinha, ao voltar de um cigarro, e por não ter feito mal que se visse, argumentou e argumentou. O armário não ouvia. Foi então e para surpresa geral, que o cenourinha com um só murro, administrado com critério do lado esquerdo, abaixo das costelas, provocou a avalanche de carne que desabou no passeio em frente do pub sem um som. E entrou de novo. Quando o armário reuniu mais dois, foi-lhe no encalce. Mas viram-no estranhamente sossegado agarrado à pega grossa da caneca de ale. Peritos na arte do golpe de vista, viram também que ele só ia render aquilo em circunstâncias últimas. Ficou então e só com o aviso de que se portasse bem; ou que o punham na rua. Pelas ruas de Larvik pontuava outro armário, dealler de pózes e fumos, e tipo perigoso. Disse o armário em certo dia umas coisas sobre o cenourinha ou do irmão, não sei bem. E o cenourinha, claro, não esteve de modas. Foi-se lá, ao pé do armário e em público, contra o aviso de todos os seus amigos que lhe juraram que o mataria, abanou-lhe um dedo debaixo do nariz e disse:

-Se dizes isso mais alguma vez mato-te!

O outro, homem de negócios, ouviu a ameaça, mas viu ao mesmo tempo oportunidade. Chamou-o à parte e ofereceu-lhe emprego. Que ele não quis, já que o negócio dele são fios e quadros de electricidade em navios. De tudo isto fui sabendo (e outras do género) não por ele mas por outros. Ele ri com os olhos pilhéricos – iguais aos da minha avó – de quem não dá grande importância ao caso, e confirma.

Quando vejo o navio dele a meio da noite e do Skagerak vou pensando que se os salteadores que nos dão governo não ouvem quando lhe apregoamos a ética republicana não é porque às nossas palavras falte razão, a artimanhosa arte da retórica, ou a encantatória melodia. Falta-lhes, isso sim, essa coisa rápida ou instintiva, a que chamamos convicção. Mas essa é outra história. E aí quatrocentos Fords Madoxs Fords tinham material de sobra para uma primeira linha. Das tais primeiras linhas que já dizem muito da história.

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