Um velho professor de química e um poema de Yeats

A política é o domínio das coisas grandes. Por mim gosto particularmente da expressão “Grandes Opções do Plano”. É bonita e a gente ilustra-se só de soletrá-la. Mas é o domínio também onde erradamente se esquece o pequeno e o prosaico. Small is Beatifull, e até disso se escreveu um livro. Koestler, por outro lado advertiu-nos que as estatísticas não sangram, são os detalhes que contam, num dos ensaios do Yogi.

Nos meus tempos do Liceu professava por lá um professor que todos alcunhavam de maluco. Tinha regressado da estranja depois da revolução, não se vestia de professor e andava de motoreta. E ria-se. Muito. E eu já me tenho rido a pensar no quanto ele se riu.Tinha sido um brilhante aluno da Faculdade de Ciências, mas o ser de esquerda cortou-lhe carreira. E se não dá às de Vila-Diogo para lá de Espanha os da Associação Filantrópica PIDE tinham-no engaiolado por mais tempo. Quem o visse a escalpelizar a giz equações de física newtoniana num quadro negro, gesticulando muito e tornando tudo simples, ficaria admirado. E de tudo dava lições. Falava e ria pelos cotovelos. Dos colegas era um fartote.

Avisou-nos de muita coisa. Uma delas era que não nos caíssemos em landuns dos grupelhos de extrema-esquerda. Por se encontrar por lá mau gado, e por aquilo não valer um caracol. A esquerda que tínhamos, obviamente – a que ele conhecia por dentro. Finalmente, quando a gente viu os grandes e puros esquerdismos de Pina Moura ou Durão Barroso transformados em liberalidades no bolso alheio, suas carreiras e manhas, teres e haveres, percebemos o que queria dizer.

Como não respeitava nada nem a linguagem com que o expressava, um dia a perorar sobre a tabela periódica e com os elementos químicos expostos num painel branco, perguntou-nos: oh rapaziada, qual é o gás com maior potencial energético no Universo?

A turma dividiu-se e creio que ganhou o hidrogénio. Dita a resposta, ele abanou a cabeça desiludido, andou para um lado e para o outro, e desabafou: já vi que não consigo ensinar nada e que ando aqui a perder o tempo. Vocês são todos uns totós e não sabem nada da vida, nem de química!

A turma, que lhe respeitava o saber, esperou contrita e em silêncio. Foi então que ele revelou, para surpresa geral (durante uns minutos vigorou o estado de choque) qual o gás com maior potencial energético:

Não, o gás com mais poder no Universo é o cheiro de cona!

De uma aula de química passámos então a uma palestra de sociologia com ele a explicar porque tinham vindo os soldados do ultramar fazer a revolução e a democracia com saudades dos namoros e outras amenidades que cá tinham ficado. E que o país era tão fascista como antes, só que tinha vestido roupas novas; as que havia ideologicamente para vestir. Que o que tinha acontecido não passava de um rearranjo de cupidez, e que essa, voltaria em breve aos legítimos donos dela. Passados poucos anos ou meses o país voltou à direita eleitoralmente, e arranjou maneira de lá continuar, apesar de, por ser preciso mudar de camisa, ocasionalmentee por via eleitoral usar uma de cor diferente da do dia anterior.

Que a gente tenha visto esse vapor a que ele chamou o cheiro de cona tocar as grandes locomotivas da História – principalmente da História dos países – é coisa sabida. Os nomes Josefina ou Catarina, já por si são um manual de tragédias. Ou de bem-aventuranças. E qualquer um de nós que não seja dado à causa fracturante, olhando para a sua vida pessoal também lá encontra alguns despropósitos, ou, chamemos-lhe assim, revoluções falhadas. É, e apenas, natural. Creio até, que saudável.

No fundo o que o maluco disse não é muito diverso do que diz o poema do grande Yeats, e que revela uma das grandes contradições da política. E porque a vida e a política e a poesia e essa tralha toda é feita de contradições, valham-nos certos aromas antes que o tempo se acabe, e aqui fica o poema:

Lido o poema, e por amigos da filosofia descei Epicuros por tomar ventos a vossos jardins, que Franças e Rússias, a austeridade e a teta do Orçamento Geral do Estado, longínquas coisas são. E daquele cínico Diógenes da Grécia antiga, não desconheçais o cognome e prática. Que disso e principalmente se fazem os natais felizes.

Sobre soliplass

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