Avalanche

Escrevi num outro blog em Agosto passado, sobre um dos alfarrabistas mais curiosos de Oslo. O homem e o sítio. As duas primeiras fotos são desse dia de Agosto.

O tipo de boina basca, de aspecto tosco e brusco, estava sentado num banco de madeira vermelha, de má esquadria. No passeio. No chão o odre plastificado da pinga, nas mãos – entre um guardanapo – o resto espremido de uma sandes onde o verde da salada tentava escapulir-se do castanho pintalgado do pão. O «hei» foi contido, ou teria vindo ornado de matéria semi-mastigada. A boca, como a loja, a deitar pelas costuras. Por vezes penso que se algum marau, a meio da noite e já tocado dos vapores da borracheira, lhe joga uma pedrada ou uma garrafa vazia a um vidro – e os livros se de lá despenham por lhe faltar o vidro de amparo – aquela torrente de papel se despenha ao longo das ruas de metade de Oslo e só lhe esmorece o ímpeto dentro da água do mar, lá em baixo no porto. Nunca vi coisa assim. Nem para o aspirador (para que quer ele aquilo se não tem chão que se veja para aspirar?) há canto recatado – o que faz com que tenha que o arrumar em cima dos livros…

O meu amigo de anos, alfarrabista até há pouco, chama-lhe avarento e outras coisas que tal, que roçam o gato por lebre em termos de preços. Preços demasiado altos, que prendem ali às paredes e aos vidros os livros usados. De tal forma que, se quer almoçar, traz o banco para o passeio. Eu acho-lhe graça. Grande, obsessivo de olhar intenso, como um garoto que goste de escavadoras, e fique a olhar as obras sonhando trabalhar nelas. Aquela obsessão não pode derivar da ganância com o dinheiro, mas com outra coisa qualquer que para mim é indefinida. Custa-lhe muito dinheiro ter todo aquele dinheiro empatado. Hoje, queria saber de mim sobre que falava o clássico brasileiro Veredas do Sertão… ele tinha comprado aquilo, e eu sei português… e entre ele e aquilo, sendo “aquilo” o assunto ou a história do livro, não pode haver barreiras. E o azar de eu ler português e não saber de que o livro fala –  por nunca o ter lido –  transtorna-o, como um dique a um rio.”

Nesse mesmo dia avisava ele um casal de jovens clientes para não se chegarem a certo ponto porque havia naquela desarrumação empilhada “rasfare” que é o termo norueguês para “perigo de avalanche”. Agora, na passada noite de Quinta para Sexta, houve um marau, com o curioso nome de «Dynamitt-Harry» que não lhe jogou pedrada ao vidro, mas explodiu a parede contígua, a parede de uma ourivesaria. Ouvi a notícia na TV sem ligar às imagens. No jornal de Sexta lá estava a avalanche e a loja destruída. Pobre homem a quem os preciosos livros ficaram feitos em frangalhos, e boas coisas tinha na parede contígua ao ouro que o Harry cobiçou, sem que pudesse ter levado, por ter usado carga excessiva que ia levando o prédio abaixo.

Dito isto, que gosto do homem estranho e grande, fiquei a olhar para a foto de uma livraria de usados e de uma ourivesaria ao lado expostas à oportunidade de pilhagem, a considerar que haveria ali um teste supremo para um bibliófilo que se deparasse com aquilo. O que pilharia? O ouro, ou os volumes usados?

Claro que a pergunta é retórica. O bibliófilo guarda, não se apropria indevidamente. Na maior parte dos casos torna-se bibliófilo para evitar a convivência com ladrões e com uma das formas peculiares de ladravaz; o presente proprietário que quer fazer esquecer a forma de que usou para se apropriar. Os engravatados, ou os outros, que andam a rebentar paredes. E olha com uma certa tristeza que em toda a reportagem ninguém se refira aos bens do outro homem estranho, os mais danificados. Serão uma forma menor de propriedade privada? De certo modo sim, e também uma ameaça ao valor do ouro. O valor do ouro provém em larga escala de não guardar memória. Não contar como chegou ali. A mudez é a mais apreciada das suas qualidades, a ausência do percurso. Com isso o Dynamitte-Harry contava, com a sua mudez e brilho complacente. É esperto o Harry, e adivinha-se um grande futuro… assim consiga ele ocultar o passado.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s