Na Europa

E era então que em Outubro de 1941 as autoridades parisienses na França ocupada advertiam contra a utilização de carne de gato na daube provençale. A Alemanha esgotava os recursos do país, e mesmo os antigos apoiantes do regime de Vichy, a partir de 1942, foram forçados a reconhecer que a Alemanha se entregava a uma política de pilhagem. Pior, a política alemã de Grossraumwirtschaft (sobre tal assunto mais aqui) levou a que milhões de homens fossem transportados para território alemão para trabalho forçado em explorações agrícolas e fábricas. É a partir dessa altura que ganha surge em França a expressão prende le maquis, que designava tanto tentar esconder-se (sendo regiões particularmente procuradas Lozére, Creuze, Auvergne, Massif Central) e escapar a esta leva de trabalho forçado, como juntar-se aos grupos da Resistência. Tudo isto nos conta Geert Mak neste livro fascinante, que é organizado como um livro de viagens ao longo da Europa, com a particularidade de nos levar não apenas aos sítios geográficos mas também ao seio dos acontecimentos históricos marcantes da história europeia do séc. XX, nos lugares geográficos em que ocorreram.

De Gaule, muito por fruto de uma relação de candeias às avessas com Churchill, vetaria a entrada da Grã-Bretanha na Comunidade Económica Europeia, e mais tarde em 66 retiraria a França da NATO, pelo que 26 mil soldados americanos tiveram que abandonar o território francês. Por essa altura um cartoonista desenhou um soldado americano abandonando o país ao mesmo tempo que gritava ao presidente: “if you need us again, our number is 14-18 – 39-45! Tudo isto é contado a páginas 532-33 do excelente livro de Mak. Curiosamente Mak escolhe exprimir o tom da pergunta do então Secretário de Estado americano Dean Ruskse os americanos mortos que jaziam nos cemitérios militares também estava abrangidos pela ordem de evacuação – através da adjectivação «cinicamente», «cinically».E curiosamente, a pergunta foi plenamente justificada, mais justa que cínica. A memória de todos os homens americanos que pereceram em solo europeu para livrar a Europa da escravidão e da tirania, não deve ser esquecida ou achincalhada, não deve ser tratada de ânimo leve.

Quando a alcateia de acéfalos de Cavaco & Sucessores se entregou a banquetear com os fundos europeus, a subverter as regras do Estado de Direito, quando se entrega ainda a perverter os valores por que se orientam (ou deveriam orientar) as democracias liberais ocidentais, deveriam ter em mente o que elas custaram a manter e instituir às gerações anteriores, gerações que não foram apenas europeias, como bem lembrou Dean Rusk. É claro que para isso teria sido necessário um pouco dessa coisa estranha a que chamamos cultura. Mas isso seria talvez pedir demais. Contra mansões com piscinas nos Allgarves, contra os suaves deslizares de BMW’s, contra as gravatas de seda e a vaidade estampada nas reportagens das revistas do social, a cultura pouco pode. E às universidades por onde passaram, nem vale a pena pedir contas.

Sobre soliplass

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2 respostas a Na Europa

  1. CBO diz:

    Muito obrigado pela visita. Gostei de conhecer o seu blog. Bom fds

  2. soliplass diz:

    Eu é que tenho que agradecer tais crónicas naquele rochedo de boa escrita que são para mim visita diária. Bom fim de semana também.

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