Pontos de vista

Se a memória não me trai (coisa frequente) Orwell, no final do seu Homenagem à Catalunha avertia para a parcialidade da sua visão dos factos, não porque fossem falseados, mas porque apenas tinha visto uma parte do conflito; aquela parte possível a partir do lado pelo qual combateu. Li no início de Janeiro do ano passado – numa espera prolongada no aeroporto de Brasília – o relato histórico da participação de voluntários noruegueses na Guerra Civil espanhola, com as histórias das jornalistas nórdicas que acompanharam o conflito. Gerda Grepp (a primeira a chegar nos meses finais de 36), a sueca Barbro Alving do Dagens Nyeter, e a que (erradamente), se atribui a fama de primeira norueguesa no terreno: Lise Lindgbaek, do Dagbladet.

Grepp chegou a Barcelona no Outono de 36, tendo daí seguido para Madrid para presenciar os primeiros bombardeamentos aéreos da cidade por parte dos alemães; e observar que estava perante assassínio massivo, não já apenas a guerra no sentido convencional.

Mas a repórter nórdica não se impressionaria apenas com os excessos da parte franquista e seus aliados internacionais. Ficaria impressionada também, em Cuenca, ao ouvir o relato do terror e dos métodos usados para com os opositores ao regime republicano.

No início do ano seguinte (1937) Grepp voltaria a Espanha e a Madrid para viajar desta vez para sul na companhia de Arthur Kloester tendo quase assistido à queda da cidade de Málaga nos 10 dias que passou na companhia de Kloester. Não assistiu à prisão deste, ocorrida a 7 de Fevereiro de 1937, porque Kloester tratou de a pôr em segurança – na única estrada de fuga aberta na altura – antes de ele próprio voltar novamente para Málaga e ser aprisionado.

Abaixo a foto de Gerda Grepp, a sua credencial de correspondente estrangeira, e uma reprodução de um seu artigo.

Sem a tentação da graçola fácil (a expensas da memória e do destino trágico de jovens idealistas que de toda a parte da Europa acorreram a Espanha pressentindo que o futuro do seu século se jogava já ali) ao ler a história destas jornalistas nórdicas que não tiveram pejo de mergulhar nos cenários de guerra, deparo com esta foto de soldados que voltam do banho perto de Valência e é impossível resistir a pensar se a foto teria sido tirada por uma repórter feminina. Neste caso, teríamos duas visões opostas da guerra; segundo a ideologia, e segundo o género. Infelizmente, não há outra indicação que não a de que a foto faz parte do arquivo do Movimento Trabalhista.

Em, Tusen Dager, Norge og Den Spansk Borgekrigen 1936-1939, Glydendal, 2009, fotos acima, entre a p. 134 e 135. Em baixo, aspecto da capa.

Sobre soliplass

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Uma resposta a Pontos de vista

  1. Areia às Ondas diz:

    Se a memória não te trai…? Não conheço alma cristã ou infiel com uma memória labiríntica como a tua, que invejo profundamente, diga.se de passagem, por ser capaz de ir daqui até aos confins de olhos fechados, sem olhar a qualquer sinalização, e encontrar o que procura. Esta capacidade de relacionar ‘as coisas’, de ir buscar o pensamento alheio para o mostrar, fazer confirmações, interrogar e criticar deixa-me sentada no banco da escola primária. 🙂

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