De ambulâncias, panoramas, desgovernos, eleições e cigarrinhos post-coitum

Há por entre os rítmicos e esculpidos versos da poesia de Gedeão dois que exclamam:

Quantos milhões de litros 
do movediço amor! 

A imagem do amor líquido e movediço, destoa daqueloutro ferrum-fum-fum da sua poesia de comboios descendentes de Queluz à Cruz Quebrada, do barquinho da carreira que faz que anda mas não anda parece de brincadeira, da trabucada dos irmãos de Cantanhede canteiros de profissão, e do som do cinzel que trabuca… truca-truca … truca-truca … esculpindo os calcários. Tudo trepidante, barulhoso, estrupido, atroada. E mesmo nesse poema (poema do autocarro) que nos deixou a imagem do movediço amor em milhões de litros desaguado, a coisa acaba de forma prosaica; com o pedido de um bilhete de 15 tostões para campo de Ourique e as desculpas de estar distraído.

 Na nossa poesia, tágides, musas, batedoras de pálpebra ao pôr-do-sol, esfinges, postais ilustrados, divas, castas mães de família, e demais fauna de tal ideário ou aviário, são quase sempre da ordem do diáfano e do incorporal, e, como alvos de amor mal se percebe onde possam confluir tais jorros ou milhões de litros. A não ser que, sobre uma forma de leve rocio ou orvalho, sobre elas se deposite. Aos translúcidos seres alados de tal reserva cinegética dão batida, monteada, e falcoaria os nossos letrados, retintos, relapsos, inspirados e suspirantes bardos, líricos e poetas, épicos do dolente e amoroso uivo, tocadores de pandeiretas e outros berimbaus em verso. E com bons motivos, já que parecem ter endereço em altaneiro e subido pedestal, ou no penhascoso castelo de Marvão. Aonde, mais facilmente se aliviam os pombos, que o amor – por mais movediço, litroso, e animado de mecânica dos fluidos que seja – os alcança, a esses seres alcandorados.

Perdigão que perca a pena, acha-se desasado, embargado de voos, inalcançável a alta torre… como tão bem se queixava Camões, que era zarolho, mas não falho de chiste, argúcias, finuras e sagacidades, sabendo bem (olha que melro!) que nestas guerras de bicadas e arremessos se trata e não de golpe de asa. Coisas do orvalho… diríamos. Digo eu, que a imagem do amor movediço e aos litros (hectolitros ou almudes) é valorosa, válida e verdadeira, e nada deve à cimitarra do El Cid Campeador em acutilância, tal a sua verdade e desembuço. Apesar da sua aparente liquidez e da sugestão de seu resvaladiço.

De João Ubaldo Ribeiro há este livro fascinante, de 2009, da Objectiva, Rio de Janeiro. O autor diz que apenas reconta e reescreve o relato de uma velha senhora entretanto a viver no Rio, que teria contado a história da sua vida. Nunca saberemos… E que vida… Aquilo é uma farândola colorida de fodas e refodas, chupamentos e enrabanços, manobras de mão e cabriolas de língua, punhetas e perguntas que não percebemos se motivadas por pundonor ou higiene «…você não vai deixar isso espirrar em minha boca, vai?», um arsenal de glandes apontadas ao prado de flores bi-labiais entre o recatado e oloroso musgo. Que guerra! Um fogo-de-artifício de parelhas, triângulos, quadriláteros, trapézios e outras figuras e poliedros, um saltar à corda nas convenções dos conventos e catecismos das famílias. Toda a frota de camiões-cisternas da Galp, esquadra de super-petroleiros da Shell, ou pipe-lines da Repsol não chegariam para transportar o derrame movediço de amor que por ali vai… ou vem. O relato, de sonoridade e tom de linguagem coloquial, um monólogo ou solióquio, no fim do qual a locutora se defende dizendo que não pecou «quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer»; diz quase no final da enumeração das proezas de um valdevínico e farreado viver. A enumeração de tão húmidas manobras e considerações adjacentes não impede contudo as deliciosas imagens literárias que o autor nos oferece, como a de certa senhora que não tinha a certeza da paternidade de dois dos filhos de tão «panorâmicamente» que dava xoxota. Dois exemplos, e o resto descubram vocês comprando o livro em vez de andar a jogar os euros nos títulos do PSI20, e outras belmirosas coisas. Na pág. 37 há esta de coxas e urgências que é de gritos, apitos e sirenes:

“Por exemplo além de ter saudades do tempo das coxas…Ainda vou contar algumas aventuras do tempo das coxas, tenho material para duas guerras-e-pazes. Passagens espectaculares, uma vez com o padre Misael em pleno colégio de freiras, outra vez com o meu noivo Maurício na porta do apartamento onde estavam dando uma festa, e eu gozando como duas ambulâncias desgovernadas,…”

É claro que nenhum autor é prefeito, e se encontram generalizações abusivas sobre outros povos, como esta da p. 43:

Abusivas? Na Segunda, ao fumar o cigarrinho post coitum depois de dar a vitória a Cavaco nas eleições de domingo, e em vista da forma como ele e os amigos têm fodido tudo e todos gozando como ambulâncias desgovernadas e derramando milhões de litros de movediço amor pela pátria, satisfeitos e aliviadíssimos, o povo português bem pode perguntar-lhe o mesmo.

Sobre soliplass

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