Recebido de além fronteiras

Há-de ficar na antologia da lembrança este envelope com três livros recebidos na estranja, e abertos num café ribeirinho alemão. Como disse e repito, o Antologia do Esquecimento é um dos blogs que mais aprecio em Portugal. Se é que aquilo que inventa títulos como a volta ao mundo em poesia tem fronteiras de nacionalidade à volta; ou está dentro de outras que não as da língua que usa ou dá reparação.

Chegam assinados e dedicados por mão de Henrique Fialho e por ele expedidos (antes que o dinheiro lhe caísse na conta) a um gajo que nunca viu mais gordo. Coisa que lembrarei. Estranhas Criaturas, Estórias Domésticas, e o A Dança das Feridas – este último de apenas 150 exemplares a não serem reeditados. A Dança das Feridas, poemas inventados como se de fulano a sicrano ou sicrana, como o de Stefan Zweig a Charlotte Altman, talvez porque, como nesse poema se escreve e assim termina “a tresandar dos sovacos,/o mundo é um emprego remunerado com a morte/que apenas conforta a vida/quando à sorte cabe um amor/que não sare como uma ferida vulgar”.

Gostei dos poemas, especialmente do de O’Neill a Nora Mitrani. Talvez porque essa seja a história que mais me toque, como aqui se viu. E gostei em especial das estórias, micro-ficções e epigramas dos outros dois livros. Num olhar sobre um mundo de gestos, gravatas e palavras putificadas, que colhe e abriga do território mercantil à sua volta Henrique Fialho procura e consegue – através de associações velozes que nos colhem de surpresa – trazê-las de novo à verdade para um galope mais limpo. Velocidade e golpe certeiro. Talvez porque, como escreve em Centauro, um dos textos de Estranhas Criaturas, «resta-nos a metade cavalo, emigrada das montanhas para os apartamentos, com devidas ferraduras nas patas e a graciosidade do selvagem reduzida a pouco mais que a teimosia de um burro

Tudo estimei nestes objectos – lavoura precisa em courela da fatalmente estreita vida e outra não temos –, objectos que são também teimosia e testemunho da palavra meticulosamente cumprida. De ter tomado a minha como boa, ao enviar-me o produto do seu trabalho apenas com as garantias sempre frágeis (neste vazadouro onde uma décima parte toma por ofício diário foder e refoder 150% dos restantes) de trinta e uns de boca, foi e fica, um gesto e um risco que guardarei numa antologia da lembrança.

Sobre soliplass

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