Johnsoniana: The Rambler

Ontem às sete já o calor era insuportável no Rio. A fumação do inevitável cigarro a ver o dia despontar do lado de fora do aeroporto como que dentro de um forno. Às oito e meia, o Rio era assim lá em baixo, a baía brilhante.

Acepipe que não poderei manusear muito mas que tem que ser usado como sobremesa, lido ao acaso, aberto numa página aleatória, vinha para leitura de avião este tesouro que me foi oferecido pelo alfarrabista de sempre; Even Fen. Com quem brigo há anos por questões de dinheiro por aquela resposta típica: «falaremos de dinheiro um outro dia.» A par disto, a vida dos poetas, também de Jonhson – dois volumes encadernados a couro de meados de novecentosn – os relatos de Boswell da Holanda, e o Tour to Corsica. E a bibliografia jonshoniana compõe-se, mais por sorte que por juízo.

Esta beleza em três volumes publicado em Londres em 1800 é um painel multifacetado onde se espelha o génio do grande homem e a sua humanidade. Em qualquer dos artigos do Rambler podemos recolher a apologia do bom senso, o estilo inconfundível, a lição preciosa. Do artigo de Sábado, 24 de Novembro de 1750, a apologia do bom-humor, que não o humor espalhafatoso e a macaqueação, a tendência ao engraçadismo, ou Gaiety, como lhe chama Jonhson. O artigo acaba com esta pérola abaixo:

A man whose great qualities want the ornament of superficial attractions is like a naked moutain with mines of gold, wich will be frequented only till the tresaure is exhausted.

E do de Terça-feira 18 de Junho de 1751, onde Jonhson discorre sobre o apetite humano por riquezas, tem-se por epílogo esta frase igualmente magnífica:

While riches are so necessary to prevent convenience, and so much more easily obtained by crimes than virtues, the mind can only be secured from yielding to the continual impulse of covetousness by the preponderation of unchangeable and eternal motives. Gold will turn the intelectual balance, when weighed only against reputation; but will be light and ineffectual when the opposite scale is charged with justice, veracity, and piety.

Colega de avião e de conversa, uma jovem brasileira (filha de pai norueguês e mãe brasileira) que volta ao sul do Brasil depois de passado um ano na Noruega. No aeroporto de Frankfurt, pegou nos três volumes encadernados a couro com as duas mãos e levou-os ao nariz para atestar verbalmente depois que cheiravam bem. Aquele gesto foi como um espelho em que me revi. Nem admira que cheirem bem. O cheiro de algumas das melhores frases que sempre se escreveram na história da humanidade, porventura.

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