O afundamento do Blücher

Pequena loja de alfarrabista, o alfarrabista de Frogner. É ali, atrás do Volkswagen, aqueles vidros marcados com o círculo amarelo. Hoje pertence a uma arrumada e sorridente senhora quase sexagenária. Sento-me aqui frequentemente neste café, ou no outro próximo, a folhear as primeiras páginas do que vou encontrando…

Há meses atrás encontrei lá este Afundamento do Blücher de Ashbjorn Omberg da foto acima, um livro publicado pouco depois do final da II Guerra Mundial. O primeiro que descreve um acontecimento marcante, em Abril de 1940. Falei do navio num post anterior, e o seu afundamento «comprou» tempo precioso ao rei para se pôr a salvo, bem como pôr a salvo o tesouro nacional. Oslo não seria invadida no início de manhã, e a marinha mercante nacional com uma enorme tonelagem pôde escolher sem problemas de consciência o lado dos Aliados. A causa aliada viu-se assim reforçada com uma capacidade de transporte importante para a época.

Quisling (o governante fantoche do governo de ocupação) ainda tentou via rádio convencer os navios noruegueses a procurarem portos das Potências do Eixo ou portos neutrais, mas nem um respondeu ao apelo. Esse tomar partido, custou sacrifícios individuais enormes, e envolveu um volumoso colectivo. Para se ter a noção da dimensão da marinha mercante norueguesa, 27.000 marinheiros sobreviveram à guerra. Os que voltavam, sofriam – e sofreram durante os anos que se seguiram – perturbações de sono, alcoolismo, agressividade, e várias outras psicoses. Cinco anos consecutivos de pânico de minas marítimas, torpedos e ataques de aviação deixaram marcas profundas nesses homens. Três mil perderam a vida, e metade frota foi afundada. As sequelas foram duras de suportar, tanto com os que voltaram a encontrar, como com a memória dos companheiros perdidos. De viva voz ouvi o relato àcerca de um homem a quem a filha encontrou um dia de revólver apontado à têmpora e o salvou porque o abraçou de súbito. Durante décadas esse homem sofreu em silêncio ter sobrevivido a um ataque de torpedos num dos portos mediterrânicos, ao contrário dos seus colegas. Era natal e no mesmo porto estava fundeado o navio onde o seu pai era tripulante. Convidado a cear lá, a celebrar o natal na companhia do pai, viu o seu navio explodir e todos os seus colegas desaparecerem. Durante anos, viveu a culpa de não ter morrido com eles, a culpa de se ter salvado por essa pequena “traição”, culpa por ter abandonado o seu posto, e na noite do abraço salvador da filha buscava finalmente o sossego.

Na foto abaixo, um filho reencontrado olha entre vergonhoso e curioso,  quase se afasta  tímido; via o pai pela primeira vez. O pai, um desses sobreviventes, que chegava a Oslo vindo de Inglaterra a 1 de Junho de 1945 a bordo do Bergenfjord.

Este livro deve ter sido provavelmente o primeiro que fornecia ao grande público uma explicação detalhada do que tinha acontecido na madrugada de Abril de 1940. Madrugada em que, a coberto da escuridão e do nevoeiro (ficou célebre a expressão nacht und nubel), as forças militares de um dos mais sinistros regimes da História se preparava para invadir mais um país e subjugar mais um povo e uma cultura. É um livro de papel de baixa qualidade, que reúne algumas fotos – entre elas as do ataque aéreo que se seguiu e que destruiu o fortim da ilha – desenhos e esquemas dos tiros trocados, testemunhos. É um objecto que é  também um testemunho físico de uma época que se esforçava por começar a compreender: um livro quase artesanal, costurado, feito e concebido (ao que imagino) com a falta de tempo e meios – que à época era comum – não apenas porque faltava papel e tinta, impressoras e revisores, mas também pela dificuldade de encontrar documentação que submergia pela primeira vez da clandestinidade. Era por esse facto difícil de reunir; ou por não se saber sequer que existia, ou, existindo, na posse de quem estava. Habituados que estamos a 65 anos de paz na Europa (um milagre histórico e inaudito neste continente) não nos apercebemos sequer do privilégio que é sentar num café com um objecto destes, o privilégio de poder compreender. Termos ao nosso dispor os meios, o tempo e o distanciamento necessário à compreensão. Os homens de Oscarborg, os capitães da frota mercante ao ouvir o apelo de Quisling tiveram de tentar compreender no momento, com “coração e  tripas” o que deveriam fazer naquele momento. Habituados que estamos a ver o ensino, a cultura e o conhecimento administrados nas universidades em termos de perspectivas de emprego – odioso e desprezível conceito – nem sempre nos apercebemos da terrível responsabilidade que isso implica, nem do maravilhoso privilégio de que usufruímos.

Para quem passar junto dos dois ilhéus juntos por uma pequena ponte, chegando a Oslo por mar, avistará esta sequência de fotos: primeiro verá a pequena ilha ao longe (nessa madrugada nevoenta da ponte do Blücher mal se avistaria, mas a poder avistar-se antes do momento em que o primeiro tiro despedaçou a ponte seria vista assim) depois mais perto, e os canhões fatais do fortim de Oscarborg; depois a parte lateral, e sucessivamente até próximo do sítio onde o Blücher finalmente afundou com a carga de jovens soldados apinhados nos porões, silenciosos e expectantes antes do primeiro tiro, e depois da forma que podemos imaginar.

Aqui a seguir, entre as duas bóias que marcam os limites de segurança para a navegação, sensivelmente no sítio da cruz amarela, teve lugar o impacto e explosão do primeiro tiro, que traçou o destino de tanta coisa, e de tanto homem.

Nesta foto, reproduzida no livro podem ver-se os tripulantes ou soldados alemães lutando pela vida num mar de óleo queimado. A manhã que imaginaram de glória, desembarcando pacificamente num cais, tornou-se nisto: água gelada, destroços, óleo, morte para a grande parte dos seus companheiros de armas.

E aqui, na página à direita, uma reprodução do documento dactilografado, recuperado pejado de manchas que continha os detalhes da operação de tomada do poder. Estes documentos vieram a provar que havia a expectativa de que não seria encontrada resistência de monta…

 

O  génio norueguês da literatura – Knut Hamsun – ficou célebre por se ter enganado com a sua visão do regime de Hitler a ponto de o ter apoiado. Este documento trazido a público mostrava como Hitler e o seu Estado Maior se enganaram também quanto à nação de que não esperaram resistência. É a reprodução das ordens de invasão, documento dactilografado, salvo do navio naufragado.  Um erro que nessa madrugada custou caro e cujas consequências foram talvez decisivas para a história da Europa e do mundo.

Sobre soliplass

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2 respostas a O afundamento do Blücher


  1. Estava vendo videos pela internet e caí, sem querer,nesta cena de ‘The King’s Choice’, filme norueguês sobre a decisão de apoiar o Eixo ou os Aliados e, ao procurar saber mais sobre o navio e seu afundamento, caí aqui.
    Muito bom o texto.

  2. soliplass diz:

    Grato pela visita, ainda bem que gostou. O livro, uma curiosidade de bibliófilo, objecto simples e em mau papel, também essa falta de qualidade um testemunho dos dias de racionamento e escassez do pós-guerra.

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