De ombro na ombreira

Vejo por aí num blog, frequentemente, esta imagem. Lembra-me sempre do mesmo. Tive quatro ou cinco anos de vida fodida já lá vão vinte e tal. Valeu-me naquele tempo um empresário para quem trabalhei – e a quem fui braço direito e esquerdo – fazendo-lhe funcionar uma fábrica. Pagava-me duas ou três vezes mais  do que o salário combinado de início, e pelo Natal, ou Férias, sempre tinha o cheque gordo de prémio suplementar para me vir dar. Isso, se me permitiu ter alguma independência face à família adoptiva (recusando por exemplo a oferta de trabalho na empresa desse distinto sogro e retinto e catolissíssimo filho da puta), criava-me uma dívida de gratidão terrível. Durante anos trabalhei  por dias consecutivos 10, 12, 14, 16 horas diárias; o que fosse necessário.

De uma outra fábrica falida na zona de Felgueiras vieram em quatro camiões umas máquinas que apodreciam no recinto da fábrica. Ficaram dois ou três anos até serem vendidas como ferro-velho. Credores dessa empresa falida, foi aquela maquinaria o que se conseguiu de compensação. Quatro meses depois o mesmo empresário falido,  mas agora já de empresa nova, gel no penteado e loura ao lado – os hotéis de Fátima eram milagrosos para cursos de breve carga horária na reciclagem e formação profissional de secretárias – apareceu montado no primeiro BMW de série 7 que vi daquele modelo. Vinha novamente encomendar e comprar. Aprazado o negócio, o empresário disparou no BMW c’o a loira, e o meu patrão ficou a olhar o vazio fumando um cigarro de ombro na ombreira. Eu, que tinha acompanhado a visita guiada dentro da fábrica desagradado com aquilo tudo, mostrando uma coisa e outra, perguntei-lhe incrédulo:

Mas você ainda vai vender alguma coisa a este caralho? Se fosse comigo eu vendia-lhe era um tiro ao meio dos cornos!

O outro respondeu-me como se eu fosse parvo, coisa que era – e continuo a ser:

É pá o qu’é que queres que eu faça? Se lhe vender alguma coisa ainda posso recuperar algum. De outra maneira perco-o todo. Agora, não leva é nada daqui se não entregar o cheque visado antes! Queres que eu faça o quê? Se não comprar aqui, vai comprar ali no Zé da Esquina!

Por mim, apenas me doía que um homem bom, e honesto, fosse roubado daquela forma. E que tivesse de ser roubado e aceitar porque eram aquelas as regras do jogo. O jogo português. Vejo esta imagem de cima frequentemente num outro blog e penso naquele momento de há vinte e tal anos atrás. No olhar vazio de um empresário a fumar um cigarro encostado à ombreira da porta do armazém da fábrica. E continuo a pensar que se meia dúzia de empresários que faliam hoje e abriam amanhã noutro lado, aparecendo depois sem um pingo de vergonha a ostentar BMW’s de série 7 tivessem levado uma bala na testa num sítio escuro ou às claras, Portugal ter-se-ia tornado menos no que se tornou. Não me apercebi na altura em que lhe disse «se fosse comigo vendia-lhe era um tiro ao meio dos cornos» o quanto, de facto, aquilo era tanto comigo quanto com ele. Se calhar ainda mais comigo, seu empregado e a quem tratou tão bem. O coração, por essas e outras, falhou-lhe daí a dois anos. Recebi a notícia na Dinamarca, frente ao mar numa tarde soalheira de primavera. Não vejo esta imagem que não me lembre dele.

Por esses anos também eu entreguei a Cavaco através do voto o primeiro consulado – crédulo que tinha uma visão política moderna: crente em que conduziria o país através de seriedade e trabalho por melhores caminhos. Afinal tratava-se apenas de um gerente de mercearia deixando roubar os empregados à saciedade (clientes e géneros) e enganando o legítimo dono da loja nacional. Por vício de pensamento e educação, também cria por essa altura que a justiça deve ser deixada à Justiça, esquecendo-me do que tinha à frente dos olhos – que a Justiça é um emprego, cujo patrão não é (nem de longe nem de perto) a equidade. Eu e outros, deveríamos ter observado mais e trabalhado menos, e ter usado mais o gatilho por essa altura. Agora vai sendo tarde. É inútil a monda. Aonde ainda havia seara, há agora campo quase só de erva daninha.

Grande parte do nosso tecido empresarial é uma rede escumalhosa de vigaristas? É! Mas muito por nossa culpa colectiva. Aos outros, os honestos, os humanos, os homens de palavra, não soubemos protegê-los.

Sobre soliplass

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