Que faço eu aqui?

“E então o que é que fazes lá?”, perguntou com olhar de berbequim o lanífero, reluzente e atartarugado antigo colega de liceu de dentro do colarinho de padre. Na voz macia e redonda, cheia de inocências, havia plimplins abafados de caixa registadora em mercearia de vidas. Fiquei sem saber se lhe administrar um tento nos cornos ou ir ao lado à caixa multibanco pedir um extracto da conta para que confirmasse se me salvo da danação eterna. Quando haverá filho-da-puta que me peça um curriculum vitae do que me recusei a fazer na vida? Não do que faço, que título ostento e quanto ganho?

A verdade é que me pergunto a mim mesmo tantas vezes o que faço aqui, a neve a estalar debaixo das botas, a única coisa a quebrar o silêncio destes dias cinzentos que me parecem o paraíso na terra. Tenho andado deprimido. Bisonho. Deveria ter escrito alguma coisa e duvidei que valesse a pena. Reli as memórias de Raymond Aron, as crónicas de Ubaldo Ribeiro. Navegando ao longo do fjord num mar de gelo lavrado por hélices e proas. Há um sussurro surdo no casco de aço, o voo de aves que não migraram deixam rectas paralelas de encontro às margens brancas pautadas de abetos gordos e despidas bétulas. Veio contar (um tipo que nele votou), desgostado, de um homem público umas valises com notas de euro. Lembrei-me também eu de o ter louvado, caído no mesmo erro de lhe avaliar o currículo pelo que tinha feito. Se tivesse sido mais cuidadoso, era fácil avaliar-lhe no currículo o muito pouco que se recusou a fazer. Talvez tudo isso se deva, ou seja culpa, daqueles movimentos que pugnam pelas igualdades de género. Entre os homens públicos e as mulheres designadas também de “públicas”, se a igualdade ainda não foi alcançada, atingiu-se certamente a equivalência.

Que raio faço eu aqui? As senhoras, já em idade respeitável (ou não tão novas quanto se pintam), passeiam os cães na neve. Gosto de gente que gosta de cães. Não tenho que ter medo de lhe dizer que o cão de camisola vermelha é um bicho jovial e vivo que me vem cumprimentar com dois ladridos. E ela diz que sim, confirma e volta a olhar o bruto (comigo agachado na neve, dois) e sorri. Duas festas nas orelhas do alegre bicho de pantufas peludas e boa samarra, enquanto ela olha, e duas lambidelas na mão que o afaga e na outra que segura as luvas.

Penso em mim às vezes como um corvídeo, uma destas solitárias gralhas catando a neve de andar desajeitado ou pulos miúdos, a debicar estes lixos da generosidade alheia, sorriso ou uma graçola, um saco que foi de amendoins e é agora vermelho e vazio no bico negro.

A concentração da mulher de cabelo bicolor como que ostentando um símbolo yin e yang no cocuruto, do lado de dentro do café, diz-me que os saco de plástico onde na mão com meia dúzia de livros é um acto normal. Tenho feito aqui muita coisa, mas o que mais me agrada fazer é sentir-me sensato e normal. Que lerá? O aforismo de Jonhson que constata que os negreiros são os que mais clamam por liberdade? O pensamento de João de Salisbury que refere o custo do conhecimento e o perigo de a todo o momento ser vítima do esquecimento? A indignação de Anne Apllebaum numa ponte em Praga e a luta contra esse mesmo esquecimento? Ou a recente compilação de novas vozes do Gulag?

I first became aware of this problem several years ago, when walking across the Charles Bridge, a major tourist attraction in what was then newly democratic Prague. There werebuskers and hustlers along the bridge, and, every fifteen feet or so someone was sellingprecisely what one would expect to find for sale in such a postcard-perfect spot. Paintings ofappropriately pretty streets were on display, along with bargain jewelry and “Prague” keychains. Among the bric-a-brac, one could buy Soviet military paraphernalia: caps, badges, beltbuckles, and little pins, the tin Lenin and Brezhnev images that Soviet schoolchildren oncepinned to their uniforms.The sight struck me as odd. Most of the people buying the Soviet paraphernalia wereAmericans and West Europeans. All would be sickened by the thought of wearing a swastika.None objected, however, to wearing the hammer and sickle on a T-shirt or a hat. It was aminor observation, but sometimes, it is through just such minor observations that a culturalmood is best observed. For here, the lesson could not have been clearer: while the symbol ofone mass murder fills us with horror, the symbol of another mass murder makes us laugh.

Fui-me sentar na Soliplass (é uma praça de Oslo) depois de passar por um alfarrabista conhecido. Filho de uma distinta mãe, levou-me cinquenta coroas por três livros, e ainda por cima não lhe paguei, por coroas não ter, só euros, dólares e reais, e – alfarrabista dos puros e duros – não usa cartões. Disse o pobre homem que não faz mal e pago outro dia. Conheci o Jostein, em 97 ou 98. Era já mundialmente conhecido, e ainda de uma cordialidade impoluta. Ou talvez o tivesse apanhado num dia bom. O facto é que até ontem só lhe tinha lido o Sofies Verden, ou o Mundo de Sofia. Tinha-me uma amiga aconselhado este: o Vita Brevis.  Primeira edição em bom papel, hardback.

Conta o prefácio daquela primavera em Buenos Aires, do mercado de rua em San Telmo, de buscar finalmente refúgio num alfarrabista, a visão do manuscrito. Leio fiado e queixo-me de quê?

Que faço eu aqui? Tento safar-me de aturar certas merdas. E os livros são baratos. Por vezes até fiados.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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