De vigas e partos

viga

Lembro-me daquilo como momento de revelação. No chão, sobre uma cama de lascas brilhantes de resina e  casca de pinheiro, estava pronta e acabada uma viga de seis metros. Os velhos serradores foram-me orientando na direcção do corte, falca a falca, ensinando-me quando deveria “voltar a mão” cortando na direcção contrária para “não ofender a veia do pau” – como era seu costume dizer. Suado, olhei para aquilo no chão com uma felicidade súbita. Dos braços e do machado, de um toro ainda envolto em casca uma hora e tal antes, tinha saído uma viga, agora a transpirar resina transparente em pequenas gotículas. E tinha, ou parecia ter – essa era a alegria – vida própria. Secaria, seria talvez envernizada, ou tratada com algum preservante, teria uma função, seria vista, assistiria a coisas. Era uma viga – por isso aquele trabalho de falca a machado – destinada a ficar à vista numa casa qualquer: a casa de quem a encomendava. Tenho pena hoje de não ter a foto desse primeiro objecto fruto da machada; tenho apenas a memória do nascituro, fresco e molhado, coberto de mil gotículas brilhantes ao sol sobre a cama do parto. Tinha dezanove anos o pai do objecto. Olhando daqui, tenho saudades daquele que fui naquele tempo. Nunca mais na vida pude aprender algo que fosse mais gratificante. Ou tanto.

Agora a milhares de quilómetros e ao ler um dos artigos de Italo Calvino coligido em Why Read the Classics editado recentemente pela Penguin, mas originalmente publicado no Corriere de la Sera a  29 de Julho de 1978 sob o título de Felice tra le cose… volto de novo a lembrar aquela manhã de parto.

Relata Calvino  como Ponge observou que os reis ao não tocarem em portas: “não conhecem esta felicidade: empurrar diante de si, suave ou repentinamente, um daqueles altos painéis familiares, voltar-se de novo em sua direção para recolocá-lo no lugar, — segurar uma porta nos braços.” Como escreve Calvino sobre as descrições de objetos simples por Ponge, fora de todo o hábito perceptivo gasto pelo uso: “ uma coisa indiferente e quase amorfa como uma porta revela uma riqueza inusitada; de súbito, ficamos felizes por nos encontrar num mundo cheio de portas para abrir e fechar. E isto não por qualquer razão estranha ao fato em si (seja simbólica, ideológica ou estética), mas simplesmente porque restabelecemos uma relação com as coisas enquanto coisas, com a diversidade entre uma coisa e outra, e com a diversidade entre qualquer coisa e nós.

Diria eu, que ficamos particularmente felizes por nos encontrar num mundo não apenas cheio de coisas (como portas para abrir), mas num  mundo onde podemos fazer nascer essas coisas que irão ser encontradas. Até vigas.

Sobre soliplass

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