As botas e as estações

Ao deixar o Paraná (na terça) havia já no ar um cheiro de Outono; a declinação da luz, os plátanos que junto ao aeroporto mostram o verde das folhas esmaecido, a tornar-se rápidamente castanho dourado. As árvores caducifólias medem o rodar das estações, em contraste com as auraucárias.

Do outro lado do mundo a primavera escandinava assenta arraiais. O tijolo dos edifícios parece aliviado da neve que foi longa, das manhãs geladas. Nas montras há a exibição das roupas novas, mais leves, coloridas, a anunciar os dias melhores, que por ora, como o reflectido no vidro demonstra, ainda são uma temeridade. A neve amontoa-se ainda por passeios e jardins, derretendo muito lentamente.

Na volta matinal a revisitar coisas estimadas, vejo que o alfarrabista atravancado recuperou do ataque à ourivesaria ao lado que o Harry dinamitou. Eva Braun, convive com O Bravo Soldado Chveik, de Jaroslav Hasek, cinco volumes das Sagas, os mistérios de Maigret e a tetralogia de Durrel. Bom ver que as coisas se encaminham. No meio de tudo isto…, ou, sobre a e caminho de tudo isto, há aquelas botas fiéis de vinte anos feitas por um sapateiro de Alcanhões…

Do Cabo Norte à Patagónia (so to speak) no calor tropical ou na neve, servem para tudo. Antiquadas, feias, rústicas, campónias, que desclassificam um gajo numa lounge da bussiness class da SAS, num restaurante ou bar onde se entre. Têm no entanto a conveniência de terem sido feitas à medida, e portanto fácilmente se aguentam calçadas quatro dias. Podendo-se até dormir calçado. Umas capas de borracha de quando em vez e estão prontas para mais vinte mil quilómetros. Tivessem tido os soldados de César metade delas pra cruzar os Alpes… ó pra elas aqui, ao sol da tarde, capas novas, a rebrilhar ao sol no avião, voando sobre o Brasil. A isto, não obstam estações do ano, ou a omnipotente moda. Bravo sapateiro, aquele de Alcanhões. Deitou obra ao mundo, muita que por aí anda. E boa.

Sobre soliplass

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2 respostas a As botas e as estações

  1. …e eu que as conheço e que as adoro, sorrio-me toda as ve-las por aqui, assim, tão descansadas. Aguardo que me batam à porta! bj

  2. soliplass diz:

    Claro que vão bater um dia destes. Levo também o pouco juízo que a tua paciência vai aguentando como de costume e umas garrafas de tinto. Fica prometido.

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