Os passos e um gesto em honra de um homem morto

Meteu-se o sol a ameigar ruas e passos. Em périplo sobre os passeios ou debruçados nas mesas das esplanadas sobre a calçada que nestes dias acumula um pó fino e cinzento, os nórdicos emergem de um longo inverno e desabrocham. Outros viram a cara ao sol, farejando a luz de olhos fechados. Alegre gorgear. Risos. Evoca, numa lembrança distraída a imagem de Rushdie (no A Encantadora de Florença) no cenário da Índia onde se comparam os papagaios que cruzam os ares em gritaria a «fogos de artifício de verde». É verdade que as noites são frias ainda. Lá em baixo, pela manhã, o fjord é ainda um lavrado de gelo em que as gaivotas poisam – como outros pássaros a sul em terra revolta catando minhoca ou semente. Por parques, entre renques de árvores, ou nos acessos dos quintais e acumulado em montículos, o gelo reverbera sol reflectido.

No passeio, o ritmo dos passos de um homem, a distância a que coloca um pé a seguir ao outro, a forma como flecte pouco o joelho como se lhe fossem as pernas de pau, lembra-me um homem que trabalhou sob as minhas ordens. O «padeiro». Por Francisco – o verdadeiro nome –, nunca ninguém o chamou. Era, na manhã de há dois dias, a reprodução do seu andar. Como se andasse por aqui reencarnado no homem nórdico de porta-fólio azul cujos passos estão atrás do guiador da bicicleta. Possível? É concebível que um homem analfabeto, «criado de servir» primeiro, guardador de vacas na sua Chamusca natal depois, cozedor de pão numa padaria a seguir, e o grosso da sua vida depois como operário de fábrica, reencarnar como um homem alfabetizado que caminhe numa rua de Oslo com um porta-fólio azul na mão? Teria sido como qualquer um de nós reencarnar num habitante de um planeta longínquo entre seres estranhos. Mas iria jurar que eram os seus passos…

Nem sei porque os lembro – os passos -, de forma tão viva. Vi-os pela última vez há mais de vinte anos. Pouco depois das oito, depois de ter falado comigo e dito não posso mais tenho que ir ao médico, caminhou ao longo das macieiras frente à fábrica rumo ao portão e a casa. Lembro-me dele frequentemente, e de forma involuntária. Há dois anos, no âmbito de um trabalho qualquer que ficou inacabado, e ao analisar as iniciativas dos deputados na penúltima legislatura, dei com vários requerimentos (principalmente dos eleitos pelo círculo de Aveiro) a pedir explicações ou informação ao governo sobre a situação na Rhode. O encerramento da Rhode, pela quantidade de desempregados que gerou em Vila da Feira foi um assunto na ordem do dia que preocupou muita gente da esquerda à direita. E lá me lembrei de novo do «padeiro», ou Francisco. O «padeiro» que nunca conheceu deputado (ou deputados a ele) foi uma peça fundamental no funcionamento da Rhode – que nunca conheceu ou visitou – pelo menos na altura em que a Rhode começou a laborar em Portugal. A maior parte dos leitores não terão tido a oportunidade de saber isso, mas a Rhode naquele tempo, e no seu ramo de actividade, era uma revolução de costumes: pagava. Na hora da entrega, e com cheques que não usavam a consabida careca.

Fui o responsável pelo fabrico de boa parte da matéria-prima a partir da qual a Rhode fabricava naquele tempo. O «padeiro», analfabeto e intuitivo, fiel como um cão ao trabalho, consciencioso como poucos, operador de máquina de rebaixar, todo o santo dia carregado de um pó saturado de sais de crómio – “dia-a-dia” dos que exercem tal função nas fábricas de curtumes – cuidava que a espessura e resistência do que fabricávamos (com precisão de décima de milímetro em matéria orgânica, sempre falsa), fosse a certa. Comunista (um homem revoltado), não havia encomenda em prazo apertado que não se dispusesse a pela sua parte deixar pronta. E sim, a poder de horas extraordinárias, por sábados, madrugadas e noites, apesar dos seus cinquentas e tais. Nunca faltou um dia, até que faltou de vez; de baixa médica. Vi-lhe esmaecer a cor do rosto, emagrecer, mas nunca houve uma queixa, ou desleixo. Até àquele dia em que se viu forçado a ir ao médico. Do médico para o hospital, do hospital para casa, onde, por pouco mais tempo, por vezes numa cadeira de encosto que a mulher punha ao sol (era por esta altura do ano) em frente da estrada, vestido com um pijama de flanela riscado de azul claro. Cadavérico mal falava. E morreu, do fatal cancro no pulmão, ou nos pulmões.

Analfabeto, tinham que ser os outros a ler-lhe a folha de salário. Lutei, em vão, para que a ele, e a outros como ele, fossem dados prémios de desempenho. Em vão. Trabalhar – quantas vezes em vão e com a maior das dedicações – parece ser entre nós dever e obrigação de alguns, a quem compensação se não deve. Material ou simbólica. Talvez ainda, a última, fosse a que mais apreciassem. Creio até que o velho «padeiro» nem aceitasse prémio, fosse o envelope «por fora», fosse o montante escarrapachado na folha de vencimento a que o fisco voraz subtrairia metade certamente. Comunista, talvez a coisa não lhe caísse no goto – receber mais que os outros; os trabalhadores como ele. Só que ele não era como os outros. E trabalhou (e bem) até cair de morto como um cavalo de puxo. Não era porém um cavalo, mas um homem inteligente, intuitivo, sincero e franco como poucos. Melhor que eu, sem dúvida. Quando vejo em Portugal a arenga que diz ser preciso premiar o mérito, o esforço e a dedicação, só me dá para rir. De desprezo. Ninguém quer mérito ou dedicação ou competência, quer-se silêncio, obediência, clausura e invisibilidade. De nojo ou arrependimento também pela minha ingenuidade na altura. Na altura em que votei Cavaco com o entusiasmo de, a partir de empresas e do trabalho, com diligência, esforço e dedicação, se fazer um Portugal mais moderno e melhor. E desse braço de falcoeiro levantou voo o mais pérfido bando de abutres de que há memória na nossa história recente. Santa ingenuidade a minha. Bom camarada aquele.

É certo e sabido que a militância em partidos políticos é escassa em Portugal. E no entanto, toda a gente deveria ter essa experiência. Para ver como funcionam por dentro e de que gente é tecida a sua malha. À volta de que gente se firmam os nós da rede e com que voltas. Tive essa experiência, se bem que breve. É uma experiência dolorosa ver aquilo e os seus negócios. Com o passar do tempo a gente começa a sentir o incómodo da imagem daquilo se colar ao nosso próprio rosto, que se imite o andar ou os gestos. As palavras. Ou a falta de verdade nelas. E de memória. As marés das vísceras a que nenhuma memória ou verdade faz dique. Os silêncios. Os silêncios e os sorrisos contentinhos de si e dos seus subentendidos. Talvez o pior seja a gente ter que apertar a mão a gente que nos faz engolir em seco e parafrasear … o meu reino por umas luvas de borracha! E como correr a gente a lavar as mãos é feio e cai mal…

Na quarta-feira passada, ao aterrar em Charles de Gaule e ligar o telemóvel, lá brotaram mais mensagens do partido. Tratam-me por camarada, essa agremiação de pragmáticos e galambinhas do economato. Turvam-se-me os olhos de comoção pela honra ou distinção imérita. O partido vascoleja e sassarica, jorra simpósios, sínodos e convenções, e parlamenta um arranzel de novas fronteiras. Não sei como ainda se não esqueceram que eu existo, não pondo lá os pés (e principalmente as mãos) desde que pela primeira vez elegeram o menino d’oiro. Que, pode não ser bom representante, mas é bem representativo: do que por lá anda e avança. Fizeram-lhe de novo nova marche aux flambeaux para consumo interno, e devem ser essas as novas fronteiras. Seguramente a fronteira do pudor não tinha sido suficientemente recuada e as da pouca-vergonha e do descaramento suficientemente expandidas. Olhei aqui este lixo que ainda trago comigo nem sei porquê e pensei que camarada fui eu do outro e ainda sou. Deitei fora, há dois dias, num caixote de lixo em Parkvein, o cartão de militante.

Sentado ali naquele café estimado a reler umas coisas de Camus e aquele famoso final do primeiro capítulo «Je me révolte, donc nous sommes», rezando para que a actual republique du pardon não conduza à republique des guillotines, que um dia destes não apareça mais um Saint-Juste «prête de la vertu» que decrete um novo «prouvez votre vertu ou entrez dans les prisons». De toda a companhia masculina que possa imaginar, talvez por sugestão do andar de um homem que passa lá fora no passeio, similar em tudo ao do operário morto há mais de vinte anos, era a sua companhia que gostava de ter ali naquela mesa para irmos conversando. Bem merecia este sol, depois de anos e anos dentro de uma fábrica escura e da morte incronicada e anónima. Vê-lo, nem que fosse por um momento, mesmo com aquela cara pálida de moribundo, mal capaz de falar… E vê-lo contente a apanhar sol nas maçãs e as maçãs do sol. Lembrar como Ray Bradbury citou na dedicatória de um dos seus livros os versos de W. B. Yeats

“… And pluck till time and times are done

The silver apples of the moon,

The golden apples of the sun. “

Sobre soliplass

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