Da competência

Tenho ao longo dos anos estudado tanto quanto ambos, o tempo e o dinheiro, o permitem (para perspectivar as coisas em vernáculo digamos que isto de pagar do nosso bolso é fodido), as culturas e as instituições políticas escandinavas. Com o passar dos anos consegui reunir uma bibliografia considerável sobre o tema. Na foto acima, um dos primeiros trabalhos de Valen e Katz (as primeiras edições em paper e hardback) um trabalho pioneiro também na análise de resultados eleitorais no tempo em que os cálculos eram ainda praticamente feitos à mão. Claro que, como o volume de livros cresce a ritmo considerável, de vez em quando (por falta de tempo) lá vou carpintejando umas estantes de mau aparelho onde encaixo as coisas. É também um exemplo de má carpintaria a estante onde se reúnem algumas daquelas coisas, como é patente. Mas como foi parto de três horas e o aproveitamento de um espaço vago, não admira que a criança viesse ao mundo…aleijadinha.

Tendo sido ao longo de toda a vida um trabalhador braçal – sem que me movam grandes esperanças ou grandes desejos de outra coisa ser – coloco-me às vezes a questão de saber se teria competência para aquilo que chamamos às vezes um trabalho “mais importante”. De vez em quando ia encontrando antigos colegas da licenciatura de Ciência Política e Relações Internacionais aí pelos aeroportos ao voltarem de férias dos doutoramentos em universidades inglesas, num voo ou outro para a Europa, ou voltando de Bruxelas. Gente que continuava no ramo. Os e-mails com anúncios de conferências e lançamentos vou-os recebendo ainda da universidade ou dos institutos, e anotando o título de uma obra ou outra que me interesse. O diploma deve andar lá por casa, na mesma sala da bibliografia escandinava, sem que consiga dizer exactamente onde. Suponho que ainda por lá estará… Pelo que via daquela gente já vestida de embaixadora no primeiro semestre da licenciatura depressa percebi que não tinha fígados para tal actividade ou carreira. Nem sotaque adequado àqueles palcos ou a obediência necessária para recitar os papéis de tal dramatologia.

Passei um certo dia no passado ano pelo consulado (a funcionar no edifício da embaixada) português numa das capitais escandinavas que me abstenho de referir. Precisava de uns papéis oficializados, uma assinatura reconhecida e o diabo burocrático a sete e lá me dirigi. O desleixo da sala (ou, para começar logo, da escada que lhe dá acesso) onde se recebe os que ali se dirigem, era chocante. Nas paredes estavam (não sei se ainda estão) afixados uns posters com imagens do Portugal turístico, onde é patente a propaganda a um destino privilegiado para a prática do golfe – esse desporto de portentos. Os posters quase que abrem janelas naquele ambiente escuro e encardido para um Portugal apalaçado com de rica azulejaria pelas paredes, cenas de caça oitocentista, relvados esplendorosos, mármores, solares barrocos, praias douradas, dolce vita e o sol como um ovo estrelado em prato de porcelana azul a iluminar aquilo tudo. Quase, porque além desse esplendor fotografado impresso em papel, o que se vê à volta é desolador. Uns pobres bancos de paragem de autocarro, umas revistas velhas que mais têm aspecto de terem sido manuseadas por doadores de esperma que de outra coisa, pintura de parede tão gasta e suja no interior como no exterior. O soalho, esse então é de gritos. A não ser que tenha sido recuperado da antiga madeira de um antigo drakkar viking enterrado na lama durante séculos e preservado pelo gélido clima nórdico. Talvez tenha havido outro similar de Oseberg ou do famoso Vasa. Mete medo andar em cima daquilo de tão “histórico”. Teriam nesta altura que as fotos documentam ido surripar umas tábuas ao verdadeiro Oseberg?

O “mobiliário” humano não é menos assustador. Atendeu-me uma jovem senhora com a dicção, a fluidez e o nível de conhecimentos de uma pastora transmontana. Talvez seja uma amostra do nosso pitoresco e rusticidade. Do país onde se encontra, sabe nada. A língua local não fala. E a natal, maltrata-a. Havia também por lá em funções um jovem cavalheiro de traços orientais. Quando lhe telefonei dias passados, para perguntar se davam seguimento ao que tinha pedido, tive que desistir de falar as duas línguas mais naturais para o propósito. Tive que me entender com ele em inglês. O que já não é mau. Será ainda um mostruário das nossas passadas glórias coloniais, um chino capturado em Macau e trazido nas caravelas, que ali se exibe como troféu? Mistério! Aprendeu decerto as tradições portuguesas, porque aos papéis disseram não. Ou talvez seja tudo tradição de despotismos orientais, o que monta no mesmo.

Mas o mais assustador daquilo é o contraste entre a decadência, sujidade e desleixo da sala e o magnífico país afixado nas paredes. Que dá uma imagem de prosperidade e grandeza do país. Fotografada e impressa (óbviamente) e colada por cima da realidade física do sítio. Astolphe de Custine (mais conhecido como Marquês de Custine), no retrato que nos deixou do império do Czar e daquela Rússia novecentista, contava como a aristocracia russa povoava os seus palácios de fachada com todos os símbolos possíveis de ostentação. O viajante, no entanto, tinha que ter a precaução de enfiar os pés das camas – depois de exterminada a vermina e da roupa de cama preventivamente mudada – em recipientes com água se queria dormir descansado e livre de percevejos. No meio de toda a ostentação havia uma assustadora falta de limpeza e higiene; um dos traços segundo Custine da psicologia dos povos sob regimes “despóticos”. É um livro célebre, um relato célebre, e uma pessoa medianamente culta ao ver aquela “sala de visitas” do nosso país numa das capitais de uma das zonas mais civilizadas do mundo, provavelmente relembrá-lo-á.

Ao visitar aquele antro sombrio há já mais de um ano, dei comigo a pensar, dada a licenciatura e mais uns conhecimentos avulso – se teria competências, eu próprio, para desempenhar ali alguma função; e participar assim em algumas das glórias da diplomacia e das relações internacionais. E claro, coisa não desprezável entre nós (mas de ordinário bastante desprezível), reivindicar para a minha pessoa algum prestígio através de uma outra profissão; nem que fosse para no fatídico cartão a juntar ao mísero «dr» que lá não uso. Nem cartão tenho. Quando me pedem e-mail ou telefone escrevo no primeiro papel que apanho…

A resposta que dou a mim mesmo é que não teria competência para exercer funções num sítio assim. Se alguém se desse ao trabalho disso, ao ler a antropóloga Marianne Gullestad, ou outros, imediatamente perceberia que o sítio não deveria estar assim. É uma ofensa à mentalidade nórdica. Creio que primeira coisa que faria ainda que pagasse do meu bolso seria – no primeiro fim-de-semana e assim que visse fechado o expediente – ir a uma daquelas lojas de bricollage que se encontram nos arrabaldes das capitais, comprar tábuas, um serrote, esquadros e lápis, martelo e pregos e mudar aquele soalho. Porque do jeito que está, as senhoras só se atrevem a entrar lá com os cães depois de lhes administrarem uns protectores de patas. E isso, para a nossa mentalidade, era iniciar um grave conflito. Diplomático.

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