Isto tá tudo fodido

Recém-chegada de Portugal (ontem) uma colega diz que aquilo por lá anda mau. Fala de gente com lanternas de pilha a pesquisar os caixotes de lixo à noite, semi-encapuçada e de golas subidas. De há um tempo para cá deixa – nas escadas de acesso ao prédio – os restos da comida do dia em caixas tupperware. Sempre é mais higiénico e mais digno – diz ela e eu concordo – que as pessoas comam dali e não do caixote. De manhã, apanha as caixas vazias. Quem dali come é suficientemente civilizado para proteger a simbiose. Que é como quem diz, para agradecer e respeitar a benevolência. E, se não come ali, volta mais tarde para deixar as caixas arrumadas.

Como o meu trabalho por ser intensivo em tempo e risco me dá períodos consideráveis de férias, há mais de uma década dispus-me a ajudar um amigo que lançava empresa própria. Engenheiro mecânico, com experiência de gestão no ramo, fundou a própria metalúrgica. Tinha camião próprio, mas não motorista a tempo inteiro já que o volume de entregas o não justificava. Contratava em dias avulso um motorista quando tinha necessidade.

Apercebi-me daquilo e dispus-me eu a fazer (quando a disponibilidade o permitia) esse serviço, já que tenho carta de pesados. Apercebi-me ainda de uma outra dificuldade com que ele se deparava: um motorista só conduz, um soldador só solda, e um pintor só pinta. O desenhador não corta. E ao mesmo desenhador parece-lhe mal que o homem do maçarico faça dois riscos e descubra uma bissectriz. A história de sempre em Portugal: a gente com dois seixos, três cavacos e um baldinho de areia faz um quintal e chama-lhe quinta, e veda logo aquilo à volta, e cola-lhe umas etiquetas e tal. De modo que lá lhe fui entregando umas coisas na barragem de Crestuma-Lever, em Birre, nas Cortiçadas de Lavre ou em Alcácer, conseguindo no geral fazer a carga e a descarga sozinho; sem aquela algazarra e complicação típica de quem precisa de mobilizar sete regimentos por dar morte a uma aranha.

Num desses dias em que carregava um tanque, surge um empresário local no Mercedes da praxe e ao ver sôdótores de fato-de-macaco e mãos encarvoiçadas em cima de um camião mexendo em correntes e cadernais não se conteve que não dissesse zombeteiro:

É pá, atão? Andas aqui? Tu és fodido pá. Agarras-te a tudo!

Lá por dentro das goelas e por trás do sorriso desdenhoso o pensamento era outro; que traduzido em vernáculo poderia ser «é preciso um gajo ser um tonto do caralho prá’andar a trabalhar de graça» ou, «parvo de merda», ou qualquer coisa do género.

A empresa do amigo fechou por uma série de circunstâncias e de guerras e guerrilhas que não vêm agora ao caso. E a do outro, empresário de sucesso e zombeteiro dos sete costados naquele tempo de mãos mimosas e números que nem cabritos luzidios em cabriolas pelos verdes do Exel, ucranianas de encomenda que só visto, casa recente comprada na praia «qu’isto é preciso investir algum», vai pela mesma vereda. Há meses atrás encontrei-o. Vendeu as cáminetes. No largo de gravilha as paletes do que vendia não vendem e ali estão os restos. E no meio, vai crescendo erva. O empilhador pouco circula. Desabafa:

É pá, isto tá tudo fodido pá! Estes cabrões deram cabo desta merda toda! Ninguém compra, ninguém paga, a malta não tem dinheiro…

Cá c´os botões pensei que tudo fodido já estava naquele tempo. Ele é que confundiu o cinto de segurança do Mercedes com um seguro de vida.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s