O canto das cotovias e a corda do relógio

Um escritor indignado a exigir a verdade dos números. Disseram em directo na tv que se os números verdadeiros da contabilidade governativa se souberem é a derrocada do sistema. A ser assim temo-la bonita. Se já se sabia que a verdade era escorregadia como matrafona, agora temos que fugir dela a sete pés ou rilha os fígados à res publica – replica o outro.

A verdade? O que quererá ele (ou todos nós) fazer com a verdade dos números depois de a saber? E quanto ao bagulho, uma coisa é saber quanto; outra é saber da «canalização» quem e como; e outra ainda, é saber onde está hoje e quem o detém; finalmente, e busílis da questão, o que fazer com isso. A verdade a saber-se é o dilúvio e a consumação dos tempos, as trompetas do Juízo Final. E depois? Prende-se metade da polícia, dos magistrados e dos advogados? Exila-se metade da administração pública pra lá da serra de Montesinho? Ou arrasam-se as casas solarengas do Minho reconstruídas com os dinheiros públicos que subsidiaram o turismo rural? E os montes de férias no Alentejo? Mas afinal aquilo não era para ser um projecto de horticultura? E àquela senhora cunhada do tal médico que lhe passou a baixa médica (por depressão de um ano e meio) para que ela conseguisse redigir o final da tese de doutoramento? Retira-se-lhe o título académico? E ao médico cunhado? Retira-se-lhe a licença? E expulsa-se da Ordem? Ao cabeça de lista por Braga nas últimas legislativas que ao ser eleito renuncia ao cargo no dia seguinte proíbe-se-lhe para o futuro o desempenho de cargo público? E a conhecer-se a verdade sobre as últimas eleições presidenciais, impugna-se o resultado e destitui-se o presidente já eleito? Fecha-se o CNE e o INE? Param-se os táxis e fecham-se os restaurantes porque ninguém passa recibo? Retira-se a carteira aos jornalistas depois de se saber quem lhes ordenou que plantassem as notícias? Fecham-se os bancos porque canalizaram o roubo e fuzilam-se os deputados que fizeram passar a legislação que o permitiu? Bombardeiam-se as sedes das sociedades de advogados que deram as instruções aos grupos parlamentares? Ou enforcam-se os lentes que ensinaram os advogados de tais sociedades e os economistas que gerem essa roleta de casino? Não vai haver corda suficiente…E depois cada um de nós aponta o revólver à têmpora porque o país é pequeno, todos se conhecem, e tudo se passou à frente dos olhos e debaixo do apêndice nasal de todos? A verdade seria catastrófica. A ponto de ser impraticável. Por isso ninguém a quer verdadeiramente. Perguntem aos professores universitários se querem fazer um teste de conhecimentos sobre as bibliografias obrigatórias e aconselhadas das cadeiras que ensinam e vão ver a resposta.

Imaginemos que de repente todos viéssemos a saber se o se o ADN dos nossos filhos é compatível com o nosso. Catástrofe! Cinco por cento das esposas esfaqueadas logo à tardinha antes de haver tempo de pôr o jantar ao lume! Vamos mais longe… de quem é aquele ADN do petiz e da petiza, filhos de tais mães? Nova catástrofe! Corre tudo á espingarda ou à forquilha e lá vai o melhor amigo, ou o merceeiro da esquina, ou o polícia de plantão ou o juiz da comarca… se escapar o padre da paróquia lui méme.  Vamos ainda mais longe… comparemos o nosso com os dos nossos pais: lá se vai a casa de família, a patronímica, e a memória feliz da infância de tanta gente. E a herança patrimonial! Desaba o mundo.

A verdade toda, todinha, é insuportável. A começar pelo nosso próprio desejo de verdade. Têm a certeza os senhores articulistas de periódico que os artigos de opinião que escrevem – e lhe são pagos a preços que só eles sabem – os escreveram eles, sempre e só eles, no todo ou em partes? Ou só corrigiram o rascunho da assistente? Ou da contratada para o efeito? E os artigos e a visibilidade devem-se a terem opinião relevante, ou a (por exemplo), serem uma forma de pagamento por outros serviços, pessoais ou em rede? Têm a certeza que àqueles que hoje culpam não são os mesmos que há quatro ou cinco anos atrás incensaram e a quem levantaram apoteoses? E que não almoçaram com eles em Fevereiro último ou Novembro passado em animada conversa e risinhos? O país é tão pequeno, e o tempo passa num ápice. A verdade dos números quando ainda há pouco se insurgiam em público contra o levantamento do sigilo bancário? Verdade? Digamos… uma solução deste tipo que aqui se descreve?

É que a gente vê tanta coisa. A gente vê gente a insurgir-se contra a intervenção do público no privado. E depois a gente vê que essa gente tem obra publicada. E vê numa capital de Estado brasileira, por lojas e lojas da mesma cadeia de livrarias, pilhas e pilhas dos livros publicados que se vendem em preços de saldo. Ou seja, excedentes. Rejeitados pelo mercado que tanto apregoam. Paradoxalmente, a gente abre-os e lá vem aquela fatídica frase:

Depois publicaram muito. E foram traduzidos em muitas línguas. E são muito lidos. E as cotovias nos eucaliptos cantam hossanas à glória do mundo. São uns desgraçados neste vale d’enganos – golpeados diariamente a rude golpe de chuço p’la mentira – uns mártires abnegados, que se batem pela verdade.

Não deixa no entanto de ser boa retórica, e até saudavelmente evocativo da melhor das literaturas. Lembra aquele Pray, my dear,’ quoth my mother, ‘have you not forgot to wind up the clock?’ – ‘Good G!-’ cried my father, making an exclamation, but taking care of moderate his voice at the same time, …

Sobre soliplass

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