Fraqueza

Raramente sonho. E um dia destes no mar fui sonhar com aquela tralha, com aquelas paredes de um episódio tão distante. Um sonho ou pesadelo em que passavam perante mim as mesmas paredes cobertas de ex-votos. É uma das imagens que carrego comigo de Portugal.

Era (suponho que ainda existirá) uma igreja isolada num descampado do Alto Alentejo. O sacristão, mostrava-me a mim e ao meu pai os sinais da importância da igreja, do número de devotos da padroeira ou padroeiro, dos quais o número (apenas uma parte do total) de ex-votos exibidos era a prova. Ia contando da importância que a igreja teve, especialmente no tempo da guerra ultramarina, e que gente de todo o Alentejo (talvez de outras zonas) ali acorria a pedir pelos seus e pelas suas aflições. Era impossível não ver uma panóplia de coisas ali deixadas em empenho pelas noivas ou namoradas dos soldados: tenho ideia (mas já não a certeza) que grinaldas, véus de noiva, fotos, etc. Os ouros (que o sacristão referiu), estariam a recato – imaginei – e certamente fora do seu alcance. Hoje ao ler este post e a frase “Se as minhas tias tinham namorado à distância os meus tios que estavam no Ultramar voltei a lembrar-me novamente do sítio.

O meu pai sempre foi um homem melhor do que eu. É uma certeza que cresce com os anos, e que nem sempre me foi evidente na altura dos factos. Tinha-me dito que (ao irmos buscar uma máquina de carregar madeira) o homem (o sacristão) lhe tinha pedido se lhe deixávamos alguma lenha. Eu, em princípio não me opus. Carreguei no camião dois dos motoserras; um de 50 c.c. para trabalho miúdo, e outro para árvores de grande porte de 125 c.c. Foi só ao ser exibido aquele estendal de dor pelas paredes, aquele testemunho da aflição humana na história recente que mudei de ideias. O sacristão, um homem franzino e pequeno (do género velhaco ou dançarino) bom psicólogo, lume no olho, avaliou tudo aquilo, e daquilo falou, não como prova material da aflição alheia, mas como fonte de rendimento. Não o comovia sequer a devoção com que as gentes na sua simplicidade imploravam por si e pelos seus. Media aquilo tudo em termos de rentabilidade. Disso viveu. Cá fora, chamei o meu pai de parte:

Nem pense que vou gastar gasolina e gasóleo com este filho da puta! Não viu já que isto é mau gado?

O meu pobre pai, coitado, acedeu que o outro não era grande coisa…

é pá, não sejas assim, coitados dos velhos, aqui sozinhos no meio deste penegral! Em meia hora fazes isso.

Referia-se à minha habilidade para trabalhar com a máquina e com os motoserras, a meia hora. E aos velhos, a ele, e a uma velha mulher franzina mas de aspecto são que aparentava setenta anos. Talvez menos. Tinha a placidez tão comum às mulheres que passaram uma vida de sofrimento. Olhos claros, que me caíram como uma bênção de bonomia. E de aceitação. Imaginei (dada a diferença entre os dois) o que a teria levado a viver ali no meio daquela solidão uma vida. E o que a ligaria àquele homem. O olhar claro tinha a segurança e a vastidão de um mar, o mesmo azul, que não precisa de deuses. Teria sido uma dessas mulheres devastadas por um primeiro amor (enganadas, ou “furadas” como se dizia em tempos) e que nenhum outro homem aceitasse já em casamento e ali tivesse sido aceite por aquele meio-homem? Não o soube. É possível, como é possível tanta outra coisa. Acho que por ela, pelos invernos frios, aceitei. Não sem resmungar primeiro:

É a gente a voltar costas e ele a rir-se de si e de mim, e da nossa parvoíce.

– Deixa lá, se rir riu; fazer o bem sem olhar a quem!

Ante o olhar inquisidor do outro face às manobras, fui-me a uns freixos e ulmeiros (que no Alentejo se dizem mosqueiros) a umas faias cardidas que já ostentavam buracos, e, ou arrancados pela raiz ou cortados pelo cepo, levantados pela máquina e trazidos a um pequeno terreiro, e com o potente motosserra de 125 c.c. fiz-lhe umas toneladas de boa lenha em picadinho. O meu pai obstava pelo miúdo do trabalho:

é pá, também não é preciso tão miúda!

Quer ver que é ele que a vai rachar e carregar não? Não vê que há-de ser um simplório qualquer que ele vai engatar para lhe vir aqui fazer isto? Ao menos, que tenha o trabalho mais fácil. Se isto é para ajudar desgraçados, ao menos ajuda-se o último.

O meio-homem lambia os beiços miúdos de contentamento. Destrinçando tudo com o olhar de bisturi. E lançava admirações ao ar, que belo trabalho, que máquinas potentes, que rapaz forte – eu, irado e aos vinte anos. Acabou-se o trabalho, carregou-se a máquina no camião. Chamaram-me. A pobre velha tinha na cozinha da casa contígua à igreja disposta uma mesa de toalha de linho, e sobre ela, pão bom, enchidos melhores, um grande naco de presunto que metia cobiça aos olhos. O olhar que pousou em mim, suado e sujo, era de verdadeiro agradecimento, de irmão, a voz calma no agradecer, sem sair do seu canto do lado de lá da mesa, pregada ao chão como prisioneira em solitária, só olhos e os olhos um oceano ao sol.

Pedi desculpa por não comer. Provei apenas do vinho. O vinho era bom, belíssimo, envelhecido, claro já, coado de todo o pique ácido que teria tido em novo. Ao velho traziam do bom. Assim que o vinho tocou na boca lembrei-me de novo das paredes da igreja, daquele comércio mostrado sem que fosse aventado um nome, uma história, sem que tivesse lançado um olhar mais parado a um artefacto qualquer que desse mostra de que se lembrasse uma pessoa ou episódio. Que algo daquilo ali exposto o tivesse comovido. Dei meia volta e corri escada abaixo (quatro ou cinco degraus ladeados por uma pequena parede que servia de corrimão) a ajoelhar-me na poeira e a cuspir o vinho no meio dos arranques de vómito. «Caiu-lhe na fraqueza» desculpava-se o meu pai.

Sobre soliplass

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2 respostas a Fraqueza

  1. A Igreja chama-se Santuário de Nossa Senhora de Aires e fica em Viana do Alentejo. A certeza advém de ter sido casada com um natural da terra e ter lá ido várias vezes. Apenas uma, a primeira, acedi na visita guiada e percebo perfeitamente o texto. Impressiona-me aquela despensa de dor, aquela arrecadação do passado, aquele sotão de memórias, com duas gigantes peles de cobra que alguém ofereceu grato por milagre, mas impressiona-me ainda mais o preto e branco (que agora vai sendo mesclado de alguma cor) das fotografias por me lembrarem memoriais de campos de concentração.

  2. soliplass diz:

    Não é essa amiga. É uma que fica num descampado longe de qualquer lugar habitado. Um dia destes disseram-me o nome (um conhecido) mas não me lembro de momento. O edifício é singelo, nada da monumentalidade da de Viana.

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