Manhã de ceifa

Houve aquele dia do início de Maio há vinte anos em que o meu pai (sempre melhor homem do que eu) olhou o choupal que despontava no chão da antiga vinha arrancada, e demorando-se num ou noutro choupo em particular disse: «tão tã bonitos coitadinhos! é uma pena meter aqui a gadanheira: dá-se cabo de metade! mas tá aqui pasto tão bom…»

Farto de fábricas, caganças e importâncias de pés de barro da família de adopção agarrei a «janela de oportunidade» de ver o colosso que sempre pareceu de aço – tanto no corpo como no espírito – a gadanhar à minha frente, ora num pé ora no outro, como o capitão (interpretado por Trevor Howard) que causou a revolta da Bounty no famoso filme com Marlon Brando. Perguntei pelas gadanhas, se as picava, que no próximo sábado cá estaria e em menos de um fósforo alagávamos aquele bamburral de erva tenra. Por uma manhã fresca de trabalho duro ao lado daquele homem bom, um farnel de pão e presunto, queijo de cabra, e pinga boa escorropichada de uma cabaça estava capaz de dar “o cu e cinco tostões” como soi dizer-se. Fazia-me falta terra minha debaixo dos pés, cheiros conhecidos a cada ano, músculos cansados e cabeça vazia.

«Éos dos dedos róseos a que os Latinos chamam Aurora» (gosto desta frase do arquipélago apesar de trágica, e agora porventura mal citada porque de memória) ainda mal se adivinhava no escuro a Leste, quando os quatro cilindros da potente Yamaha começaram o ronronrar certinho. Deixei a vila industrial e o ar viciado, cruzei os eucaliptais e o o maquis, com a mistura de cheiros, de cortiças e aroeiras. À primeira grande recta que cruzava um eucaliptal, soltei os 130 cavalos ao bicho vermelho e branco, que, num sopro potente chegou a velocidade desaconselhável. Procurei o ponto morto e desliguei a chave. O motor calou-se, ficou o deslizar num vento fresco e denso carregado de aroma matinal, levemente amargo, dos eucaliptos. Havia a primeira curva à esquerda, não havia sinal de luzes ou som de motor, puxei o corpo para fora, o joelho quase a roçar no chão, calculei a trajectória mais rápida cortando a curva por dentro. Àquela hora de gatos pardos, quando já deitado a aproveitar a curva ao máximo, passei por uma formigueiro de corpos e gritos. Lembrei-me de tudo menos dos peregrinos que por essa época iam para Fátima e aproveitavam o fresco. Por milagre ou sorte, nenhum deles estava na trajectória. Não haveria tempo de desvios, ou força para mover a inércia de duzentos quilos quase à velocidade de bala.

Passado o susto, religada a ignição, voltei para trás preocupado, para saber se alguém tinha ficado (mesmo não tendo havido toque) ferido ou magoado. Não tive tempo de engrenar a mudança seguinte. Parei, frente à cortina de pedras que caíam e saltitavam na estrada à minha frente, animadas do mais puro espírito cristão. Os homens arremessavam, elas catavam seixos da berma e davam serventia à catapulta masculina. Gritos e esgares, rostos contorcidos. Nada a fazer. Meia dúzia de anos antes, Cláudio Magris no Danúbio tinha descrito um retiro de meditação do burocrata do massacre, Adolf Eichmann, num mosteiro bávaro. Ao assinar o livro de visitas de Windberg o futuro criminoso da deportação escreveu true um true, (a fé pela fé), em 7 de Maio de 1934.

Nunca soube se Deus existe. Existindo, não creio que chegue aos calcanhares daquele camponês velho de gadanha, preocupado com os choupos da sua criação e não ficar atrás na metade do trabalho que lhe calhava. Aquela puta de manhã valeu uma vida. Fui rico por umas horas.

Sobre soliplass

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