Boa Páscoa meu irmão

 

Guardo galerias de fotos – no mais dos casos desenxabidas – tiradas ao acaso. É uma forma de voltar atrás e vaguear de novo por um labirinto de dias. De recordar gente que por vezes lá não figura mas estava lá.

Na sua novela On the Black Hill Bruce Chatwin descreve a cena dos dois velhos gémeos Benjamin e Lewis que movem retratos de família na parede da cozinha para encaixar a foto aérea da quinta depois do voo comemorativo do aniversário dos octagenários: «for a all week, the twins bickered and juggled and lifted uncles and cousins of hooks that had been theirs for sexty years». Volto frequentemente às do aeroporto de Barajas da tarde de 14 de Maio em 2009. Essa será a viagem mais importante e decisiva que fiz na vida. Foi lá que encontrei o homem brasileiro de camisola de alças branca que voltava de vez ao seu país, o voo comprado por impulso, revoltado. Ele não sai daquela foto como os uncles and cousins de Chatwin «in hooks that had been theirs».

Voltava revoltado com Portugal. E a mim, o português bem vestido que se tinha esquecido de comprar cigarros até que as lojas fechassem, nas três ou quatro horas antes de o voo para S. Paulo partir, franqueou-me quase um maço dos seus enquanto íamos conversando. A vida é injusta, e a estes pequenos gestos de generosidade não podemos fazer honra suficiente – seja por actos ou por palavras. Sim, notei-lhe a bagagem barata de homem poupado, a roupa governada de quem veio trabalhar e poupar.

Criou-me o meu pai com uma responsabilidade enorme, a par da outra que foi, em tenra idade, aprender a manejar as armas de caça: disse-me desde cedo onde estava escondida a caixa do dinheiro para governo da família. E que nunca andasse sem dinheiro. Franqueada a velha caixa de lata (que tinha sido de biscoitos) com uma quantia flutuante mas que era no geral relativamente abundante, foi deixado a mim o discernimento de avaliar a justa medida, a largueza ou a parcimónia. Por isso, desde cedo também comecei a ganhar uns dias por ali ou acolá ao fim-de-semana, nos intervalos das aulas do Liceu. O provento dessas jornas era o meu dinheiro privado, ao passo que o outro era uma espécie de património comum que vindicava outro tipo de gestão.

Um dos trabalhos mais fáceis de conseguir era a carga de camiões pelos cortes dos eucaliptais: a carga de faxina (como era designado o toro ainda verde de dois metros) destinada às fábricas de celulose. Aquilo que poderia parecer um penadoiro foi no fundo uma bênção. Trabalho repetitivo e de resistência que desde cedo me providenciou com mãos e braços seguros. Seguros, no sentido de bons instrumentos: perto de competentes a ajoelhar uma mula com um murro na testa. Foi também uma boa universidade de psicologia; trabalho de parelha, requeria um bom parceiro. Nem todos o eram. Os que o eram conheciam-se pela linguagem gestual, pelo olhar. Um desses era o Manuel. Antigo resineiro, vindo do Couço, magro e seco, alegre, uma grua – puro aço. Nunca se lhe conheceu um pingo de gordura debaixo da pele. Tudo aquilo era uma alegre peça mecânica; nas esquinas dos dois ombros, uns deltóides de arestas vincadas. Nunca teve de seu. Nem o assinar o nome. Nos últimos anos de vida tinha uma horta em terreno arrendado, a sua menina dos olhos. E por cima, uma represa com peixes. Tinha rixa mortal – a golpe de cana – com as cobras d’água, que lhe davam cabo daquele seu gado favorito, esguio e cintilante que espiava deleitado por entre o carriço.

Um dia esbarrou-lhe um pé ao tentear o golpe da cana. Não sabia nadar. Chamou-me a mulher, a meio da tarde de Verão. Tarde cheguei. Estava já roxo e frio, semi-submerso. Traçado com o braço esquerdo contra o meu peito – a carne das costas ainda mole – esgatanhei com o direito pela margem barrenta e escorregadia acima, para o deitar no pequeno dique, de costas, ao sol. Nada a fazer. Calculo que teriam passado quinze ou vinte minutos desde que a mulher abalara espavorida aos uivos no caminho entre os pinhais rumo à aldeia.

O vento levantava-se vindo do mar, ao de leve ainda. Sob o sol intenso os pequenos combros desenhados a enxada-rasa, batidos a cordel, geométricos, delimitavam os talhões de feijoeiros e pimentões, melão e outros mimos, na horta abaixo. Houve um sentimento de beleza perante aquilo: a beleza que ele teria visto ao chegar de enxada ao ombro à sua terra (e à primeira terra como que sua) de desapossado e pobre. A passagem da singeleza (e de uma espécie de solidão) que advém de só se ter o trabalho das mãos e dos braços para vender para aquele casamento entre terra e homem, que é fértil, e um abrigo contra as guinadas da vida. E houve um sentimento de revolta contra a injustiça daquilo. Os olhos inertes e baços (foi a mulher que lhos fechou daí a pouco) as narinas voltadas ao sol deveriam ter visto aquilo, cheirado aquilo, por mais uns anos. A sua jeira, e os pinhais à volta, os peixes furtivos entre o carriço e o abrir à navalha a primeira melancia oferecida nesse ano, o vermelho sumarento a aparecer da casca verde azulada. Maldisse-lhe o país que o trouxe descalço e analfabeto a resinar; o alívio do vinho a que nunca mostrou moderação por aí além, e que naquela tarde talvez tivesse sido uma das causas do esbarrão fatal. O cão branco com um dos olhos circundado numa malha preta – que lhe valia o cognome de Luís de Camões – sentava-se ao seu lado e farejava a pele, voltava-se para nós, perdido… gania ao de leve. Levantava-se e dava a volta, voltava para trás sobre o talude de barro onde crescia uma erva esparsa e semi-seca. Nas oliveiras próximas plantadas sobre areão e piçarra pobre sombreando esparso sobre o feno ressequido, esbranquiçadas no calor da tarde, as cigarras juntavam o ressequido do canto. Estridência a contrastar com silêncio. Secura a contrastar com a mancha de água debaixo do corpo inerte de troco nu que humedecia o barro. O brilho luminoso do sol da tarde sobre terra e  árvores e o frio adivinhado sobre os lábios semi-abertos e arroxeados.

Simpatizaria sempre com o homem brasileiro de camisola de alças brancas. O corpo era desenhado como o do velho Manuel, vinte anos mais novo. Compreendia-se. Tinha trabalhado a assentar cabo. Puxado quilómetros e quilómetros de cabo ao sol e à chuva. O último trabalho em Portugal. Não se queixou da dureza. Ou do pago. Queixou-se de uma coisa mais funda. Do desprezo pelo sotaque que era o seu. Pelo desdém arremessado invariavelmente face a uma sua sugestão de melhorar ou tornar mais fácil, ou mais eficiente, o trabalho. Era o que lhe doía. E o que contava enquanto lhe fui fumando os cigarros. Chovia-me nos ouvidos sobre o molhado. Com a sensação de não ter ele ouvido da missa a metade, apesar de ter captado o tom da litania. Falava, é claro, desse gado daninho que espezinha e escarnece de tudo e de quantos mostram decência e boa vontade. O eterno e sempre o mesmo. O mesmo que trouxe o velho Manuel analfabeto, que o fez crescer ao som das praças de jorna do Couço, e que lhe fez parecer uma nesga de terra, e um cão aos calcanhares, o paraíso.

Vi pela última vez o homem brasileiro que se afastava rumo à saída do aeroporto de São Paulo; as portas automáticas abriram-se, saiu para o ar abafado e ainda escuro da madrugada. Em frente do piso inferior os vultos dos pés de palmeira que bordejam o estacionamento defronte destacavam-se já. Iria de autocarro vinte ou trinta horas rumo ao norte. Tinha falado de «minha mãe», de costela ou de cupim, «pra um churrasquinho».

Ainda me dói aquele orgulho ferido. Por gente que – incapaz de orgulho -, só conhece a vaidade. Gente que tem um dia de comemorar Camões e lhe desconhece o verso «que é fraqueza entre ovelhas ser leão». Um povo de ovelhas que depois de uma das mais promissoras revoluções europeias criou o mais abjecto governo de lobos. Ou de hienas. Que nos roubam, não só o pão – que isso é o menos – mas o que sabemos. E vemos. Vergonha da Europa, um país que – de vaidade em vaidade -, chegou ao estatuto de mendigo. Povo que rebola na poeira, papagueando rezas vazias frente a um boneco de pau pregado numa cruz, ou a uma nuvem que pastores viram numa azinheira, e é incapaz de estender a mão a um humilhado de carne e osso a seu lado.

Onde quer que estejas nesse sertão do norte, meu irmão, ainda que seja em letras que não lerás, agradeço-te os cigarros de que não me esqueci. Que tenhas uma boa Páscoa e te veja ainda essa tua «minha mãe».

Sobre soliplass

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2 respostas a Boa Páscoa meu irmão

  1. Que texto este seu, senhor. Com que comoção o escreveu que, anos depois, a gente que o lê e que não conheceu essa dor, a sente também.

  2. soliplass diz:

    Já percebeu então a razão do convite. O Manuel teria gostado de ler as razões de um jeito manso. E também o gajo que andou a assentar cabo e ia dorido.

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