Dos sangramentos e da estatística

Ainda ia apontar com o dedo o escaparate poeirento de onde pesquei num sebo de Curitiba o Yogi e o Comissário de Koelster. Contém – entre outras coisas do tempo -, a visita guiada ao campo onde este esteve detido (Le Vernet) do artigo The Scum of the Earth – 1942, originalmente publicado no Evening Standard em Junho de 42. Não é a primeira impressão da Mcmillan, mas aproxima-se: é a quarta, de 1946.

Lia há uns dias atrás um dia destes o post onde o Sr. Pitta, com rebolada abundância de nádegas e parcelas,  em volumosa refrega e acesa pegadilha se lança aos alferes e cabos-de-guarda da guarnição de prestamistas e marafonas – os que trazem montado aparente trem de guerra na oposta margem do mesmo rio -, sobre os números do desemprego. Saltou imediatamente à memória a frase do artigo (originalmente publicado no NY Times em Janeiro de 1944) com o título In Desbelieving Atrocities: a frase «Statistics don’t bleed; it is the detail which count.» Deixo em fotos aos leitores interessados o artigo completo, que podem ler clicando nas fotos para as aumentar. É uma reflexão e um artigo emblemático (diria que um importante documento histórico) a respeito do passado recente sobre a nossa incapacidade colectiva de lidarmos com os grandes números que trazem sofrimento de gente por trás, não eufemismos.

Comparam-se ali, no post do Sr. Pitta com a etiqueta «desemprego», os números do desemprego espanhol e português, para se concluir que ainda assim não estamos tão mal… ah, «the gray owl eyes of Athetna», como disse Joyce a Beach naquele dia de Julho de 1920. Dez por cento por comparação com vinte por cento, uns milhares comparados com uns milhões.

Este tipo de argumentação, desculpabilizante de uns e retiradora do tapete argumentativo de outros, parece-me a mim que não vale o coçar dos colhões a burro velho. A nutrida safra de contabilidades, que como de costume vem guarnecida de sagacíssimos ditos e profundos predicados, não passa, é claro, do meter a costumeira estopa ao brigue onde tem andado embarcado; e ao qual o contramestre engenheiro tem deixado rombo de truz. Mera arte de calafate, este pontapear do desemprego aos castelhanos.

Soljenitsine, para dar uma imagem do sacrifício humano que custou a construção da linha férrea Kolima-Vorkuta na Sibéria dos tempos estalinistas (um paraíso de amenidades) disse-nos com risco da própria vida (esse era o custo de dizer esse tipo de coisas) que por metro de carril assente tinham ficado dois corpos.

É uma imagem sugestiva, e vale mais que todos os números. Dois corpos, roídos pela fome, pelo frio e pelo desespero, que finalmente caíam, por metro de carril assente. Se cada corpo ocupar meio metro quando deitado, temos uma linha férrea inteiramente assente sobre corpos. Talvez a imagem seja útil para o número de desempregados em Portugal e para trazer a coisa à perspectiva humana desde as folhas de Exel e desde os artigos de blogs ou de jornal, escritos no conforto do gabinete ou do sofá lá de casa, cafezinho ao lado.

A usarmos o método de Soljenitsine, temos que o número de desempregados em Portugal (600.000) daria para estender sobre os seus corpos deitados no chão (ocupando cada corpo meio metro) e em jeito de travessas, uma via-férrea de trezentos quilómetros; mais ou menos de Lisboa ao Porto. Mas trezentos quilómetros de via-férrea nada são, de phones nos ouvidos e música favorita no iPod, cafezinho servido e o jornal ou um livro por entretém, sentados nas poltronas confortáveis do Alfa e a perspectiva de um sorriso afável à espera em Campanhã. Isso seria coisa de pouco mais de duas horas e picos, uma bagatela entre afazeres de distribuir ao povo o traseiro e a literatura, deslizando sobre corpos à velocidade de quatrocentos belzebus a que aquilo anda.

Para terem a dimensão humana do problema, e depois falar então do desemprego, o Sr. Pitta (repelente criatura) ou outros, deveriam ser obrigados a caminhar essa linha férrea imaginária. A passos de meio metro, um pé à frente do outro, um pé sobre cada corpo. Oriente, Moscavide, Sacavém, Bobadela, Alverca, Alhandra, Vila Franca, Carregado, Mecrês, Setil, Vale de Santarém, Entroncamento, Caxarias, Pombal… etc. Em silêncio e sozinhos com os seus pensamentos. E ao lado dessa via-férrea, para melhor mostra da nova forma de Scum of the Earth (versão contemporânea) deveriam estar como espectadores da viagem as mães e os pais dos estendidos, a mulheres ou os maridos, com os filhos pela mão, e alguns netos já. Nada de phones nos ouvidos, para irem ouvindo os comentários e os queixumes, e as esperanças desfeitas. E depois comparar então com os milhões castelhanos. Nada de cafezinhos ao lado, nem gráficos estatísticos, para que sentissem os aromas dos corpos um a um. Mas talvez fosse demais e uma terrível fadiga ou amofinação para narizes e ouvidos delicados.

Sobre soliplass

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