Exportações de Sibilas e outros artefactos

É incompreensível o déficite exportativo. A gente poderia exportar moldes e patentes de Lilis Caneças com que outros povos podiam aparelhar desenvolvimentos da arte capilar e até da do curtume; e a gente poderia exportar os prognósticos de gente que lembra as sibilas da antiguidade. Como as gregas, dentre elas a famosa de Eritreia que profeciamentava para Hecuba, rainha de Tróia antes da conquista desta cidade mítica. Ou as romanas; como a famosa Sibila de Cumae, na Campânia, que Virgílio representou visitada por Eneias a quem conduziu ao submundo através da gruta de Avernus, no livro VI da Eneida. Ficaram desse alfarrábio os versos famosos:
Tu regere imperio populus, Romane, memento;
hae tibi erunt artes: pacisque imponere morem,
parcere subiectis, et debelare superbos.

É que isto poderia render boas divisas. De acordo com a lenda, a Sibila de Cumae ofereceu a alto preço nove livros de profecias a Traquinius Superbus, último rei de Roma. Quando este recusou, queimou três, e ofereceu o restante ao mesmo preço. Nova recusa, mais três foram queimados. O rei acedeu, e comprou os restantes ao preço original, os Libri Sibyllini. Explicação lendária aparte, tais livros, esses ou outros, existiram de facto, sob o templo de Jupiter no Capitolino. Quando foram destruídos pelo fogo no ano de 83 A.C., novos emissários foram enviados a várias partes do território para nova colheita de oráculos, que vieram a ser depositados por Augusto no templo de Apolo no monte Palatino, sendo a sua última consulta conhecida a do ano 363. O que prova a importância das suas previsões. Quanto a sibilas e suas atracções, a história também que conta que o deus Apolo lhe teria oferecido uma vez tudo o que desejasse em troca de o deixar ser seu amante. Acedeu, pedindo tantos anos de vida como grãos de areia se encontravam num monte de dejectos varridos. Eram mil. Esqueceu-se no entanto de pedir eterna juventude para viver os mil anos. É assim que no Satiricon de Petrónio, Trimalquião conta que a teria visto, dependurada do tecto. Sob pena de um dia destes o tecto público desabar por obra e peso de tanta sibila milenar, era conveniente também, a exportação delas. Digo eu…

Poderia a gente exportar certas Sibilas porque ao contrário do preceito virgiliano, as artes romanas desta sibilagem não são impor a paz, poupar os submissos e debelar os soberbos; antes o inverso: dar guerra à parte submissa e poupar a soberba. Poderiam por isso ser exportadas sem dano aos Islandeses, aos Papuanos e aos Surinameses. E aos Lapões que padecem de invernias longas e tédio correlato sem mais que se entreterem que o espirro libidinoso das renas que por lá chamam brunstcomo se pode ver plasmado em letra de lei pelo parlamento Sami. Pelo que sempre teriam leitura deleitosa e entretenidora. Era também um acto de solidariedade internacional e contributo para a edificação dos povos; talvez até dos tipunambás que nos tédios dos brasis, outro desporto lhes não fica que o desbarato de zarabatana no guerrear da onça.

De entre as sibilagens de cá, tomo a liberdade de citar um exemplo dos mais alevantados; o Artigo de Medeiros Ferreira do início de Setembro passado:

«Cavaco Silva fez esta semana um movimento de mestre: veio pressionar as moedas de troca, boas ou más, que constituem uma maioria na AR, a dotar o Estado de um orçamento aceitável no exterior, e adequado ao curto prazo no interior. Forçou assim a mão a Passos Coelho, que saltitava de comício em comício anunciando a crise orçamental em cima das presidenciais. Ora o melhor a partir de agora é o PSD virar a página do Pontal, começar a redigir a declaração de voto de abstenção na generalidade da proposta governamental e reservar-se para a batalha das emendas na especialidade. Sempre acreditei mais na cooperação táctica entre o PR e o Governo do que na cooperação estratégica, que era filha daquele encanto que a fortuna não deixa durar muito. Pois é de cooperação táctica que se trata na questão orçamental para 2011. Por isso ela funcionará. Mesmo que ninguém saiba ao certo quem cederá em termos de filosofia financeira. Mesmo que Cavaco, depois de se ter posicionado como mediador orçamental, admita no seu íntimo que os compromissos necessários para uma campanha triunfal possam requerer um diploma rectificativo para depois da reeleição presidencial. Ele sabe, melhor do que muitos, que a economia política muitas vezes é sobretudo política. Passos Coelho ou aprende depressa ou já não estará cá para a lavagem dos cestos.»

Percebeu o leitor típico do Correio da Manhã o lustroso professor e saliente arqui-trave do firmamento cogitativo? Na altura, ou hoje, quando se desenrolaram já os cenários de tão preclaro pensamento? A cooperação táctica, a cooperação estratégica, e a jogada de mestre? Virar a página do Pontal? A economia política, a política e a campanha triunfal, a filosofia financeira, o medidor orçamental, a especialidade e a generalidade? Da lavagem dos cestos, claro está!

Creio eu, que muito adiantaria a povos mais remotos o mastigar destes especiosos alcaçuzes. Era grande benefício a sua exportação. Seria, não apenas fonte de lucro como um grande alívio e profilaxia  para a nação. É que as gentes de cá ao lerem isto correm risco de apneia. Ou, no caso de não baterem a bota por insuficiência de ventos, desabafar citando um papagaio de marujo: C’um Caralho! É que fica uma alma cristã mais roxa que procissão em Semana Santa.

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