O sebo não é um lugar de desordem

Quando há dois anos vim morar para o Brasil descobri aquele mundo especial dos sebos – que é afinal muito diferente dos alfarrabistas do norte da Europa a que estou habituado e onde se encontram estas preciosidades assinadas. Não conheço muito os do norte do Brasil, fico-me geralmente pelos dos sul; o que chega para arruinar um cristão se não há tento na carteira ou no cartão bancário. A minha mulher vê-me chegar a casa com coisas perto da transformação de estado sólido a gasoso (i.e., a uma nuvem de poeira) e diz que «mas isto não é normal!». Normal, não seria o ter encarado com um excêntrico descabeçado que trabalha do outro lado do mundo, e à árvore familiar de italianos e irlandeses vir agora juntar mais um campónio português que lhe aparece em casa de botas de cano alto feitas por um sapateiro de Alcanhões. Mas vá lá a gente discutir com advogados… defendo-lhe-me os sebos e as horas que passo no garimpo dos alfarrábios à minha moda desajeitada…

E nunca até hoje descobri uma forma tão exacta e económica de definição desses lugares de perdição como a que é dita no vídeo-reportagem abaixo por Paulo da Costa do Sebo Fígaro em Curitiba: Para que serve um sebo?… não é um lugar de sujeira (diz o livreiro) «mas um lugar mágico de passagem de coisas de uma geração para a outra» … «aqui é um lugar onde a memória é cuidada»… Deliciei-me a ver isto. Esta forma de falar de quem orienta mais do que um lugar de comércio, um lugar de missão. Em alguns casos, há homens que encontram livros, noutros há livros (sortudos) que encontram homens. É o caso.

Sobre soliplass

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2 respostas a O sebo não é um lugar de desordem

  1. há pessoas que encontram livros, há livros que encontram pessoas. bem sei que o ‘homem’ é genérico, mas apeteceu-me pessoalizar a coisa.

  2. soliplass diz:

    E pessoalizaste muito bem. É só que o vocábulo «homem», para além de contar com aquele limite inferior que lhe definiu Primo Levi, permite-nos ainda o luxo da gradação entre o homem, a homlinha e a homlete…

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