O nome, a fama, e a duplicidade deles

Decidi quando comecei isto fazê-lo de forma não assinada – só um ingénuo “tótó” acreditaria hoje no anonimato – sendo uma das razões o “não fulanizar”. Demasiado se fulaniza entre nós. A outra é porque não me move ser conhecido ou célebre. O mundo já celebrizou demasiada gente avariada da moleirinha…

Ao passar há quase dois anos por Linhares da Beira, lá tirei a foto da pequena praça em frente do castelo, batida ao acaso. Creio que só ali me aproximei da celebridade, e pelo espaço fugaz de um ano. A casa do Ti Mimoso (um café saudoso que foi casa dos voadores livres que ali abancavam ao cuidado dele e daquela santa – a Ti Helena) vendeu por um ano o vinho que levou o meu nome. Estive por ali uns dias de final de Verão à espera de ventos que não havia meio de amainarem. Não havendo ventos suaves havia vindima, e a do Ti Mimoso de permeio. O bom homem que gostava de mim, lá se deixou ajudar no carrego dos cestos, na pisa das uvas, e até na lavagem das pipas, coisa que foi feita ali no largo com água da levada que – vinda lá de cima da serra sem mácula – creio que ainda hoje se possa beber a céu aberto.

Feita a pisa das uvas, verifiquei com espanto que ali em Linhares quem fazia o vinho não usava densímetro, ou escala de baumé, instrumento útil para medir o grau de açucar do mosto no lagar; para que não desça de um certo nível de açúcar. Marcavam, isso sim, três dias – decorridos os quais envasilhavam. Provado que foi o mosto a lambidela de dedo, à noite aquando da última pisa, disse ao Ti Mimoso que se fosse eu o envasilharia ali naquela altura em vez de esperar pela manhã. A decisão, na prova lá por Novembro, revelou-se menos má. Estava ali uma mistura tintoleira de truz. E o vinho levou nesse ano o meu nome, coisa que decerto não deixou registo nos anais de Linhares. O que se compreende, porque parte dele se consumiu em excessos e demasias inconfessáveis e trambolhosas. Foi essa a história da minha fama fugaz, tanto quanto sei, a única.

Como no mundo helás … nada é linear (especialmente a trajectória daqueles que bem carregados pelo tinto tentam alcançar do banco da taberna os lençóis) imagino que nem essa fama foi consensual – ainda que no que toca à mesma pessoa evocando o afamado.

Ríamos à sucapa de um ou outro maduro que despedia rua abaixo tenteando as paredes por carta de navegação. Se me gabaram o nome ao beber tais infusões (e que apenas dele tinham baptismo, não de água) ao enfrentar os pisos irregulares e escadarias locais (não vale a pena mencionar a carranca da consorte) imagino quantos o maldisseram a língua frouxa e passo incerto.

Sobre soliplass

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2 respostas a O nome, a fama, e a duplicidade deles

  1. Vim retribuir o honroso comentário e me deparei com este ótimo blog de belíssima escrita. Muito bom trabalho!

  2. soliplass diz:

    Tudo a bem do nefelibatismo confrade, e em alto grau grato pela sua visita. Pena é que não possamos discutir estes assuntos à volta de uns copos de tinto similares aos que aqui se croniqueiam nesta maravilhosa aldeia da Serra da Estrela, quase parada no tempo e pouso predilecto (também descolagem) dos que se dedicam ao voo livre. Por curiosidade e já que o nefelibatismo nos é comum pode vê-a lá de cima das nuvens neste post onde há umas fotos antigas: https://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2011/01/04/cronica-da-primeira-nuvem/

    Um abraço nefelibático e cordial

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