Gadanhas

Sábado, para lá da pequena área ajardinada da jurisdição da consorte, estendia-se o capinal que vem tomando conta do quintalório. Vai-se a gente a uma gadanha, instrumento a que no Paraná chamam alfange, com o risco de nos virem de quando em vez trazer uma Antártica Sub-Zero geladinha, e de ouvir elogios como «cê tá um verdadeiro colono».

Refiro isto claro para desenjoar de literatices, e de moralismos do CDS que sem favor se podem juntar à compilação de máximas morais portuguesas. Máximas sempre ilustres, onde figuram entre outras as de um famoso diálogo – “Ai senhor arquitecto, tenha cuidado” – despertadas por lápis que da forma redonda mostrou maior apetite que o da mítica cimitarra do El Cid pelas carnes da moirama…, e merecem ser escritas a letras d’oiro nas regras do bom viver. Gadanha é, mais do que um assunto baixo, um assunto de baixa gente. Como eu, e que fique escrito à guisa de confissão para facilidade de um ou outro juiz d’almas que aqui caia.

Gadanha, é um instrumento desusado -requer imersa em água pedra de amolar em corno à cintura, sítio impróprio p’ra chavelhos – e instrumento a que Albrecht Dürer deu má fama. Mas é eficiente. Entre nós é quase desconhecido – povo que Fernando Pessoa disse só de príncipes na vida e de outros não tinha notícia – a não ser é claro (povo de iluminados) pela iluminura das Les très riches heures du duc de Berry, que ilustra os trabalhos de Junho.

De gadanhas conhecemos quando muito aquela da vida daquele D. Gregório, que a teve de sobrenome na novela picaresca de Antonio Enríquez Gómez. Novela onde se deixou um bom retrato de um vendeiro da Serra Morena – o tal que trazia por barba um bosque etíope e ceifava com os olhos vidas.

Campónios como eu nutrem no entanto uma admiração sem limites por este instrumento simples e eficaz, que como certos aparelhos de ginásio nos fazem – através das dores no dia seguinte – descobrir partes da musculatura que desconhecíamos ter. Gente como eu, que não faz vida da literatura mas a estima, gostará talvez dos últimos versos do soneto 60 de Shakespeare que dizem à gadanha do tempo nada escapar… tirando é claro, a esperança de perdurarem os versos apologéticos.

Like as the waves make towards the pebbled shore,
So do our minutes hasten to their end,
Each changing place with that which goes before
In sequent toil all forwards do contend.
Nativity, once in the main of light,
Crawls to maturity, wherewith, being crowned,
Crooked eclipses ‘gainst his glory fight
And Time that gave, doth now his gift confound.
Time doth transfix the flourish set on youth,
And delves the parallels in beauty’s brow,
Feeds on the rarities of natures truth,
And nothing stands but for his scythe to mow;
And yet, to times, in hope, my verse shall stand,
Praising thy worth, despite his cruel hand.

Sobre soliplass

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2 respostas a Gadanhas

  1. Eh, bandeirante! Homem perigoso de gadanha na mão! Ele é agricultura, ele é navegante! Apenas à estupidez tem aversão!

  2. soliplass diz:

    Perigoso só para a erva daninha… aquilo é uma maravilha. Barato, fiável (não necessita de fios eléctricos atrás ou de gasolinas e óleos, limpeza de vela e filtros, etc.) e ecológico… não agride os trinados do passaredo, e que seria da vida sem a voz dos melros, toutinegras e cucos?

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