Civilização e Barbárie


Sobre a civilização e a barbárie, e as definições de cada um dos termos, a sua relação recíproca, interdependência ou oposição, poder-se-ia escrever tratados infindos, constatando factos e construindo especulações. Vivemos porém a urgência do tempo. Talvez a consciência do tempo finito (o tempo de vida que se esvai) seja o que verdadeiramente dá o sentido às palavras, tornando os termos importantes; isto é, urgentes, à escala do tempo humano. Num tempo infinito, tudo poderia ser dito ou calado a um determinado momento, porque nada seria urgente. Teríamos todo o tempo do mundo. Dizer hoje, ou deixar para dizer amanhã, seria irrelevante. Talvez mesmo, o ouvir (e recordar) fosse irrelevante.

De Eduardo Galeano, há este livro com um nome sugestivo, Bocas do Tempo. E nele uma pequena história, intitulada Civilização e Barbárie. A pequena história é de uma ironia magistral porque inverte também os sentidos convencionais dos termos que de ordinário lhes chegam de sinais exteriores. Tenho apenas a tradução inglesa, gostava de deitar unhas à edição em espanhol. É um texto inesquecível. As frases curtas que contrastam com a mais longa de todas, um parágrafo inteiro que descreve as mercadorias da velha mulher, e, onde na evocação de cada uma delas se parece espelhar o tempo de vida não apenas da própria mulher, mas de todo um povo (From other villages, women carrying…, terceira linha) com as suas tradições de cores e formas de artefactos, de vir vender e trocar; e não apenas mercadorias.

Com esse pequeno parágrafo, com essa frase longa, com a evocação da idade da mulher, com a enumeração dos artigos expostos no chão, Galeano constrói como que um espelho onde se reflecte toda a acção da história, descrita em frases curtas. Há a sugestão do tempo humano individual – o tempo imediato daquele dia vivido pelos personagens da história, a velha mulher e o turista – e o outro tempo mais longo de que os artefactos (e os produtos da terra) são a prova e o testemunho, não apenas nas suas formas e cores, mas também na razão de estarem ali expostos no chão; a troca. A necessidade de troca, de compra e de venda, não é apenas uma necessidade individual, é uma necessidade colectiva; uma necessidade que ultrapassa o tempo de cada um, que subsiste num tempo mais vasto. Num mercado, há algo de deliberativo. Num mercado conta-se uma história (eu fiz isto) e ouve-se a história (aquilo que tu fizeste tem um valor para mim) avaliando-se o tempo e esforço do fabricante em comparação com a utilidade que o objecto terá para o comprador do seu ponto de vista, do ponto de vista das suas expectativas futuras. Encontram-se ali o passado do objecto com o futuro que lhe será dado por outra pessoa. Um mercado é um parlamento onde cada um expõe as suas razões e a deliberação é o ajuste, ou trato, de compra e venda.

Comparou-se num conto de Borges o destino a um camelo cego à solta num mercado, atropelando coisas e gente. O camelo (neste caso é um camelo dito civilizado) cego é a imagem do barbárie. E a civilização é tentativa (tantas vezes gorada) de evitar que o camelo vítima de cegueira atropele tudo, gente e coisas, vozes e corpos.

 Não sendo exegeta autorizado de Galeano tomo como boa esta breve alegoria e uma das melhores definições de que me lembro. Civilização é um caminho, a primeira frase do texto: «Enquanto os deuses dormem, ou fingem que dormem, as pessoas caminham.» E a última é o que as faz caminhar; proteger as suas coisas, os seus sonhos de futuro e a memória de si próprias. Pensando tantas vezes «my things don’t want to go with you», escolhendo um caminho para as suas coisas. E escolher um caminho, por definição, é recusar um outro. «As minhas coisas não querem ir contigo» pode ainda ler-se de outra forma: «Sinto a obrigação de proteger as minhas coisas de ti; não as saberás entender; vais destruí-las ou condená-las ao esquecimento.»

Sobre soliplass

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