O velho Broker, Quixotes e lobos

Fui-me sentar-me há dois dias no velho Broker enfronhado em leituras velhas. Que me perdoem os que aqui passam o blógico pousio. Tem isto de escrever blogs a suprema chatice de ficar a gente com menos tempo para ler os outros (e de retirar tempo aos leitores que em ler melhor gente poderiam ir entretidos). Lê-los, é conviver a gente com gente boa ainda que dos calcanhares lhes não passemos. Não há contudo que invejá-los. Melhores são, maior quinhão de desgosto pelo que observam lhes cabe; e mais estranhos se acham num mundo de doidos.

«Past is a foreign contry», lembrou-nos L. P. Hartley em The Go-Between: «they do different things there.»

Ao ler o que escreveu José Gomes Ferreira cujo primeiro volume  de uma antologia da Moraes tive por companhia (foi andarilho famoso e amante dos cafés, pergunto-me se teria entrado aqui no velho Broker já que foi cônsul na Noruega por algum tempo) rapidamente compreendemos que no passado português não há um país estranho nem as coisas eram muito diferentes. E que hoje, com pequenas variações poderia continuar a escrever mais ou menos o mesmo. É divertido imaginar que outro certeiro verso teria hoje dedicado ao país do Gravatas de Boliqueime – como os dedicou outrora ao Botas de Santa-Comba. Que versos dedicaria a este inenarrável escroque (refiro-me obviamente ao líder do partido que ainda me lá tem inscrito como militante) que como a pomba da boa-nova nos aparece agora ao quadragésimo dia do dilúvio (a que reduzem seis anos de roubalheira por atacado ou a miúdo) com o ramo do Estado Social no bico? Quem ganhou o debate se o tenor do liberalismo e do privatizar se a pomba da boa-nova? Muito se havia ele de rir da pergunta… o poeta militante… ou de chorar, a pensar no riso de agora, que é como o que escreveu em 35-36:

]…[ E riam-se nas caves/ os beleguins das penhoras.

Ria-se o ranger da boca dos ventos/ na fome das barcas…/E riam-se os avarentos/ com o sol nas Arcas

….

Riam-se as lágrimas das mães/a embalarem a morte dos filhos./ E riam-se os cães/em berços de junquilhos.

Riam-se os gigantes verdadeiros/ em surdas vozes/ E riam-se os carneiros/… de serem ferozes.

Ria-se a pobre gente/sem alma nem pão/ no incêndio do pó dos caminhos…/ E principalmente/ – ah! e principalmente! -/ riam-se em furacão/ os donos dos moinhos. ]…[

Que fazer ou comentar? Da presente época histórica, da democracia portuguesa seguindo fantoches e cabides, tontos e macumbeiros, e que se achará entregue à escumalha-correia-de-transmissão entretanto sufragada na segunda-feira próxima, bem se pode fazer seu este retrato do mini-poema (IV) de José Gomes Ferreira em A Morte de D. Quixote:

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