Não há quem resista a esse exército

Na sua colectânea de contos Romance Negro e Outras Histórias (Rio, 1992, Schwarcz), há um conto de Rubem Fonseca chamado intitulado Olhar. Alguns leitores o conhecerão provavelmente. O achacado personagem principal, ao consultar o médico (dr. Goldblum), mostra-lhe um poema cujo final o físico acha grosseiro, dizendo-lhe que «palavras chulas não se coadunam com poesia.»

O poema, tinha por título Trabalhadores da Morte, e corria do seguinte modo:

Joyce, James se emocionava com a marca marrom

de cocô na calcinha

(nem tão calcinha assim, naquele tempo)

Da mulher amada.

Agora a mulher morreu

(a dele, a sua e a minha)

e aquela mancha marrom de bactérias

começa a tomar conta do corpo inteiro.

Elas atacam em turnos:

muca, muscina e califora, belos nomes,

dão início ao trabalho de destruição;

lucília, sarcógofa e onésia

fabricam os odores da putrefacção;

dermestestes (afinal um nome masculino)

cria a acidez da pré fermentação;

fiofila, antomia e necróbia fazem

a transformação caseínica dos albuminóides;

tireófiro, lonchea, ofira, necroforus e saprinus

são a quinta invasão, dedicada à fermentação;

urópode, tiroglifos, glicífagos, tracinotos e serratos

consagram-se à dissecação;

anglossa, tineola, tirea, atageno, antreno

roem o ligamento e o tendão,

afinal tenébrio e ptino acabam com o que restou

de homem, gato e cão.

não há quem resista a esse exército

contido num cagalhão.

Ao que o médico sugeriu outro final, menos grosseiro a seu modo de ver:

afinal tenébrio e ptino acabam com o que restou

de homem, gato e jumento.

não há quem resista a esse exército

contido num excremento.

Qualquer que seja a forma final que se venha a preferir para este poema biológico (ou necrológico), não deixa de ser impressionante o exército contido num cagalhão (ou excremento, para mentes mais rebuscadas) e o seu poder destrutivo. Ao poder destrutivo deste exército de cagalhões (ou excrementos, de que se fala aqui ou aqui) nos tecidos de um país com os pés para a cova, quem tiver paciência e jeito que lhes trace os versos e rimas merecidos. A mim já me vai parecendo que mereciam que se lhes epigrafasse na guedelha três pranchadas (de alto a baixo e com pouco jeito) para não andarmos com endechas e redondilhas.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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2 respostas a Não há quem resista a esse exército

  1. eu não gosto muito de conto mais rubem fonseca sempre foi um caso a parte li isso faz muito tempo nem sei porque lembrei mais sempre achei louca a abordagem rs

  2. adoro esse tipo de escrita

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