Autoridades e Alfândegas

Ainda a respeito de Fielding do post abaixo, ocorreu-me uma das últimas páginas que escreveu nos seus últimos dias de vida – no seu A Voyage to Lisbon (entrada de terça-feira, 6 de Agosto de 1754) – ao ler o último livro de J. Rentes de Carvalho trazido por mão amiga de Portugal; o La Coca. Logo no início do La Coca, há dois episódios deliciosos que por si só quase que retratam o país; são os episódios do confronto com a burocracia alfandegária ou policial. Um na chegada do jornalista narrador a Portugal com a inspecção carregada de suspeição das câmaras fotográficas num tempo mais recente, e outro de uma partida de décadas atrás, que o narrador rememora, um episódio em que (a pretexto de uns papéis militares) os funcionários quase lhe fazem perder o avião. Para onde, finalmente, e retirada que tinha sido a escada, acaba por ser içado por um monta-cargas aliviado por se livrar de um país. É um dos encantos do livro; a visão a partir de fora no sentido geográfico e temporal (é também um regresso ao passado) que faz as três ou quatro horas de leitura que o livro requer valer cada segundo.

Como escreveu Fielding (no prefácio do Voyage) e que constitui uma deliciosa e célebre apologia da literatura de viagens:

“There would not, perhaps, be a more pleasant and profitable study, among those which have their principal end in amusement, than that of travelers or voyages, if they were writ, as they might be and ought to be with a joint view to the entertainment and information of mankind. If the conversation of travelers be so eagerly sought after as it is, we may believe their books will be still more agreeable company, as they will in general be more instructive and more entertaining. (…) If the costumes and manners of men were everywhere the same, there would be no office so dull as that of a traveler, for the difference of hills, valleys, rivers, in short, the various views we can see the face of the earth, would scarce afford him a pleasure worth of his labour: and surely it would give him very little opportunity of communicating any kind of entertainment or improvement to others.”

É esse apontar dos nossos usos e costumes (no caso do livro de J. Rentes de Carvalho há já perto do final o episódio do camião de contrabando apreendido arrematado em hasta pública depois e cujo recibo de compra vai permitir contrabandear legalmente a mesma mercadoria, coisa a lembrar as ilegalidades legais que por aí se vão fazendo, leilões e concursos) que faz quer a página de Fielding quer todo o livro de J. Rentes de Carvalho tão deliciosos. Retratam coisas do carácter nacional que perduram no tempo:

No Caso de Fielding, muito doente (viria a morrer em Lisboa pouco depois), e porque a viagem até à Provença era custosa, decide vir a Lisboa em busca de melhoras, e parte por mar, até chegar ao largo de Lisboa onde o navio se deteve ancorado para inspecção sanitária. E é desse episódio de chegada e encontro com as autoridades portuguesas que Fielding nos deixa este retrato; um retrato que quase (mudando os adereços) poderia ser de hoje.

Sobre soliplass

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