Um ninho de passarões silenciosos

Abateu-se sobre este latrocíoníssimo e almerindoso assunto (ou porque andem os espíritos alvoraçados com a refrega eleitoral ou porque desígnios mais altos se alevantem) um benéfico e plácido silêncio.

Que não se espere sobre o caso artigo espesso e subtilíssimo do Sr. César das Neves (às segundas no DN) ou de qualquer outro dos demais membros da casta e vasta confraria dos Anacoretas-de Obra-Grossa. Concordemos que o assunto não é dos mais fáceis: não só pelo montante como pelo insólito concubinato de toda as virtudes do Intendente com todas as rectidões da Feira do Relógio. O nosso supremo magistrado, pastor da nação e das boas práticas, sobre isso, dirá nada, em caso algum. E se instado, lá lançará provavelmente ao vento – de mistura com alguns perdigotos boliqueimeanos – a tradicional e sua mais célebre frase: «o presidente não se deve pronunciar sobre essas matérias», doutrina que aprendeu da circunspecta pedra do altivo Padrão da Guiné. Do qual parece que tomou exemplo e ensinamentos quando andava a trepar coqueiros. Bom aluno de Bossouet, celebra-lhe assim o aforismo il faut laisser le passé dans l’oublie et l’avenir a la Providence…, robusta e sã doutrina onde qualquer ladravaz ou astucioso não veria carunchos nem quiproquós, quer na generalidade quer na especialidade, em plenário ou em comissão.

No Life of Johnson conta-nos Boswell (anno de 1730), que do antigo colégio de Pembroke – e comentando o facto de tantos dos seus ex-alunos terem sido poetas – Johnson teria dito aquela famosa frase do ninho de pássaros cantadores. A página em questão:

Ao que tudo indica da academia de York sobram-nos passarões mudos muito contrários à poluição sonora. A era vai ecologista (ao que tudo indica), e propícia a passarões silenciosos…

É claro que, tudo isto pode ser modéstia. E que nesta prática salteadora, em alto grau rodoviária -e em bolso de contribuinte piscatória -, não veja o altíssimo magistrado pecadilho de monta. Provavelmente até disso terá orgulho (vergonha não há que esperar dali) em se tratando de um bom discípulo como parece ser este Almerindo das autorrutes. Pode tratar-se até, e é de crer, de assunto de escola ou confraria que o traga orgulhoso, não dando dele alarde por questões de modéstia e parcimónia: já Cervantes nos fala dessa espécie de cegueira desculpável e compreensível dos seres aparentados; no prólogo quixotesco:

E se calhar, sua excelência (estando orgulhoso de quem faz grandes e gordos negócios), não fala destas coisas por ser modesto. Afinal o silêncio e a clausura é o sinal primeiro de uma alma que desconhece a soberba, achando talvez por isso que não deve das virtudes e vitórias de um dos bons alunos fazer alarde através de restolhadas e buzinares escusados. Provavelmente só em sítio muito recatado «las juzga por discriciones y lindezas y las cuenta a sus amigos por agudezas y donaires.»

* Adenda: “Os custos que nos arruinam vêm de direitos exagerados concedidos a pessoas sérias e trabalhadoras, que recebem do País mais do que contribuem. Os direitos em causa são razoáveis e compreensíveis, mas insuportáveis.escreve o Sr. César das Neves (vi agora) no DN. De almerindosas coisas… viste-las!

Sobre soliplass

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