O lixo, o epitáfio que não existiu, a frase mais tenebrosa da história, nós, e os europeus

Num daqueles golpes de sorte, encontrei um livro procurado havia muito debaixo de uma pilha poeirenta, num alfarrabista em Oslo. O Forced Labour, a primeira edição, capa rígida…

É um livro já desactualizado, especialmente depois da abertura dos arquivos a Leste. Mas tem a curiosidade de ter servido a Soljenitsine como base para o calcular de um número macabro. Disse-nos o mais famoso dos dissidentes que nunca teriam estado em qualquer momento nos campos soviéticos mais do que doze milhões de seres humanos. Para essa estimativa Soljenitsine socorreu-se deste livro de Dallin e Nicolaevsky, que aparecem citados apenas numa curta nota de rodapé. Ao lado, a página do Gulag (de uma edição inglesa) com a nota de rodapé em causa.

Soljenitsine, falecido a 3 de Agosto de 2008, foi o símbolo do escritor dissidente (há nas memórias de Raymond Aron o relato da célebre admoestação a Kissinger -por este ter aconcelhado o presidente Ford a não receber o escritor – lembrando-lhe de que tipo de dissidente se tratava) e o lutador supremo pelos direitos humanos e pela verdade no séc. XX. Nas páginas iniciais de O Carvalho e o Bezerro o escritor conta as mirabolantes estratégias de composição de memória, com códigos, pauzinhos de fósforos, e o medo permanente de ser – mais que descoberto pelo público -, encontrado (e ao que escrevia) pelos órgãos de repressão política. Foi à memória de Soljenitsine que apareceram na blogosfera portuguesa por essa altura alguns posts de homenagem, de entre os quais destaco o de José Adelino Maltês no Tempo que Passa e o de Rui Bebiano no Terceira Noite, textos sempre de rever porque revelam verdadeiros homens de cultura. Num outro grande post o sempre excelente Pedro Correia chamou-lhe emblema da liberdade: aqui.

De entre os casos relatados por Soljenitsine, os casos individiais no seio dos milhões, há esta frase, que pessoalmente considero a mais negra da História da humanidade, ou da desumanidade; proferida pelo comissário Krilenko num dos célebres julgamentos soviéticos e dirigida à cidadã Ivanova. Ver a ligeireza com que o substantivo troika entrou no recente léxico português, conhecendo-se-lhe o significado original, causa arrepios… A frase dita a Ivanova é esta, da página abaixo, e tem quanto a mim um impacto superior à tradução portuguesa:

And we’ll find a way to fix it so you never laugh again

No início de Agosto, o grande vulto que, provàvelmente, através de uma obra escrita mais influenciou a história europeia na segunda metade do sec. XX, falecia deixando também a memória – que valorizaria para sempre – de um aperto de mão (um simples gesto do brigadeiro general Travkin, que tinha acabado de ouvir dois berros dos oficiais inferiores, que se sentiam suficientemente seguros para gritar com um general do Exército Vermelho) aquando da sua prisão, e considerando-o o acto mais corajoso que tinha visto durante a guerra. Não admira que tenha escrito posteriormente no Gulag que o grande crime colectivo da sociedade soviética nem tinha sido (da parte dos indivíduos) o fazer o mal de forma directa, mas o voltar as costas e fingir que não se via sempre que uma pessoa ou outra caía em situação de infortúnio: o crime da indiferença. É claro que a nossa esquerda retinta não gosta de muito do que apontou, mas suspeito que nem a nossa direita. A parte da indiferença quanto aos destinos individuais dos que nos rodeiam não lhes deve cair bem no goto por intragável.

Recentemente a Moody’s declarou-nos lixo, o que motiva editoriais indignados do Jornal de Negócios. O que é fácil, escrevê-los e ser pago por isso, difícil seria advogar outra forma de fazer negócios, ou mais difícil (e exemplo de Soljenitsine), advogar para que nem tudo se negoceie.

Já por aí escrevi que a blogosfera nos dá uma imagem fabulosa (para lá do que se escreve) do que não se escreveu. Nas últimas eleições europeias aparecia este painel de um dos candidatos (por sinal o candidato do partido mais votado em Portugal e onde ainda devo estar registado como militante, com os dizeres: Nós Europeus. Por mim, olhei para aquilo a pensar na cidadã Ivanova, e na morte e na vida de Soljenitsine, e pensei com os meus botões: «para seres europeu, falta-te um bom bocado.»

É que, sendo o cavalheiro da imagem até há pouco (não sei se ainda é), director do Mestrado de Direitos Humanos da mais célebre e antiga universidade portuguesa, escrevendo que se desunha o cavalheiro de nívea cabeleira e bigodaça por folhas, almanaques, tomos e quejandos (a ponto de ser inigualável castigador de prelos e rotatórias), escrevendo o cavalheiro um prolífero blog onde o assunto é quase invariávelmente política, em Agosto de 2008, o cavalheiro não teve duas linhas que dedicasse por epitáfio (à semelhança dos homens de cultura Rui Bebiano e Adelino Maltês) ao símbolo maior da luta pelos direitos humanos no séc. XX; como se pode constatar e verificar no arquivo do Causa Nossa desse mês.

E como eu não vi até hoje quem lho apontasse – fosse por reverência à sua infalível sabedoria, fosse porque também nós não damos importância ao assunto e de memória só trazemos o pin do multibanco -, de dentro ou fora da universidade, creio que aquela frase de «nós europeus» faz pouco sentido. Tanto se aplique ele como a nós, e ao povo que somos – nós e ele.

O problema não  é tanto que a Moody’s nos declare lixo. É que o senhor do cartaz, as parangonas com que enchemos cartazes, preces, liturgias, teses de mestrado, publicidade, comentários, linguagem instituicional, pouco mais é do que isso: lixo, carregado de indiferença para com o nosso semelhante e imemorioso.  E que, para europeus nos falta quase tudo; menos o rótulo. Disso, não há negócios (com ou sem jornal) ou ciência económica que nos livre.

Sobre soliplass

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