El tren arranca, lentamente

Foi quase há dois anos que Joana Lopes no Entre as  Brumas falava de uma certa Espanha de há meio século:

No fim dos anos 50, de comboio a caminho de França, atravessei pela primeira vez Espanha. Nunca esquecerei a miséria de Castela, muito maior do que aquela que eu conhecia então em Portugal, com «aldeias» feitas de buracos nas encostas de pedra. O único centro de algum divertimento era a estação de caminhos-de-ferro, onde adultos e multidões de crianças, quase todos descalços, acenavam e estendiam as mãos para as nossas janelas.

Por ser mais novo, não apanhei a Espanha deste tempo. Apanhei uns restos disto nos anos oitenta também quando ainda não tinha idade para ter juízo e uma donzela belíssima de cabelos longos em Paris esperava por mim. Havia ainda uns restos deste cinzentismo, e uns focinhos e olhos incendiados de lobo da Guardia Civil a lembrar a miséria e esses anos sobre os quais escreve Joana Lopes – denominados por Galán Los años del miedo, título do seu livro que os descreve.

Paradoxalmente, esse cenário ferroviário sujo e triste (se bem que num período anterior) serve de cenário a um dos mais belos poemas de Juan Ramón Jiménez:

 

 

El tren arranca, lentamente. El pueblo viejo

tiene en sus grandes casas, sucias y silenciosas,

una opaca, doliente y suave claridad,

perdido entre las gasas azules de la aurora.

Se ven calles sin nadie, con las puertas cerradas;

un reló da una hora desierta y melancólica,

y, en una pared última, cerca del llano verde,

vacila polvorienta, una triste farola.

Llovizna. Algunas gotas mueren en el cristal.

Los molinos de viento son vagamente rosas.

Huye más el paisaje… Y la ciudad se pierde

allá en el campo inmenso, que un sol difícil dora.

…Desde el lecho, abrazados, sin nostaljia y sin frío,

fundiendo en una sola las ascuas de sus bocas,

dos amantes habrán oído, como en sueños,

este tren lento, largo de cansancio y de sombra.

Melancolía  (1910-1911)

Sobre soliplass

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