Zweig e a mobilização

Quem dera que Pedro Correia (em mais um dos seus excelentes posts no Delito de Opinião: Os sinais da História) não tenha razão no que escreve sobre os nacionalismos. Comprado na ùltima quarta-feira à passagem por Paris, vou relendo livro da foto do último post em versão francesa; Le Mond d’hier. Devolve-nos a memória de uma Europa que mergulhou na catástrofe, através do relato de um dos seus mais emblemáticos escritores, e uma das suas mais emblemáticas vítimas: Stefan Zweig. Nos últimos tempos da sua vida (suicidar-se-ia em Petrópolis em 42) escreveu sem arquivos ou documentos um dos melhores retratos da Europa e do seu tempo. Retrato que deve em muito a riqueza e vivacidade à sua perspectiva de vida vienense. Viena foi o grande centro cultural europeu onde se cruzaram todos os paradoxos políticos da época, todas as grandes correntes intelectuais de um mundo cosmopolita e multi-cultural: a política de massas a coabitar com os restos mortais de um Ancién Regime, por sua vez coexistente com as mais avançadas instituições representativas liberais do tempo. Um centro cosmopolita e tolerante que se tornou em pouco tempo um antro de intolerância, ou, que mostrou, e foi apontado por Alfred Polgar (citado por Magris no seu Danúbio) que não é preciso muito para que a tolerância do “vive e deixa viver” se transforme numa indiferença cínica de “morre e deixa morrer“. Em 1938 – refere ainda Magris -, o referendo levado a cabo depois do Anschluss contou apenas com 1953 votos contra a anexação pela Alemanha Nazi, um número um tudo nada superior ao número de suicídios desse ano: 1358.

Zweig lembra-nos (Cap. IX) os dias da mobilização em Viena em 1914 e o sentimento (até para ele um pacifista) maravilhoso de solidariedade de milhares e centenas de milhar de homens «os tais seus contemporâneos que teriam feito melhor se o tivessem sentido em tempo de paz».

Estas páginas centrais da cultura européia deveriam conter um aviso contra este tipo de indivíduos que nos governam. Desprezados porque desprezíveis, têm criado ou deixado criar ao longo do continente europeu uma massa humana que padece de todo o tipo de desigualdades, quer falemos de recursos ou de esperanças, onde o sentimento de solidariedade quase que desapareceu e onde a necessidade – quando não mesmo a fome e o desespero -, campeia ante os seus olhos indiferentes. Resta esperar que a necessidade natural de solidariedade e de incorporação social não se venha de novo a satisfazer através de processos e mobilizações análogos ao que Zweig descreveu quando as instituições tradicionais tiverem perdido a sua força de símbolo e já não representarem nada de coisa nenhuma, nem verdadeiramente ninguém. Lembra-nos Zweig que, segundo presenciou, morte do Arquiduque em Sarajevo (para quem nesse fatídico 28 de Junho de 1914 o menu programava Consomé em tasse, Oeufs à la gelée, Fruits au beurre, Beuf bouillé aux legumes, Poulets à la Villeroy, Riz compote, Bombe à la Reine, Fromages, Fruits Et Desserts) causou pouco mais que indiferença – o escritor recebeu a notícia em veraneio na pequena localidade de Baden –  e duas horas depois não se notava qualquer sinal de luto. Franz-Ferdinand não era um homem estimado nem colhia grandes simpatias. Na família Imperial as querelas e motivos principais de intrigas centravam-se em questões de hierarquia e precedência, com as arquiduquesas relutantes a deixar exumar o arquiduque na cripta imperial dos Habsburgos por este ser casado com uma simples condessa Chotek. E, no entanto, foi o que se viu… Karl Kraus, num dos seus famosos aforismos (Aphorisms and More Aphorisms, 1909) dá uma convincente explicação do funcionamento do mundo e do início da guerra em duas frases, em forma de pergunta e resposta: How is the world ruled and how do wars start? Diplomats tell lies to journalists and then believe what they read.

Junte-se a esta boa e clássica receita de caldeirada krausiana uma pitada de nacionalismos, e temos servido o prato mais típico da culinária européia.

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