Primeiros Ministros

 Olha-se a foto destes indivíduos – antes que os consultores de imagem lhes tivessem passado plaina, lixa e polimento de jeitos e palratórios – e fica-se com a impressão de se tratar de dois pobres diabos. Como qualquer um de nós. E como qualquer um de nós, com uma generosíssima quota-parte de ridículos. Talvez por isso sejam usadas frequentemente pelos seus detractores na blogosfera, onde foram pescadas.

Mas depois que as ditas agências e consultadorias os transformam e semi-deuses, a história é outra: polidos e omniscientes guiam os povos ao som de adufe e pandeiretas apologéticas com que politólogos, articulistas avençados, litterati de serviço e empresários da mesa do orçamento lhes ornamentam a valsa de Bovary. No fim desse período, e desmontados já do pedestal, voltam às figuras tristes de sempre. Um (Blair em compras recentes, contratos de consultadoria, royalties de livros e conferências, etc.) já as anda a fazer há um certo tempo, e o outro se verá; mas isto não pressagia nada de bom: queiramos ou não, isto revela um indivíduo com total falta de escrúpulos e de vergonha. Trata-se, relembremos, do bem vestido saltimbanco cujo nome era ostentado por uma montra em Rodeo Drive. E trata-se ainda, do indivíduo que recentemente foi líder do partido que ainda me lá deve ter registrado como militante. Não é preciso revistar a casa ideológica dos outros para encontrar motivos de vergonhas e embaraços.

 Camilo num dos intróitos a uma das suas novelas do Minho – O Comendador – deixou uma das frases imortais da literatura portuguesa ao descrever os caixeiros do Porto: “Os caixeiros do Porto, sadios e sanguíneos, com as suas luvas amarelas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés, entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias.” E estes, que em sentido contrário dos outros, parecem ter subido das aldeias governo adentro, também com todo o verniz que lhes coube em sorte nos pés, a partir do momento em que lhes faltam os consultores de imagem, se verifica que só nos pés o traziam.

Num daqueles concursos televisivos em que um concorrente enfrenta um Malato, um Cruz ou uma Judite de Sousa, se alguém – respondendo à pergunta de quem foi o Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha – afirmar que foi Robert Walpole (1676-1745) arrisca-se a ganhar uma carrada de euros, ou uma pipa de massa. A gravata do Malato sorri, a cabeleira da Judite ilumina-se, e a audiência aplaude numa atroada de urros e palmas. Porém, creio que o que ainda hoje figura na caixa de correio do 10 de Downing Street é o título de First Lord of Treasury. O uso da designação Prime Minister era, segundo a classificaram os ingleses, «odious»; e era nessa época (o séc. XVIII), «aplied opprobriously to Walpole and disowned by him, as later by Lord North». O Duque de Wellington emitiu por exemplo um aviso onde afirmava que qualquer um que lhe chamasse Primeiro-Ministro durante o tempo do seu mandato tinha como certo esperar um convite para um duelo. Ou, nas suas palavras, «an invitation to pistols at dawn».

A primeira vez que alguém se tornou Primeiro-Ministro no país foi em 1905, quando o termo já tinha granjeado algum estatuto de respeitabilidade. Foi designado Prime Minister of Great Britain em 10 de Dezembro desse ano Henry Campbell Bannerman, o primeiro a usar o título. Não sem que primeiro (a 5 de Dezembro), tivesse sido designado First Lord of the Treasury. Chamarem-se aos outros titulares do cargo em épocas anteriores primeiros-ministros, é provavelmente um efeito dessa respeitabilidade, que foi com o correr dos tempos e com o uso, tendo progressivamente “efeitos rectroativos”. É fácil esquecermo-nos que o prestígio das instituições (e dos termos pelos quais são designadas) é conseguido por um processo cumulativo; e que por processo inverso pode ser delapidado.

O desprestígio do termo na Grã-Bretanha não tinha exactamente que ver com a percepção das instituições e do uso do cargo no país. De facto, era um desprestígio importado. O cargo era associado com a figura histórica do Cardial Richelieu que para ele foi designado em 1625, e que, ao serviço de Luis XIV, granjeou má fama (para usar um eufemismo) como testa-de-ferro do rei tratando-lhe do seu «dirty work» – como diriam os ingleses.  Com essa carga pejorativa chegou a Inglaterra que era à época com os seus ideais de autonomias e liberdades um farol político para a Europa. Não é por acaso que Montesquieu (como muitos outros, mas mais notório no seu caso porque inspiradoras do L’Esprit des Lois) consideram a Grã-Bretanha da época como um virtuoso modelo político e o contrário dos males achacados ao absolutismo monárquico.

Para alguém que se tenha debruçado um pouco sobre as obras básicas de ciência política, ou da história das ideias políticas, estes indivíduos acima, quase que inspiram pena. Pena, pela sua falta de um mínimo de cultura que lhes dê um sentido de missão e não um preço de missangas. O que os impele, ou leva a serem impelidos pelos mais variados cantos de sereias, de forma acéfala, a causar os danos que causam. E o dano principal que causam, nem se produz tanto com o mau governo, ainda que todos lhes soframos as consequências. Prende-se com o desprestígio estampado por (um após outro) tais manequins na imagem de uma instituição que – pelo menos na segunda metade do séc. XX – serviu bem as democracias europeias. Os seus exemplos transmitem às populações dos países por eles governados mais ou menos o que Johnson disse das cartas que Lord Chesterfield dedicou ao filho ilegítimo Philip: cartas que continham máximas classificadas à época como soando a um « philosophe in pimp’s chothes» (lembrar-se-ão disto na Sorbonne?) entre as quais se contam as pérolas «Style is the dress of thougts» e «Despatch is the soul of business». O (até hoje), famoso comentário johnsoniano sobre tais cartas reza da seguinte forma:

«They teach the morals of a whore and the manners of a dancing master.»

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