Páginas inesquecíveis

Há três semanas e pouco, uma manifestação na praça do Duomo em Milão. Saía para a praça com a galeria em frente, meio alheado ao que se passava. Não tivesse a minha mulher comigo e tinha-me encafuado num canto de um café qualquer, abstraído da gritaria do mundo. No saco, um vasto território que tenho andado entretanto a percorrer com vagares. Na Mondadori do Duomo, enquanto a minha mulher procurava as coisas do seu interesse principal (Direito Familiar, da infância e da adopção, um tipo simpático e solícito levou-me ao longo das estantes para reunir o resto que me faltava de Claudio Magris. A ele, se referia ontem Rui Bebiano num texto daqueles que fazem do seu blog um sítio de peregrinação diária.

Tive o primeiro contacto com a escrita de Magris aquando da publicação da tradução inglesa do Danúbio. Estava de passagem por Londres, foi comprado no aeroporto de Heathrow e lido de enfiada. Gostei tanto daquilo que o ofereci de imediato a uma amiga que ainda conserva esse mesmo livro. Li várias versões do Danúbio. Tenho três exemplares da mesma versão inglesa – o livro de capa azul esverdeado, ou verde azulado, com a reprodução de um mapa. Há partes do Danúbio que se tornam mais agradáveis numa língua que em outra. Ou talvez a sonoridade de uma língua se adapte melhor a um determinado texto, ou assunto. Perfiro, por exemplo, a versão norueguesa do Café S. Marcos do Microcosmos a qualquer outra que tenha lido.

O Danúbio, sendo aquela viagem interminável ao longo de um rio e da história da mitelleurope, arrisca-se também a ser um livro interminável porque a ele retornamos por uma espécie de compulsão. Umas vezes a compulsão da viagem. Outras vezes a compulsão e necessidade de repouso. De pousarmos em algo de sólido e belo, feito de nada. Feito de um olhar e de silêncio. Para mim, é esta a página do eterno retorno. A página mais vezes lida. Tivesse por tarefa fundar uma religião e aquilo (uma única página) seria o livro sagrado que lhe aconselharia por fundamento …

Sobre soliplass

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