A actualidade de coisas velhas

Hoje, ao ler o post de J. Rentes de Carvalho no Tempo Contado, com aquela descrição de uma esplanada de província, faria minhas todas as palavras. E também o título: pesadelo. Aliás, é uma das suas qualidades: falar por muita e boa gente, daquela forma económica e melodiosa que lhe é própria. Fazem daquele blog uma das melhores paragens (e das mais dignas de visita) em Portugal. Com a conveniência de bastar um simples clic para se lá chegar.

No café que frequento em Portugal, o da minha cidade, senta-se de ordinário um tipo já em idade de reformado que é um mimo ver. Normalmente traz um livro por companhia que vai lendo, ou do qual vai tirando notas. Trocámos palavras ocasionais, mas não o suficiente para lhe saber o nome ou a ocupação. Imagino que estará reformado. Chega normalmente numa potente custom de cromados reluzentes, o que é bom sinal. Sinal de gosto pelo ar livre. É seco de carnes, sinal de disciplinado. Aprumado, limpo, cordato. Imagino que será muito mais metódico do que eu, pois que na viseira da moto, ou nos escapes, nunca se lhe apanha um mosquito estampado ou uma mancha de poeira ou alcatrão. A minha, mete dó. Compartilhamos, se algo, o gosto pelos livros. E a indiferença perante o o golpe de sobrolho dos circundantes quando vêm um sujeito entregue à arte de ler alfarrábios. Entre outras coisas, é-me útil, além de ser (para mim), altamente decorativo. Sugere-me, independência e razoabilidade, limpeza d’alma. Trocava vinte por cento da população minha vizinha de cidade por mais cem como ele sentados nos cafés. Fosse eu o Moita Flores, fazia-lhe uma estátua como a que os de Salamanca fizeram sentar no Novelty da Plaza Mayor.

Em muitas das cidades de província a coisa apavora; é coisa de temerários sentar-se um maduro numa esplanada entregue à sã convivência com a palavra impressa. Especialmente se o suporte é um livro. Livros, são coisas de desocupados, de gente que dá valor a coisas insignificantes, que ocupa tempo precioso com minudências. Que voluntáriamente se retira da arena das coisas verdadeiramente imperiosas ou apelativas, como o saber com quem a mulher do vizinho passou a tarde.  Enquanto fui estudante nas universidades, tendo uma necessidade de aproveitar todo o tempo a ler as bibliografias – já que sempre o fiz como estudante-trabalhador – toureava os sobrolhos com uma estratégia simples: mesmo tendo o livro em casa mandava muitas vezes tirar fotocópias. É que se um gajo se sentar meia hora numa esplanada a ler fotocópias passa por sujeito diligente que anda a fazer p’la vida. Tanto mais passará se lhe pressentirem que sublinha para melhor esquecer.

Às vezes vou catando os olhares ou golpes de sobrolho desaprovativos. Que podem vir de uma venerável e penteada tia de manga-de-alpaca da repartição, dos tipos da empresa de segurança ali vizinha carregados de chaves e de botas militares, ou dos executivos que vêm confraternizar com os bancários por ali. A coisa, tem o seu quê de divertido. Quando não, de ridículo…

Quase todos os que reprovam a golpe de sobrolho e esgar de desagrado o acto de leitura pública (em se tratando de livros) poderiam subscrever os conselhos que o distinto cónego Borda dava com vista à reintegração de Fabrice na sociedade Italiana da época no La Cartreuse de Parme de Stendhal. É claro que é ficção o descrito na Chartreuse. Mas o que torna a ficção credível é sempre o seu cenário copiado do real.  Passaram dois séculos, e impressiona ver como os quatro conselhos daquele santo homem se mantêm tão actuais em sociedades da Europa do Sul; enfim, se lhe descontar a gente aquele promenor do regime monárquico. O que, continuando a gente a viver em regime de sobas e tiranetes com as correlativas sociedades de corte (vide o bom Canetti em Macht und Mass), não é muito significativo:

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