Elites e Anti-elites

O termo «anti-elites» é usado por João Pereira Coutinho numa das crónicas reunidas em Avenida Paulista para classificar certas elites brasileiras que se demitem da sua responsabilidade de cuidar e orientar. O motivo da crónica, um luxuoso centro comercial no meio de uma paisagem de miséria paulistana. O mesmo se poderia dizer das portuguesas no seu geral: que são anti-elites.

Goste-se ou não das opiniões ou do actuar político do actual Secretário de Estado da Cultura, devemos-lhe ainda e sempre este grande post «Melros nas Oliveiras» onde apelou à “acção directa” no caso da violência contra as mulheres, que é ainda um flagelo em Portugal. É um post de elite, porque não se demite de defender o “elo mais fraco”.

A violência contra o “belo-sexo” a quem os poetas tem deixado as maiores elegias (o verso de Lord Byron deixado como caracterização de Donna Ines, mãe de D. Juan «she was a walking calculation» não vale, porque a gente percebe aquilo dedicado a Anne Milbanke) é de facto abdominável.

No entanto uma das maiores guerras que comprei em toda a vida profissional, teve mais ou menos a ameaça desse desfecho. Entraram-me certo dia pela fábrica onde fui responsável um par de “cavalheiras” que pensavam em termos de teoremas aritméticos, e, antes que eu desse por isso tinham vendido uma colecção de História de Portugal (não lembro se uma daquela grossas de Veríssimo Serrão) a um rapaz pouco mais que adolescente, um gigante em altura mas fraco de miolo, incapaz de concluir o preparatório, de tirar carta de motoreta, e a quem não se podia confiar uma máquina, pelo que práticamente só fazia trabalhos de limpeza. Veio-me contar indignado um operário velhote que aquelas «cabras» já o tinham endrominado com dois beijinhos, e que o ordenado de dois meses ou três já lá ia…

Dado pelo negócio – já concluído, com cheques passados e tudo- armei barulho com as cavalheiras; perguntando-lhes que raio de consciência ou educação teriam, se não tinham notado que o rapaz não era capaz de ler (de forma que o entendesse) o que lhe tinham vendido. Informaram-me as ditas que eram universitárias mas nos tempos livres vendiam aquilo (nobre missão de espalhar a cultura). E mais, que tinham autorização da gerência (isto é, do chefe da contabilidade que se armava em gerente sempre que podia e era um rechapado imbecil), para visitar a fábrica e ali vender. Desceu o contabilista a comprovar, alertado pela vozearia. Não via pecado naquilo. O pai do rapaz, advogou que ele era livre de comprar o que bem entendia. E as senhoras «walking calculation», que eram livres de vender.

Foi então que tive que invocar também a minha liberdade de elitista. Ou desapareciam imediatamente e nunca mais ali punham os pés, ou eram corridas à chapada. Da rija. E o decreto vigorava para o futuro. Fizessem o negócio que quisessem lá fora onde eu não visse, mas não ali com gente cujos interesses eram também responsabilidade minha. O contabilista era de opinião que eu não podia fazer aquilo. «Claro que posso! e o decreto vigora também para si! agora despeça-me!» Não despediu, não porque lhe faltasse a vontade, mas porque os operários trabalhavam horas extrordinárias de noite ou de dia se eu lhes pedisse. Nem elas lá voltaram. Acho que não eram muito dadas a liberdades e convicções «fortes». Ou seja, não entendiam nada da história que andavam a vender. Nem da responsabilidade das elites.

Sobre soliplass

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2 respostas a Elites e Anti-elites

  1. redonda diz:

    Pena não ter ido a tempo de salvar o rapaz.
    E na violência doméstica, quando a vítima é um homem, também a vergonha obsta à denúncia.

  2. soliplass diz:

    Bom aquilo foi mais uma «declaração de princípios» com perspectiva de fim rápido. Também é verdade que ainda que o tivesse salvado daquela não o salvaria de outra; nisto (como as ilhas de água) andamos sempre rodeados de gente irresponsável por todos os lados. Ou de anti-elites.

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