E os que ainda vão tendo a sorte de ter um emprego

O dia de 26 de Novembro de 1942 a que aludi aqui contando a história de Ruth Maier a cuja memória foi dedicada uma vida e uma obra de poesia (um imenso memorial em verso) pela parte da poetisa Gunvor Hofmo, é um dos dias mais sinistros da história norueguesa. Dele ficou a foto clandestina do Donau (o primeiro a partir do cais de Oslo e que conjuntamente com o Gothenland e o Monte Rosa transportaram os 759 judeus dos
quais apenas 25 sobreviveram – mais detalhes aqui, em inglês) que se afasta por trás de um grupo de silhuetas. Dos 530 que embarcaram no Donau a sorte, ou o acaso, pouparia a vida a 9. Um dos que os fados não pouparam ao sofrimento mas que sobreviveu a Auschwitz foi Robert Savisnik, estudante de medicina. Um mês antes – mais precisamente na noite de 25 de Outubro de 1942 – tinha chegado ao hospital de Orkdal o sheriff (o termo lensmann não tem tradução precisa entre nós, poderia tentar-se polícia ou «agente da lei» de província) Anders Grut que lhe pedia o favor de duas palavras em privado. Informou-o que tinham chegado ordens de Oslo para o prender na manhã seguinte. Para Robert Savisnik, a decisão de se escapar não era fácil. O irmão era procurado, o pai tinha sido tomado como refém, e a mãe depois de que a fuga se constatasse teria certamente o mesmo destino.

Na manhã seguinte um outro agente veio prendê-lo. Pediu-lhe que levasse consigo os artigos de toilete que necessitasse, roupa. O carro dirigiu-se a Trondheim onde poucas horas depois seria expedido para Oslo de comboio. Iniciado o percurso, o agente perguntou-lhe se necessitava ou desejava levar consigo algo de pessoal já que passariam pela sua rua. Robert aceitou. O carro parou então em Wesellgate, dizendo o agente que ficaria sentado no carro e que esperaria. Dando-lhe assim a possibilidade de fuga que Robert Savisnik acabaria por recusar. Os detalhes desta e de outras histórias de arrebanhamento de gente que na sua quase totalidade encontraria o tipo de morte nas câmaras de gás que ensombraram o século, são contados numa das mais curiosas histórias de nacionais que conheço: na Historien om Norge de Karsten Alnæs. Digo curiosa porque é recorrente o uso de histórias pessoais. É uma História de histórias, e esta de Savisnik pode ler-se no subcapítulo Andre Vitnesbyrd (pp. 512-20), do vol. IV – intitulado En Ny Arbeidsdag (Um novo dia de Trabalho) cuja bonita capa apresenta passageiros e bagagens numa estação de comboio.

Não me esqueceu com o passar dos anos a história que conta o destino deste homem nem a benevolência dos agentes da lei. Talvez por isso o conto de Frank O’Connor coligido em My Oedipus Complex and Other Stories me tenha causado tal agrado. O conto fala de um
sargento da polícia na Irlanda de antanho que vem visitar a contragosto um
homem pacífico e modesto (old Dan Braide) a sua casa para lhe comunicar que tem
contas a ajustar com a lei por causa de um desacato passado. Evitará o assunto
até ao último momento, quando já tomou o chá e o whisky oferecido pelo
anfitrião, já saiu e o velho volta a ouvir os passos que retornam – “Oh Dan!” he called softy.

O conto tem o maravilhoso artifício de medir a luz (ou a sua falta, que de certo modo
comunica uma imagem de paz e reclusão ambiente natural do velho Dan) no interior da pobre moradia fazendo incidir no corpo e cara do polícia o sol e a sombra; «He stood there, half in the sunlight, half in the shadow, and seeing him so, you would realize how dark the interior of the house really was.» A passagem, é esta, ao fundo da primeira página do conto:

Com a mania de andar com carros de vinte anos e viver abaixo das possibilidades, vindo de Milão, a transmissão partiu à chegada a Portugal. Tive que ir levar acompanhar a minha mulher ao aeroporto muito cedo, no primeiro comboio. A quarenta quilómetros de Lisboa, seriam cinco e meia, entrou uma mulher muito loura que ainda não deve ter
chegado aos trinta. Tirou a menina do carrinho sentou-se no banco em frente. As
duas, as roupas, cheiravam a cama, a sono e a cansaço. Habituado ao
confinamento dos navios, conheço o cheiro e o aspecto, conheço-lhe os gestos.
Da falta de sono e do cansaço físico acumulado e não de um dia.

Abriu a camisa, pôs a menina que ainda não deveria ter dois anos ao peito esquerdo primeiro, em seguida à direita, ocultando a mama esquerda com a camisa azul. Pouco depois fechou os olhos a menina; movimentos lentos e automáticos na pequena bochecha e na boquita que chuchava o mamilo, talvez mais hábito que outra coisa. Mamava
enquanto dormia. A mãe pouco demorou a adormecer também: a mama exposta, a sair da
camisa usada há já três dias. As calças de sarja com bolsos laterais e as botas
com protecção de biqueira denunciavam-na, pelo pó mal perceptível, pelo
amarrotado, como repositora de supermercado ou operária de fábrica; ou algo de
parecido. Só são disponibilizadas duas fardas? Não me admira. Os movimentos da
mão da menina desvendaram a outra mama. E ali ficou, todo o caminho de mamas
expostas para fora da camisa azul de três dias, a filha prestes a cair-lhe dos
braços a qualquer momento que os abrisse de sono, a menina dando a impressão de
estar apenas pendurada pela boca no mamilo.

Fiz a viagem atento, os olhos postos nas duas, receoso que a filha lhe caísse. A exposição dos seios raiados de veias azuis à luz do néon e ao escrutínio dos demais passageiros, a forma como adormeceu com a filha prestes a cair-lhe dos braços deu-me a medida (como
a cara iluminada do personagem de O’Connor media a penumbra da cabana) do cansaço que lhe ia por dentro. Tenho-o visto ao espelho, na cara de colegas, poucas vezes assim.
Eram seis quando desceu no Oriente, não aceitando ajuda com o carrinho, modos azedos. Deixar a pequena na creche? Fazer os turnos de sabe-se lá quantas horas? Voltar a buscá-la, comboio de volta, quantos quilómetros até casa e que casa? A que horas chegará
e se sentará finalmente à mesa da cozinha para a refeição da noite? Foi na
madrugada de 9 de Setembro, marca o bilhete de volta de comboio (inclui IVA 6%)
que usei para marcar o Bouvard e Pécuchet.

A lembrança da jovem mulher morta de cansaço, o olhar a cada vez para o bilhete que marca a data, mede o país que fizemos. Mede-o aquela primorosa e nojenta frase «e aqueles que ainda vão tendo a sorte de ter um emprego». País de merda ou esterco verbal (e sempre culto) que em tais filigranas de eufemística se mede. A cada esquina um candeeiro de alíneas constitucionais (a letra morta), três saltos de João Baião com Portugal no Coração. E anda contentinho, científico e rigoroso.

Sobre soliplass

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